Lapsos

“Na hora da comunhão, ela faz seu teatrinho. É sempre a última a ir para a fila. Não passa álcool nas mãos antes”

imagem: Apalca

O primeiro Lapso aconteceu antes – bem antes, foi no metrô. A mão não respondia. O corpo queria sair do vagão, mas a mão segurava a barra sem se soltar. A tensão surgiu. A porta se fechou. Perdeu a estação. Conseguiu descer na seguinte, como se nada tivesse ocorrido. Não se lembra se algo parecido aconteceu novamente – provavelmente sim, mas nada tão marcante quanto o episódio do metrô.

Não me lembro dela antes da pandemia. Possivelmente, nunca a tinha visto, nunca fomos à mesma missa. Eu jamais a esqueceria.

A primeira vez que a vi foi quando voltei depois de mais de dois anos. Estávamos as duas sentadas no mesmo lado da igreja, ela uns dois ou três bancos à minha frente.

Chamava a atenção pois usava véu. Estava de costas para mim, e eu a observava antes da missa começar. Ajoelhada. Com as mãos para trás segurando um celular. Sem bolsa, carteira ou outra coisa.

Quando se virou, me pareceu mais jovem do que eu pensava. A maldita máscara abaixo do nariz. Foi nesse momento que peguei birra dela.

Na hora da comunhão, ela faz seu teatrinho. É sempre a última a ir para a fila. Espera a fila estar terminando. Não passa álcool nas mãos antes.

Quando chega sua vez, então, se ajoelha e abre a boca ansiosa para que o padre deposite a hóstia. A máscara ela nem usava antes – muito menos depois.

Eu não comungava, não conseguia sair de onde estava sentada.

O 2o Lapso é o do sono. Acontecia antes também, mas não com tanta insistência, tanto vigor e durando tanto. Antigamente, eram duas, no máximo, três vezes por ano. Agora era uma proporção de umas 4 semanas de sono para 3 de insônia. Não era uma insônia de apenas não dormir. Acordava com fome, um buraco na barriga. E virava uma bola de neve. Dormia pouco mais de uma hora por noite, e depois acordava. Mexia no celular, colocava música de dormir, pensava em qualquer merda. Depois dormia pesadamente a tarde toda. Tornava-se um ciclo que, no começo, durava uma semana, depois duas, agora três, e esperava a hora que as semanas de insônia fossem maiores que as de sono. 

Na segunda vez que vi a Madalena Arrependida, tudo mesma coisa de novo. O que fazia essa mulher agir assim?

O véu, o tempo todo ajoelhada, o teatrinho da comunhão.

Eu observava, cada vez com mais raiva dela. Ela não era uma das Beatas Exibicionistas, que se sentavam na frente, à direita do altar – óbvio. Com terços e a certeza de que iriam para o céu. Não iriam.

Como eu, ela se sentava no meio da igreja. Do lado esquerdo. Ela na fileira do meio, eu naquela ao lado do corredor.

Aos poucos, passava mais tempo olhando para ela do que para o altar.

Foi num sábado em que eu tinha muito sono que eu não aguentei. Na semana anterior passara mais tempo olhando para ela e a amaldiçoando do que concentrada na missa. No fim, me sentia mal.

Na semana seguinte, no meio da missa, mudei para o outro lado do corredor. A culpa não foi exatamente da Madarre, mas de um sujeito que chegou pouco antes da homilia, e se sentou na minha frente sem máscara.

Fui sentar bem à frente, de modo que eu não a visse, e pudesse me concentrar. Funcionou. Em termos.

Um pouco antes disso, eu a tinha visto de frente e de perto depois da missa. Ela era mais jovem do que eu imaginava. Mas a idade não era facilmente definível.

Tinha algo entre 40 e 50, e parecia jovem. Ou entre 35 e 40, e parecia mais velha.

Usava sempre saia até os joelhos, e o bendito véu que cobria seus cabelos. Sempre a mesma coisa ajoelhada desde antes de começar a missa, com as mãos para trás segurando um celular.

O teatrinho também não mudava.

A certa altura na quaresma, passei a olhar para o teto da igreja. Procurar simetria nas pinturas, traçar linhas imaginárias seguindo para onde as mãos dos apóstolos apontavam.

As mãos de Jesus apontavam para frente, então, se eu pensasse numa linha viria diretamente em nossa direção.

Madarre estava lá, tenho certeza, ajoelhada, véu na cabeça, boca aberta. Mas para mim não funcionava mais.

Não era a única sem máscara mas era a única que me incomodava.

Passei a me sentar no lado direito da igreja, um pouco atrás das Beatas, e não a via mais, mas sabia que estava lá seguindo a ordem da sua encenação.

Bocejei. Provavelmente dormiria a tarde toda.

O 3o Lapso era o do Alzheimer precoce. Na idade dela seria precoce ainda? Perdia-se nos pensamento. Fazia listas, e quando chegava no 5o item tinha esquecido o anterior. Uma vez, entre amigos, não se lembrava do nome de um ator, mas o de um diretor, que tinha sobrenome parecido, precisou fazer um longo movimento. De Fassbinder a Fassbender. Ficou envergonhada. Seria apenas cansaço? Obviamente, isso tudo começou muito antes da pandemia. O episódio dos nomes foi, se não se engana, em 2016. Era raro – e ainda não é tão comum ou preocupante, mas acontecia.

Nós duas íamos à missa do sábado ao meio dia. Sempre já estava lá antes de mim. Não só era a missa mais curta, como também mais vazia, por isso eu podia acompanhar Madarre de longe.

Não havia ninguém entre nós.

Quando acabou a obrigatoriedade da máscara, Madarre, obviamente, parou de fingir que usava.

No penúltimo sábado da Quaresma, já me sentei no lado direito num banco onde Madarre ficaria para trás.

Olhei poucas vezes para ela. Meu sentimento de culpa ainda era grande daquele dia que não prestei atenção em nada. Apenas nela.

Eu vi que ela ia embora com o homem que sempre lia o evangelho, e também pedia para as pessoas colocarem as máscaras. Por isso achei estranho, ele andar com ela. Logo ela, a Madarre.

Eles cruzavam o parque enquanto eu esperava para atravessar a rua. Morava ali perto. Certeza.

Aquela mulher me intrigava. Podia ser eu, ou ela podia ser como eu. Mas se fazia de Madalena Arrependida. Perdeu o marido na pandemia? O filho? Era promessa? Reencontrou a religião no isolamento?

Duvido que Madarre se isolou.

Eu começava a fazer listas das possibilidades, mas não conseguia chegar ao fim.

Madalena arrependida.

Beata

Perdeu filho

Traiu marido

Foi traída

Sobreviveu a um acidente/doença

Perdeu

Madalena Arre…

No último sábado da Quaresma ela não foi à missa. Pude me sentar no meu lugar favorito.

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