Pedro Novelli e outros: Filosofias da Resistência

É possível falar de uma filosofia brasileira ou de uma filosofia latino-americana? Existe, na produção local, consistência, identidade e caminhos próprios? Qual a relação entre as filosofias dos colonizados e os tradicionais centros de influência? Estes temas e outros foram a pauta do VIII Encontro da Pós-Graduação em Filosofia da Unesp de Marília, que ocorreu de 10 a 14 de novembro na sede da universidade.

Na entrevista abaixo, a comissão organizadora do evento — coordenada pelo professor Pedro Novelli e formada também pelos mestrandos Amanda Veloso Garcia, Iraceles Ishii dos Santos, Mariana Vitti Rodrigues e Nathália Pantaleão — aborda alguns pontos críticos deste debate. “Pretendemos despertar a atenção para a valorização de outras formas de reflexão filosófica diferentes do pensamento europeu”.

Entre os temas tratados, a relevância de falar em identidades locais para a filosofia em época de globalização, a permeabilidade dos grandes centros ao que é produzido aqui, leituras sul-americanas de destaque e as filosofias brasileira e latino-americana vistas como filosofias de resistência. Saiba mais sobre o VIII Encontro no site.

Qual o cenário da filosofia brasileira e latino-americana que as palestras nos permitirão discernir? Existe uma produção consistente e original a indicar que esses territórios constituíram filosofias próprias? Quais as possibilidades e dificuldades nesse sentido?

Existe uma vasta produção em filosofia na América Latina, talvez não haja a devida valorização, por parte dos brasileiros, do que é produzido aqui. O discurso acerca da inexistência de uma Filosofia Brasileira, por exemplo, pode se relacionar ao fator de que os brasileiros geralmente não leem os textos produzidos pelos próprios brasileiros. Muitas vezes não há sequer o interesse em conhecer os pensadores brasileiros para avaliar se há (ou não) reflexão filosófica em nosso território. Esse cenário motivou a escolha da temática do evento; nossa proposta é justamente abrir espaço para o diálogo e fomentar o interesse acerca da filosofia produzida no Brasil. Muitos acreditam que a filosofia nasceu na Grécia e, nesse contexto, a produção filosófica que não se assemelha à filosofia grega, ou às mais reconhecidas filosofias alemã, francesa e inglesa, não é filosofia. Assim, alguns profissionais julgam que os indígenas não são capazes de refletir filosoficamente e, em geral, que as ditas “Filosofias do Sul” não são filosofias, talvez por não possuir o “rigor” europeu. Através da realização do evento, pretendemos que as discussões contribuam para despertar a atenção para a valorização de outras formas de reflexão filosófica diferentes do pensamento europeu.

Se é possível responder que, sim, há uma identidade na filosofia brasileira, qual seria um possível cânone autóctone? Quais seriam os filósofos “obrigatórios” a ser lidos no Brasil?

A difícil questão sobre a identidade filosófica brasileira não pode ser desvinculada do debate sobre a universalidade (ou não) da filosofia. Há quem afirme não existir uma Filosofia Brasileira com uma identidade própria porque a Filosofia é universal. Nesse contexto, falar de uma filosofia ‘brasileira’, ‘africana’, “oriental”, dentre outras, não faz sentido. Entretanto, ao que parece, apesar de não fazer sentido atribuirmos uma identidade à Filosofia brasileira, é corrente ouvirmos as expressões “Filosofia Alemã”, “Filosofia Francesa” nos debates filosóficos.

Entendemos, sem a pretensão de resolver essa difícil questão, que não podemos desvincular a reflexão filosófica do contexto sociocultural vivido. Entretanto, pensar a filosofia contextualmente não indica que a filosofia não possa atingir um grau de reflexão universal. Segundo nossa compreensão, através do desenvolvimento da reflexão filosófica que se inicia levando em conta aspectos contextuais, a filosofia pode adquirir caráter universal.

Uma das possíveis características associadas à identidade da filosofia produzida na América Latina em geral consiste em considerá-las como filosofias de resistência, uma vez que procuram romper com o colonialismo e o pensamento europeu que nos foi imposto durante séculos.

Estabelecer filósofos, cujas obras podem ser consideradas obrigatórias para quem pretende conhecer a filosofia brasileira, é contribuir para o estabelecimento de um novo cânone, excluindo outras formas de pensamento. A proposta do evento é justamente romper com o parâmetro eurocêntrico, motivando a busca por outras formas de conhecimento não restritas ao cânone vigente. Assim, não pretendemos estabelecer “filósofos obrigatórios” para a compreensão da Filosofia Brasileira, mas apenas destacar que há uma gama enorme de autores que trazem interessantes ideias sobre filosofia. Recomendamos, por exemplo, o livro em quatro volumes de Jorge Jaime, História da filosofia no Brasil, no qual ele apresenta as principais ideias de mais de cinquenta autores nacionais. Além deste livro que já nos fornece muito material para pensar a filosofia brasileira, gostaríamos de acrescentar as obras dos conferencistas convidados do evento (Leonardo Prota, Paulo Margutti, Julio Cabrera); destacar também outros autores como Tobias Barreto, Miguel Reale, Antonio Paim, Ricardo Vélez Rodriguez, Marcelo Dascal e Luiz Alberto Cerqueira. Vale ressaltar que, segundo nosso entendimento, a Filosofia não é feita apenas por aqueles considerados “filósofos”.

Quanto à América Latina, quais seriam as respostas à pergunta anterior?

Mantendo nossa posição de não promover o estabelecimento de um novo cânone rígido, mas de ampliar as possibilidades de pensamento daqueles que se dedicam à filosofia, gostaríamos de lembrar de alguns pensadores, além daqueles elencados na pergunta anterior. Destacamos filósofos como Enrique Dussel (Argentina), Leopoldo Zea (México), Alejandro Korn (Argentina), Francisco Romero (Argentina), Alejandro Deustúa (Peru), Antonio Caso (México), José Vasconcelos (México), Carlos Vaz Ferreira (Uruguai).

Mesmo que se acredite que as filosofias produzidas aqui e no território dos nossos vizinhos tenham formado identidades distintas, qual a possibilidade do material produzido por elas chegar aos centros tradicionais (França, Alemanha, Inglaterra) e influenciar de fato o debate de ideias?

Diante do contexto colonial que vivemos, acreditamos que é difícil a expansão das ideias aqui elaboradas para os centros tradicionais. Compreendemos que essa dificuldade não se estabelece por falta de densidade filosófica ou de incapacidade por parte dos brasileiros que se dedicam à filosofia, mas é uma questão de séculos de exploração e colonialidade. Entretanto, nosso evento é uma expressão de que há espaços sendo construídos. Quando poderíamos pensar que seria possível um evento com essa temática a alguns anos atrás? Não havia nem sequer o debate sobre a (im)possibilidade de se pensar a filosofia brasileira.

Segundo nosso entendimento, o reconhecimento de uma identidade da filosofia brasileira pelos grandes centros não influencia a existência ou não desta filosofia. Assim, não parece que o debate com esses grandes centros seja uma meta importante a ser cumprida. Em filosofia, o único objetivo é a necessidade inevitável da tentativa de pensar os problemas e não a obtenção de reconhecimento de nossa reflexão genuinamente filosófica por parte de terceiros. Nesse sentido, se os centros filosóficos da França/Alemanha/Inglaterra não permitirem uma abertura para outras formas de filosofar não haverá perda significativa para a filosofia brasileira (ou, mais geral, para a filosofia da América Latina). Vale destacar que uma restrição rígida não contribui para o desenvolvimento da filosofia; uma vez que, acreditamos que o contato com outras formas de pensar nos permite perceber os limites de nosso próprio pensamento bem como ampliar nossas ideias, algo essencial para uma postura não dogmática e também à filosofia.

Se podemos considerar os Estados Unidos como um centro tradicional de filosofia, ou um centro onde a filosofia é reconhecida e estudada nos demais países, temos o exemplo de nosso palestrante Daniel Campos que ministra uma disciplina de Filosofia da América Latina na Universidade da Cidade de Nova Iorque.

Dentro de um processo de globalização ainda mais acentuado pela presteza e ubiquidade das tecnologias de informação atuais, é plausível ainda pensar em, preocupar-se com, filosofias nacionais? A facilidade crescente de acesso não tende a diminuir a importância geográficas dos centros tradicionais e aproximar o pensamento independente da sua localização?

Embora a globalização tenha alterado a forma de relacionamento com o mundo, o próprio fato de grandes diferenças culturais prevalecerem já mostra a plausibilidade de pensarmos no aspecto contextual da produção do conhecimento. Neste contexto, o contato com o pensamento de outros povos e nacionalidades que as tecnologias nos proporcionam, permite um pensamento não dogmático através da troca de experiências e ideias; o que, em nosso entendimento, contribui para a reflexão filosófica. Assim, compreendemos que as novas tecnologias da comunicação não aniquilam as diferenças socioculturais que possibilitam o pensamento filosófico contextual. Muito pelo contrário, as novas tecnologias permitem o diálogo filosófico entre diferentes formas de pensar uma vez que, ao ter acesso ao pensamento do outro, podemos refletir sobre as semelhanças e diferenças existentes em nossa forma de pensar. A proposta do VIII Encontro de Pós-Graduação em Filosofia da Unesp consiste em abrir espaço para este tipo de diálogo que valoriza a alteridade e tenta dissipar os preconceitos que superestimam apenas os grandes centros de produção filosófica.

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