Nós nos encontramos em um momento da vida. Não nos encontraremos de novo

imagem: Kilian Evang

Bateu uma saudade súbita de colegas que pouco conheci. Colegas com os quais estudei nas muitas escolas de que fui aluna, entre Rio e São Paulo. Andei visitando os sites dessas escolas, fazendo tour virtual, vendo fotos delas e uma nostalgia estranha bateu. Estranha, sim, pois sempre odiei a escola. Esses meus colegas, sei que são pessoas que eu provavelmente nunca mais vou encontrar, nomes de que nem mesmo me lembro, rostos que, às vezes, não são mais do que esboços quando tento conjurá-los. Se cruzasse com eles na rua, decerto nem mesmo os reconheceria, e vice-versa. Eu era a garota tímida, a garota com os livros, a garota desenhando no caderno quando era hora de prestar atenção no que os professores falavam. Eu não era a melhor aluna da sala. Eu não era a pior aluna. Eu não era a menina ordeira e nem a menina rebelde. Eu era um ponto de interrogação, algo que não era nem uma coisa e nem outra. A garota que fugia de Educação Física e que inventava contusões e o que mais brotasse na minha cabeça para evitar estar no meio de uma quadra, sob o olhar de todos, sabendo que eu não sera capaz de rebater uma única bola ou marcar um ponto ou escapar dos golpes da queimada.

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Fui muito infeliz no ensino fundamental e no ensino médio. Queria escrever, não sabia como escrever, não sabia como ser alguém. Devo ter parecido fria para os meus colegas, problemática para os meus professores. Ainda assim: a nostalgia bateu. Será que é o tempo? Eu hesitaria em dizer que a maturidade nos faz pensar com saudade em épocas mais simples porque aquela não era uma época mais simples. Era época de uma revolução interna, na minha mente e no meu corpo, os anos em que mais me senti perdida. Mas os anos suavizaram as pontas afiadas e, agora, quando penso nessa época, não é com revolta ou com ansiedade, embora eu ainda tenha pesadelos em que me descubro de volta à sala de aula. Hoje, estava pensando num pequeno bosque que existia em uma das últimas escolas em que estudei em São Paulo. Era um lugar pacífico, pontuado por estátuas de santos de gesso branco e por árvores que ofereciam sombra. Hoje, pensei na luz do sol filtrada pelas folhas daquelas árvores, caindo num caderno de desenho que eu sempre carregava comigo, e onde desenhei uma menina pensativa, sentada também sob uma árvore, querendo comunicar alguma coisa. Meus professores gostavam dos meus desenhos. Diziam que eu seria uma artista. Me tornei escritora.

Sinto dor, sinto pena por não guardar seus nomes, os nomes de todas essas pessoas. Nós nos encontramos em um momento da vida. Nós não nos encontraremos de novo. Se o destino é traçado, cada linha apontou para uma direção diferente e nossos destinos foram se distanciando. Mas eu me lembro. Se não de nomes e de rostos e de datas, eu me lembro de estar lá. Um dia, todos nós estivemos, e todos vocês foram parte da minha vida.

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