‘Na Cidade, finda a sua liberdade moral; cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência’

Dentro de um ônibus, subindo a Avenida da Consolação à tarde (até que rápido, considerando o quanto ela pode ser lenta), olhando de esguelha o rosto das pessoas, me senti tremendamente tentado a concordar com o que eu lia. Dizia, do homem, que ‘na Cidade findou a sua liberdade moral; cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência; pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; e, rico e superior, a Sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimônias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os dum cárcere ou dum quartel…‘. Parece coerente, não?

E continua assim:

A sua tranqüilidade (bem tão alto que Deus com ele recompensa os Santos ) onde está? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pelo dinheiro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de desejar – e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota?

Repisado bem o conceito da infelicidade, partimos a desconstruir as ideias:

Nesta densa e pairante camada de Idéias e Fórmulas que constitui a atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as expressões já exprimidas: – ou então, para se destacar na pardacenta e chata Rotina e trepar ao frágil andaime da glória, inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e que detenha a multidão como um monstrengo numa feira. Todos, intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido; e alguns são macacos, saltando no topo de mastros’

E também os sentimentos:

Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se desumanizam! São como luzes que o áspero vento do viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com desnaturada violência. As amizades nunca passam de alianças que o interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sôfrega do assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade? Considera esses vastos armazéns com espelhos, onde a carne se vende, tarifada, como a de vaca!

Sem vida, sem sentimentos, sem idéias; em tempos que o termo ‘efeito manada‘ é trazido à tona pelo evento ocorrido na Uniban;  em que podemos falar de ‘violência invisível‘ e do controle exercido pelo mercado e pelos papéis sociais sobre as pessoas; em que tivemos casos exauridos pela mídia porém sintomáticos como os de Eloá e Isabella;  e em que podemos ver em filmes e fotos e livros a expressão de hipocrisia, medo e repressão instaurados por determinada moral — bem, nesses tempos em que podemos lembrar disso e daquilo, esses trechos parecem coerentes.

Desci na Paulista. Três garotos maltrapilhos e sujos rodeavam os compradores de sorvete na frente do Macdonald’s. Um cartaz enorme anunciava a conferência do clima em Copenhague. Hare Krishnas vendiam seus livros. Não disse ao longo do texto quem escreveu para que tudo fosse pensado sem reverência ao autor. Mas tudo vem de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós: as cidades de que ele falava já se perderam no tempo, e eram vagarosas e confortáveis perto das nossas. Que acham de tudo isso?

 

Categorias:Ética

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