Apresentação: Das muitas mentiras

Ceci n’est pas une pipe

Neste primeiro encarte “Então é isso o novo normal?”, cinco textos apresentam diferentes experiências no cenário pandêmico, todas elas a contemplarem a falsidade nossa de cada dia

Ceci n’est pas une pipe
Ceci n’est pas une pipe (1929), de René Magritte

Vários são os tipos de mentira. Existe a terra das notícias fraudulentas, tão infelizmente fértil no país de agora. Há ainda as farsas históricas, coisa que se arrasta do passado até o hoje. Uns enganos separam gente; outros, juntam. Vários são os tipos de mentira, é verdade. Mas aqui se quer mesmo olhar para um grupo específico: as mentiras próprias do fim do mundo. Dois anos da pandemia de covid-19 (a bem dizer, quase dois anos e meio) e alguns juram, em nome de todas as crenças, que seguem iguais, sem uma mudança sequer. Jura? Entre o que se fala e o que se esconde, surge a pergunta: como o caos impacta cada um? Eis o ponto norteador do projeto “Então é isso o novo normal?“, coletânea da Úrsula com crônicas e contos.

Neste primeiro encarte, cinco textos apresentam diferentes experiências no cenário pandêmico, todas elas a contemplarem a falsidade nossa de cada dia. Tem-se, por exemplo, o deserto, lugar que poucas pessoas conhecem, o deserto onde se percebe que não existem mentiras. Um casal, Estela e Lucas, que, só por precaução, fazem escolhas on demand. Tudo on-line, tudo on-line. A confissão de alguém que pondera: eu me encaixo na turma de quem se perdeu na pandemia. E, ainda que continue perdido, não perde a coragem de redigir eu. Uma crônica é matéria de grito, o grito preciso: MORTE. Quanto luto suporta o Brasil? E um conto a desafiar o teatrinho em um espaço sagrado. Amém. 

Mentiras próprias do fim do mundo: o sujeito que se engana dizendo que em nada mudou, o fingimento no trato social (uma dada disposição a lorotas rotineiras como pede a etiqueta da coletividade), o par que foge da vida palpável, os inocentes que deixam os cuidados todos para trás (máscara? álcool em gel? máscara de novo?). E não se pode esquecer da mentira pura de invenção, ferramenta necessária para se criar até um deserto. Ou uma Madalena Arrependida. Das muitas mentiras, fique, então, com esta: a literatura – a despeito de sermos, dois anos depois (quase dois anos e meio), bagaço da crise em crise. Boa leitura.

Heloísa Iaconis

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