The Last of Us e a ética

Diante da chance de salvar milhões com o sacrifício de apenas uma vida, como devemos agir? Na filosofia, encontramos respostas a essa problemática

Cena do jogo The Last of Us

A discussão ética perpassa a série de jogos The Last of Us. Como filósofo, isso é uma das coisas que mais me interessam no game e me levam a falar dele, já passados dois anos do seu último lançamento – o primeiro The Last of Us foi lançado em 2013; sua parte II saiu em 2020, quando escrevi uma primeira versão deste texto. Embora não tenha o console, me entreti bastante ”jogando” o título no Youtube, acompanhando um gameplay completo. Não joguei direta ou indiretamente o primeiro, mas tive curiosidade de me inteirar da história. Em ambos, vejo questões pertinentes a algumas correntes do estudo filosófico da ética.

A franquia nos apresenta um futuro apocalíptico, na qual uma grande pandemia gera uma crise que acaba com a sociedade como a conhecemos hoje. A violência se torna muito mais constante, grupos lutam uns contra os outros por sobrevivência ou domínio de territórios, “zumbis” criados pela infecção de um fungo se espalham no mundo. Essa grande situação de conflito e violência levanta diversas questões éticas. É correto aderir a essa violência para proteger seu interesse? É correto matar ou mesmo fazer coisa pior, dado esse contexto?

Nós assistimos aos personagens lidarem com todo o drama que se segue desse tipo de pergunta. Ao mesmo tempo que percorrem seus objetivos, se chocam com seus sentimentos morais. As problemáticas trazidas pelo jogo são também estudadas pela filosofia; nela, podemos achar respostas para essas questões.. Podemos recorrer, por exemplo, a estudos da ética da guerra (qual a ação correta numa situação bélica?), que poderiam ser relacionados com a situação extrema do jogo, de conflitos diretos entre facções, sendo este um dos muitos subtemas estudados na disciplina.

Um acontecimento central na franquia é o final da parte inicial de The Last Of Us, com implicações muito grandes para a sequência. Joel, o protagonista deste primeiro jogo, se encontra em um dilema. Ele encontra uma garota imune à doença, que pode ser a chave para encontrar uma cura, para salvar o mundo da pandemia. Joel então atravessa o país com ela em busca desse objetivo. Porém, durante toda a sua jornada eles se aproximam muito e a garota, Ellie, se torna como uma filha para ele. Ao final da viagem Joel encontra os pesquisadores que poderão conseguir a cura, e entrega Ellie, mas uma reviravolta o coloca em um dilema: descobrem que só é possível extrair a cura se a matarem. Joel, com sentimentos paternos, diz “não” e luta para tirar Ellie de lá com vida. É claro que as motivações de Joel são principalmente sentimentais e do interesse de grupo, pois ele quer proteger quem ama. Ainda assim, a situação nos permite levantar uma discussão importante em ética.

Estando no lugar do dilema de Joel, qual seria a ação correta? A resposta dessa pergunta pode variar principalmente de acordo com a vertente da ética a que nos filiamos. A ética (aqui me refiro à ética normativa) é uma área de pesquisa em debate, ainda sem um consenso claro. E existem nessa área correntes que defendem ideias diferentes sobre como saber qual a ação correta. Entre as principais temos duas mais populares, que são chamadas de deontológica e utilitarista. Pensemos na difícil escolha de Joel, ou mesmo, para ficar mais impessoal, vamos pensar na escolha do pesquisador que vai fazer a cura a partir da Ellie. Temos a chance de salvar milhões, salvar o mundo todo, e isso tudo com o sacrifício de apenas uma vida, serão consequências incalculavelmente boas. Porém se fizermos isso estaremos ativamente matando uma jovem inocente, que confiou em nós, estaremos violando um princípio ético de não matar um inocente, cometendo uma traição.

Ellie, personagem do jogo The Last of Us

Para alguém que defende a ética deontológica a escolha mais óbvia seria salvar a Ellie. Por que isso? Porque esse é o ramo da ética com enfoque em princípios. Pretende-se estabelecer princípios e a ação correta se baseia em não os violar. Matar a Ellie, não importando as justificativas, seria violar um princípio muito basilar da ética, o de preservar a vida humana, principalmente inocente (pode-se aceitar que se mate criminosos ou por legítima defesa, por exemplo). Caberia a um Joel deontológico proteger esse princípio, como ele o fez no primeiro jogo. É absurda a ideia de matar Ellie, mesmo que seja para salvar muitos. Por que, se o fizéssemos, salvaríamos os outros, mas a que custo? No que teríamos nos tornado?

Já para quem defende uma ética utilitarista, a escolha seria a de conseguir a cura. Isso porque no utilitarismo o que importa para uma ação ser correta são suas consequências. O foco não está em princípios engessados, invioláveis, mas em que tipo de ação iria trazer mais “utilidade” (aqui no sentido de “felicidade”, ou “bem-estar”, ou mesmo “atingir interesses” de todos). Se conseguirmos a cura, mesmo matando a Ellie, poderíamos salvar milhões, reconstruir o mundo. Não apenas uma enorme quantidade de vidas, mas o bem-estar, uma sociedade com uma vida melhor para todos, e tudo isso com apenas uma única morte. É um cálculo simples para um utilitarista: uma vida não vale o mesmo que milhões. A perda de Ellie, ou mesmo o sofrimento de Joel com sua morte, seria muito pouco comparado ao sofrimento poupado no mundo todo com a chegada da cura. Caberia a um pesquisador com visão utilitarista conseguir a cura a qualquer custo como ele tenta no primeiro jogo. Se não fizéssemos isso, como carregar o peso do sofrimento de tantos? Como Ellie carregaria esse peso? Tudo isso volta para nos assombrar no segundo jogo.

Um grande nome da defesa da deontologia na história da filosofia é Immanuel Kant (1724-1804). Já grandes nomes da defesa do utilitarismo são Jeremy Bentham (1748-1832) e Stuart Mill (1806-1873). Claro, mesmo hoje em dia o debate continua, e ainda temos grandes pesquisadores de ambos os lados defendendo uma dessas duas correntes mais populares. Existem ainda pesquisadores que buscam alguma conciliação entre elas. 

A filosofia não nos fornece uma resposta definitiva de qual a escolha certa ou em qual modelo de ética devemos nos basear. Mas ela nos apresenta uma base teórica que nos permite entender melhor as questões que enfrentamos e sermos coerentes com os valores que defendemos. Nossa escolha, tendo base ética, é mais informada. Conhecendo a ética deontológica e concordando com ela, Joel poderia descansar tranquilo com a convicção de que fez a escolha certa.

Rafael Teixeira
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