Não evoluímos nada em relação ao país que via peões despencando dos andaimes e atrapalhando o sábado

imagem: Moth

Quando Chico Buarque compôs Construção, o Brasil era campeão mundial em acidentes de trabalho. Tal como o personagem da música, muitos outros peões de obra e outros trabalhadores saíam pra trabalhar e não voltavam pras suas famílias. Nas grandes obras tocadas durante a ditadura as mortes eram mais frequentes. Na Rio-Niterói eram tantos acidentes1Embora os números oficiais, relatados pela mídia da época, situem as vítimas fatais em torno de trinta trabalhadores, estima-se um número real ...continue que surgiu uma lenda urbana dizendo que suas pilastras eram feitas “de concreto e paraíba” (muitos dos peões eram migrantes nordestinos).

Como um operário conseguia testemunhar um acidente de trabalho num dia, vendo um ou mais colegas morrerem, e voltar a trabalhar no dia seguinte como se nada tivesse acontecido? Bem, óbvio que a resposta é a necessidade: o cara tinha que trabalhar para alimentar a família, então o jeito era rezar e torcer para ele não ser o próximo a cair de cima da ponte, soterrado no meio do concreto ou eletrocutado por um fio desencapado.

Mas também há uma ideologia por trás disso: um discurso de valorizar o trabalho acima de tudo, o mito do trabalhador “machão”, corajoso, que não tem medo de nada, impetuoso, aquela história de “matar um leão por dia”, “pegar o boi pelo chifre”, e outras analogias tão brasileiras. Se você é trabalhador mesmo, não pode ter medo, não pode questionar, não deve fazer muitas perguntas (“manda quem pode, obedece quem tem juízo”), ou então é logo enquadrado como “preguiçoso”, “vagabundo”, “subversivo” etc.

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Ninguém nasce servo. Aprende-se a ser um. Aprende-se a aceitar a servir a um chefe carrasco, trabalhar em péssimas condições, sem segurança, por um salário de merda, e ainda AGRADECER por isso. Como na música de Chico Buarque:

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague

Mais de 40 anos depois, Construção segue atual. Talvez não tenhamos tantos acidentes em obras como no passado (até porque, nem temos tantas obras como no passado…), mas temos, por exemplo, patrões puxando manifestações contra prefeituras para que seus negócios continuem funcionando normalmente no meio de uma pandemia mortal, mandando seus empregados ao trabalho sem segurança, enquanto eles mesmos se mantêm em casa, protegidos do vírus. Não evoluímos nada em relação ao país que via peões despencando dos andaimes e atrapalhando o sábado.

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague!

Referências   [ + ]

1. Embora os números oficiais, relatados pela mídia da época, situem as vítimas fatais em torno de trinta trabalhadores, estima-se um número real muito maior, considerando a censura então vigente.
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A atualidade de "Construção", do Chico Buarque

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