Corposofia: “Tem alguém aí?” O mito do zumbi e nosso corpo como casa

Ensino da filosofia aliado a uma resgate do próprio corpo. Para além do estresse e do trauma, recuperar a capacidade de pulsar

“O corpo mortificado ou desabitado se contrapõe à ocupação plena de nossos corpos. Como seria estar mais presente em nossos corpos?” | imagem: Gareth Williams

Como seria filosofar no/com/por meio do corpo? A necessidade de sensibilizar a reflexão filosófica e corporificar a experiência do pensamento foi o que me motivou a desenvolver, ao longo da minha trajetória como professor de filosofia e terapeuta psicocorporal da análise bioenergética, uma metodologia dinâmica de se ensinar filosofia. O texto que segue traz uma reflexão crítica de um dos encontros que compõem a trajetória dessa composição metodológica.

O encontro foi realizado na Escola Estadual Professor Coriolano Monteiro – que pertence à rede pública de ensino na cidade de Campinas no Estado de São Paulo –, no segundo semestre de 2017, durante as aulas da disciplina de Filosofia, com 23 estudantes do terceiro ano do ensino médio, na faixa entre 16 e 18 anos. Todos levaram os termos de assentimento devidamente assinados, conforme exigência do comitê de ética, para a realização de uma pesquisa acadêmica. Essa experiência e outras compõem o processo de pesquisa para a escrita da tese de doutorado Corposofia©: Análise Bioenergética para sensibilizar questões filosóficas. Esse processo está registrado como um curso de formação na Biblioteca Nacional1, e, até o momento, já foram formadas quatro turmas de educadores e terapeutas corporais e outros profissionais da gestão de pessoas na modalidade on-line. Os depoimentos2 foram muito decisivos para a continuidade desse caminho, que pode contribuir tanto para a formação de professores que valorizem a autopercepção como base do autonomia quanto para que o público em geral valorize o afeto e a autopercepção como base para uma educação mais conectada aos nossos corpos e às demandas socioemocionais do mundo atual.

Os exercícios de sensibilização são fundamentados na Análise Bioenergética, uma abordagem terapêutica desenvolvida por Alexander Lowen e John Pierrakos, ambos discípulos de Wilhelm Reich, um dos pioneiros da psicoterapia corporal. A análise bioenergética não só nos auxilia a perceber e mapear os locais de maior tensão corporal, mas também procura flexibilizá-los. O Grupo de Movimento (GM) e Consciência Corporal é uma modalidade de trabalho corporal em que os exercícios de bioenergética são realizados coletivamente. Diferentemente de um grupo de terapia, que é focado nas questões existenciais dos participantes, o grupo de movimento procura levar “o participante a um processo de sensibilização e conscientização corporal, de modo a melhorar sua percepção de si mesmo”3. O objetivo é identificar e acolher as emoções, o que favorece a propriocepção dos participantes. Agregar essa ferramenta nas aulas de Filosofia as transforma em uma oficina viva de conceitos, em que as questões são “sentidas na pele” e depois refletidas na experiência e nos referenciais teóricos.

São muitos os filósofos que defenderam que o conceito é algo abstrato, todavia, para autores contemporâneos como Deleuze e Guattari, o pensamento é imanente à vida: “O filósofo é o amigo do conceito, ele é o conceito em potência. […] os conceitos não são necessariamente formas, achados ou produtos. […] Criar conceitos sempre novos é o objeto da filosofia”4. Inspirado nessa definição, o professor Silvio Gallo propõe-nos pensar a aula de filosofia como uma “oficina de conceitos”, na qual a sensibilização é uma etapa anterior à problematização: “a sensibilização é o componente afetivo com o tema trabalhado”5. Sem a percepção do problema, não há processo filosófico possível; já os estudantes bem sensibilizados perceberão o problema como parte do cotidiano, e não alienado do contexto no qual estão inseridos.

Como professor pesquisador que busca se comprometer com a práxis, encontrei na pesquisa-ação uma metodologia mais aberta e versátil. Um risco que corremos nesse tipo de trabalho é perdermos o foco em meio a muitas referências, por isso, para orientar a avaliação do processo, David Tripp buscou organizar a pesquisa-ação em um ciclo básico de realização composto por quatro fases, que perpassam o plano da ação e da investigação: primeiramente há um planejamento; depois uma ação na qual o planejamento é aplicado; em seguida a descrição dos efeitos da ação; e, por fim, a avaliação dos resultados da ação.

Nessa perspectiva, a corposofia é um processo que se torna viável por não utilizarmos quase nenhum recurso material além de espaço físico e nossos corpos, mas um dos desafios é romper a barreira da resistência ao movimento expressivo e se permitir sentir e estar presente, numa sociedade marcada pela aceleração. O objetivo é flexibilizar a resistência ao contato e nos permitir ser afetados pela experiência, sendo o corpo o caminho para o afeto, um dos pilares da formação da subjetividade.

A corposofia se apoia nessa hipótese para atuar com as oficinas de conceitos a fim de promover encontros, para que a filosofia deixe de ser um reservatório de definições congeladas e passe a ser problematizada, permitindo que novos conceitos sejam criados, desconstruídos e recriados.

Para sensibilizar a questão da negação dos nossos corpos e o aumento de casos em que essa dissociação tem gerado consequências em nossa saúde, tanto individual quanto coletivamente, desde crises de ansiedade até transtornos dissociativos de personalidade e suicídios, recorri ao “mito do zumbi”, personagem morto-vivo que tem ocupado o imaginário das crianças e jovens. O corpo mortificado ou desabitado se contrapõe à ocupação plena de nossos corpos, o que Alexander Lowen definiu como autopossessão (self possession). Como seria estar mais presente em nossos corpos? Seria possível descongelar tensões profundas e nos permitir viver e vibrar novamente?

Grupo de movimento: flexibilizando a couraça pélvica

As atividades do Grupo de Movimento se aprofundaram no tema do corpo como casa. Seguem algumas das atividades que realizei.

Perguntei como estamos ocupando nossos corpos, se estamos conscientes dessa casa que é nosso corpo. Iniciamos esse encontro com a “fotografia interna” das tensões, com algumas respirações profundas e movimentos suaves nas articulações. Comentei sobre como vivemos muitas vezes como num piloto automático, paramos de perceber nosso corpo e o mundo ao redor. Pedi que todos desbloqueassem os celulares e andassem apressados pela sala, mexendo no celular (isso durou em torno de dois minutos).

Solicitei que parassem e percebessem como tinha ficado a respiração, se estava mais superficial ou se o coração tinha acelerado. Depois, pedi que voltassem a caminhar pela sala mexendo no celular. Numa nova pausa, perguntei se tinham prestado atenção em objetos específicos da sala e na maneira como os colegas estavam vestidos. A maioria não soube responder.

Para sair desse automatismo, sugeri ao grupo uma brincadeira, chamada de “Oi, pelve”. Pedi para que andassem livremente pela sala e batessem com a lateral do quadril na lateral do quadril do colega, dizendo “Oi”. O grupo se divertiu com dinâmica, que os preparou para a primeira vivência, a brincadeira do “Duro ou mole”, conhecida por esse ou outros nomes em diferentes regiões do Brasil. Eu a adaptei para o tema do encontro. Os estudantes foram convidados a andar livremente pela sala. Ao serem tocados por um dos colegas, ficaria parado como se estivessem congelados, e só poderiam descongelar quando outro colega lhes tocasse e perguntasse: “Tem alguém aí?”. A resposta deveria ser “eu”, para que o “congelado”, se apropriando da casa/corpo que habita, pudesse retomar os movimentos.

A brincadeira “Seu mestre mandou” foi introduzida para se pensar as relações de autoridade e o autoritarismo. Em duplas, um dos participantes inicialmente assume o papel do mestre e outro do discípulo. A primeira consigna foi: peça para que seu seguidor realize movimentos corporais que você quiser, ou dance, ou cante; esse pedido é feito em tom de ordem e nesse primeiro momento o mestre apenas observa a execução; essa parte tem duração de dois a três minutos. Feito isso a dupla troca de função. A segunda parte do exercício é realizada de acordo com a consigna: peça para que o se seguidor execute suas ordens, mas dessa vez você deve ser empático e fazer os movimentos expressivos juntos, ou seja, não oferecer uma ordem que não seja viável para você realizar. Finalizada essa parte a dupla comenta entre si o que sentiu em cada parte do exercício. Qual parte foi mais difícil? O que foi mais fácil ser o mestre ou o seguidor? Como isso pode ser visto no nosso cotidiano nas relações de autoridade?

Continuando no tema do corpo como casa, a próxima brincadeira que fizemos é conhecida como “Casa, morador e terremoto”. Ela geralmente é usada para trabalhar em grupo o tema do pertencimento e exclusão. Essa dinâmica pode ser feita em lugares fechados ou até apertados, o que facilita as trombadas entre os estudantes, que se divertem muito. Os participantes foram divididos em grupos de três pessoas. Cada trio forma uma casa, que possui duas paredes e um morador. Os que são as paredes ficam de frente um para o outro, de mãos dadas (como no túnel da quadrilha da Festa Junina). O morador deverá se posicionar entre as paredes. Expliquei que era muito importante ficar atento à consigna “Morador!”. Nesse momento, todos os “moradores” deveriam trocar de “casa”. E, ao ouvirem “Casa!”, dessa vez só os que eram as paredes deveriam trocar de lugar, enquanto os moradores ficariam parados, esperando a formação de uma nova casa. Uma observação importante: a nova “casa” não deveria ser feita com as mesmas “paredes”, ou seja, as paredes deveriam trocar de pares. Por fim, expliquei que ao ouvirem “Terremoto!” todos deveriam trocar de lugar aleatoriamente. Durante o processo, eu perguntava quem ficou sem casa e como estavam se sentindo. Os que tinham casa pensaram em dar o lugar para quem estava sem? Como é isso na sua vida? Você às vezes se sente excluído do grupo, seja na escola, no trabalho ou na sociedade em geral?

Seguindo esse movimento, propus uma vivência que imita as reações de fugir, lutar e congelar. Para estimular a fuga, recuperei a atividade de andar sem deixar que ninguém se posicione na direção das costas. Isso aguça a visão periférica e a reação de fuga. Em seguida, convidei os participantes para andarem normalmente, respirarem e escolherem um colega para formar uma dupla.

O próximo movimento foi inspirado numa vivência da somaterapia, que participei com João da Mata. Ele chamou esse processo de capoeira orgânica. Inicialmente, a dupla começa com um exercício conhecido como “invasor”, ou seja, um invade e outro se protege. Para incluir a possibilidade da fuga no movimento, perguntei se algum estudante já havia feito capoeira. Um deles disse que sim. Falei então que a atividade incorporava os movimentos da capoeira, porém numa lentidão maior, assim tanto quem realiza o movimento se apropria das cadeias musculares que está mobilizando como o que desvia ou defende também não fica em um estado congelado, pois percebe o caminho dos movimentos, isso pode nos ajudar a descongelar e buscar “linhas de fuga” e resistência em nossos corpos. Associei a lentidão da atividade com as lutas dos personagens Neo e Smith, no filme Matrix. A maioria dos estudantes conhecia o filme e achou divertida a comparação.

O próximo passo foi incluir a possibilidade de não apenas defender, mas de criar o caminho para a fuga e a luta. Convidei a dupla a se reposicionar e fazer um pouco os movimentos da capoeira. Eu não tinha levado o som para a aula. Então, pela primeira vez, eles sugeriram uma música de capoeira. Retomando as duplas, disse que a posição do grounding deveria ser mais fluída, pois a sustentação deveria oscilar entre as duas pernas para favorecer mais amplitude aos movimentos, já que o seguinte incluiria as pernas e não haveria mais separação entre “invasor e defensor”. Assim, os participantes iam lentamente com os braços invadindo o espaço do outro, e esse não mais se defendia, mas escapava do movimento com lentidão. Aos poucos, as duplas foram se sincronizando. Chamei a atenção para a respiração, solicitando que explorassem as pernas e o plano mais baixo do corpo, já que os movimentos eram lentos. Pedi que compartilhassem o que sentiram.

Por fim, fizemos um círculo e apresentei a música “Triste, louca ou má”, da banda Francisco El Hombre. Coloquei a música para tocar no celular e a associei com a vivência. Alguns estudantes conheciam a letra e cantaram juntos. Foi uma música para a nossa despedida. Em seguida, fomos para a outra sala, onde as carteiras auxiliariam no preenchimento do questionário.

Leia aqui uma adaptação do texto utilizado em sala de aula para tratar da questão. Os estudantes receberam uma cópia do texto-base e do questionário e me entregaram no fim do encontro apenas as folhas, com as respostas do encontro.

Questionário aplicado no encontro

O questionário foi elaborado conforme os exercícios do Grupo de Movimento e do texto distribuído em sala. Abaixo seguem algumas das questões que utilizei para abordar o tema; algumas são individuais e outras são para serem respondidas em grupo.

  1. Você já deu respostas, andou ou se alimentou de forma mecânica, ou seja, como estivesse funcionando no piloto automático?
  2. Na parte da dinâmica de ficar apenas olhando o celular e não prestar atenção nos colegas, como você se sentiu?
  3. Você se considera uma pessoa que tem metas/objetivos? Se sim, como você se relaciona com elas? Considera que tem as cumprido?
  4. Você se permite ter momentos de ócio, ou seja, não fazer nada conectado a algum objetivo? Se sim, com que frequência e como é isso para você?
  5. Se você pudesse resumir suas impressões sobre que esses encontros (nos quais usamos exercícios e brincadeiras para falar de questões filosóficas), o que você destacaria?
  6. A partir do texto-base realize uma reflexão sobre a definição de Lowen da neurose ou “medo da vida”, bem como seu impacto sobre nossos corpos em uma sociedade narcisista. Pensando no exemplo do paciente Mike citado por Lowen comente a relação entre máscara social, sucesso e depressão.
  7. Para Deleuze e Guattari, “o único mito moderno é o dos zumbis – esquizos mortificados, bons para o trabalho, reconduzidos à razão”. Releia essa parte do texto e comente a crítica de Deleuze e Guattari à psicanálise. Qual a proposta desses autores?
  8. Vocês já tinham associados o tremor dos animais depois de uma caçada, ou mesmo nossos cachorros depois de um banho frio, com uma descarga do estresse? Já tiveram algum evento em que percebeu isso nos seus corpos? Geralmente você tem o hábito de se alongar e chacoalhar?
  9. Em grupo, encontre a referência feita ao sociólogo Edgar Morin e da citação a seguir relacione a proposta de pensarmos nosso corpo como nossa casa, e a Terra como sendo a casa de todos: “Cabe à Educação do Futuro cuidar para que a ideia da unidade da espécie humana não apague a ideia de diversidade e que a da sua diversidade não apague a da unidade. Compreender o humano é compreender sua unidade na diversidade, sua diversidade na unidade. É preciso conceber a unidade do múltiplo, a multiplicidade do uno”.6.
  10. E se a grande aventura da vida é sermos nós mesmos? No contexto atual, muitos são os conflitos devido às posições fundamentalistas. Para Campbell, isso ocorre porque muitos tomam o mito “ao pé da letra” e defendem sua religião como a única via de verdade. Prova disso são os homens bomba e outras formas extremistas de lidar com quem pensa diferente. Por outro lado, vemos pessoas que perderam a dimensão metafórica de suas existências. Uma causa provável é a ausência de referenciais ou heróis externos. Frente a isso, Campbell tem uma saída: “Hoje percebemos, como os indianos perceberam então, que toda a força mítica vem de dentro de nós”7. Comente sobre esse tema em grupo e perceba se o grupo tem algum personagem ou político ou esportistas que considera um ídolo. Se sim, escreva. Aqueles que não o tem, comentem essa postura e o que acham da proposta de Campbell sobre ser nossa vida “uma jornada do herói”, em que nós mesmos somos os protagonistas.

Reflexões sobre esse encontro

Participaram desse encontro 13 estudantes. Todos responderam ao questionário.  Sobre a questão de se perceber no piloto automático, a maioria (dez participantes) disse que já se percebeu assim. Uma menina afirmou: “Já percebi que, quando estou no modo automático, acabo nem respondendo quem está ao meu redor”. Outro relatou: “Faço geralmente as coisas no modo automático quando estou muito ocupado”. Outra escreveu que isso acontece “quando estou muito cansada e sempre na mesma rotina; eu me pego no piloto automático às vezes, nem me lembro do que comi no almoço”. Eu retomei a brincadeira de andar e olhar no celular ao mesmo tempo. Perguntei como eles se sentiram nessa vivência. As sensações e emoções foram variadas, desde confusão (dois participantes), se sentir perdido (dois participantes), como se não existisse ninguém (três participantes), estranho (um participante), deslocado (um participante), medo de derrubar algo ou alguém (um participante), um robô (um participante), nenhuma diferença (um participante), desligado da vida (um participante). Outro disse que se sentiu “um zumbi, porque você fica focado no celular” (um participante). Sobre a sensação de confusão, uma menina escreveu: “Confusa, porque não dá para prestar atenção no que acontece ao redor e nem no celular”. Outro menino relatou que se sentiu “sem visão, como se fosse um cego andando pela rua sem enxergar nada”.

Na experiência “Casa, morador e terremoto”, eles foram questionados se, ao ouvirem as consignas, seguiram mais o impulso ou se se sentiam mais racionais para saírem de seus lugares. A maioria disse que seguiu o instinto (oito participantes). Um menino comentou que seu movimento “vinha do instinto; eu tentei ser morador na maioria das vezes”. O restante (cinco participantes) disse ter pensado para escolher suas posições: “Penso muito, nem sempre consegui acompanhar o grupo”.

Uma das formas de competir ou acirrar uma competição é o constante estabelecimento de metas. Hoje o trabalhador não tem uma base objetiva de reivindicação, pois o salário não é mais a única variável de ganho. Atualmente, os trabalhadores vivem uma pressão maior para bater metas de produção. Todavia, isso parece ser um paradoxo, pois a juventude tem evitado fazer planos de vida a longo prazo, e o vazio existencial é preenchido por metas de curto prazo. Sobre a presença das metas e sobre como os estudantes têm se relacionado com elas, a maioria (11 participantes) disse ter metas, e outros sete disseram que cumprem suas metas. Outros estudantes responderam que gostariam de realizar suas metas (quatro participantes). Já o restante (dois participantes) não se considerou com metas. Uma menina comentou: “Sim, tenho meus objetivos e tento alcançá-los conforme meu dia a dia. Atualmente estou deixando esses objetivos de lado por conta de necessidades e obrigações que tenho que cumprir”. Sobre a possibilidade de descansar e ter um tempo livre e criativo, a maioria parte dos que responderam (sete participantes) disse que sim, que se permite não fazer nada. Uma das participantes escreveu: “Eu tento, mas meus pensamentos agitam e não me deixam descansar”. O restante da turma (seis participantes) disse ter dificuldade para descansar. Uma garota que já é mãe relatou: “Não me permito ter descanso pensando em meus objetivos, metas. Penso que as tenho para fazer e esqueço de mim, é difícil, mas tento realizar tudo”. Outra estudante escreveu: “Não, pois não tenho tempo. Meu filho, minha casa e os outros afazeres precisam de mim. Por isso me sinto exausta”. É importante ressaltar que esses estudantes eram do período diurno em que a maioria não trabalha fora do ambiente doméstico e, mesmo assim, relatam muito cansaço em suas respostas, queixando-se do peso de suas responsabilidades.

Como o número de participantes desse encontro foi menor, as questões foram discutidas em trios e duplas. Sobre a máscara social, uma dupla escreveu:

As máscaras podem ser usadas para esconder sua sexualidade, pelo medo do preconceito. Ou uma pessoa que é insegura pode usar uma máscara para que ninguém perceba, e no fundo ela sofre com falta de autoestima etc. O fato de não ser verdadeiro até consigo mesmo causa uma angústia. A ideia de uma falsa felicidade, falso sucesso, traz angústia, e esta causa depressão, entre outros transtornos.

Os estudantes disseram ser muito complexa a questão que envolvia a proposta da esquizoanálise, de Deleuze e Guattari. Mesmo lendo com eles, eu percebi que realmente pressupunha certo conhecimento de conceitos psicanalíticos, como recalque e complexo de Édipo. Mas, no geral, pelos comentários sobre as dinâmicas do Grupo de Movimento, a turma compreendeu a escolha desses autores e da razão de ser o “mito do zumbi” uma metáfora atual, principalmente porque muitos disseram se perceber em situações diversas no modo automático.

Ao serem questionados sobre o tremor ou vibração corporal como uma descarga de estresse, especialmente no que diz respeito à luta, fuga e congelamento (conforme Peter Levine), um dos meninos disse: “Como quebrei meu tornozelo, fazendo isso meus músculos ficaram relaxados, e jogou a tensão para fora”. Quando lida em sala, essa questão gerou muita polêmica. Um dos estudantes comentou sobre as vibrações liberadas na relação sexual. Ao expor para a turma sua experiência de ter tremores no ato sexual, ele disse que isso também ocorria com uma antiga namorada. A maioria da sala achou muito estranho e riram dele. Eu pude recuperar que, como vimos ao longo desse encontro, essa era uma resposta natural de liberação de estresse, descarga e busca pelo prazer e que não havia nenhum problema. Nesse grupo em especial, como a maioria já me conhecia há três anos, os relatos vinham de forma muito espontânea. Apesar do tom de brincadeira com que tratavam os temas relacionados à sexualidade, pude perceber que os estudantes se empenharam muito em ser sinceros nas respostas. Eu falei dos tabus que nos levavam a dar risada como uma forma de resistir tratar desse assunto.

Referente à citação de Edgar Morin, defensor da educação do futuro como um dos pilares do enraizamento, os estudantes comentaram:

Nós, seres humanos, procuramos a igualdade. Mas, por excesso de liberdade, nós nos tornamos diferentes da sociedade. Não importa o quanto o traço biológico seja parecido fisicamente, todos nós somos diferentes dos outros. Temos características diferentes de todos, o que nos identifica; o que nos torna diferentes e únicos.

As discussões realizadas nas aulas de filosofia no ano anterior, sobre diversidade religiosa, de gênero e tolerância, também foram pauta nas aulas de sociologia, ministradas pela professora Fabiane Cancian. Suas aulas colaboraram muito para que as turmas questionassem posições rígidas diante do tema da diversidade. O que procurei incluir foi a discussão da Terra como nosso espaço comum, questão que poderia ser retomada para uma maior compreensão em encontros futuros.

Como toda a discussão ficou em torno dos zumbis como uma expressão da perda da vitalidade, apresentei uma saída criativa ao “mito do herói”. Herói não como personagem ou referência externa, mas como uma jornada interior. Em sala, comentamos essa pergunta: “Se a grande aventura da vida for sermos nós mesmos?” A dupla responsável pela questão respondeu: “Sim, porque temos nossas próprias opções/escolhas e nisso podemos concretizar a grande aventura de sermos nós mesmos”.

Em uma conversa com João da Mata em um grupo de somaterapia, reunido antes do preparo desse encontro em que abordei o tema do “mito do zumbi”, eu expressei minha angústia sobre a forma de abordar a questão da sexualidade sem reproduzir situações familiares, ou seja, sem reforçar o familismo do triângulo edipiano. Ele me alertou que qualquer dinâmica que trabalhasse a relação de ordem e obediência poderia trazer à tona a questão inerente à castração e à frustração. Em sua tese de doutorado, A arte-luta da capoeira angola e práticas libertárias, João da Mata pensa a origem libertária da somaterapia na psicologia somática de Wilhelm Reich. Cesse Neto comenta:

Para Reich, não era possível haver qualquer transformação social enquanto as pessoas tivessem trocas afetivas e sexuais tão empobrecidas que as enfraqueciam energeticamente […]. Dessa forma, Reich (1998) radicaliza sua tese de que a neurose é uma construção desencadeada por mecanismos sociais e políticos […]. No exercício de governar a vida dos outros, os mecanismos de autoritarismo, ontem e hoje, se transvestem em roupagens mais diversas, que vai do pai repressor e violento até aquele que ouve e dá “bons conselhos”8.

Nessa direção, a atividade “Seu mestre mandou” foi introduzida para se pensar as relações de mando. Na maioria dos relatos dos estudantes, percebemos que surge uma irritação em relação ao mestre, que não se coloca numa relação de igualdade em relação ao seguidor. Outra contribuição que veio da somaterapia foi inserir a capoeira em direção aos movimentos de luta e à fuga. Pra João da Mata, a capoeira angola acessa o corpo como espaço libertário, por ter emergido com “uma das formas de resistência ao regime escravista, seja como diversão e luta, seja como atitude rebelde nos centros urbanos do século XIX9.

No último encontro de 2017, devido à chuva e ao fato de as atividades letivas já estarem em processo final, as duas turmas foram unidas num mesmo espaço físico. Isso aumentou o tempo de aplicação da atividade. A atividade da capoeira orgânica, derivada da capoeira angola e realizada de forma mais lenta, favoreceu ainda mais a percepção de descongelamento nos corpos e da curva de energia no Grupo de Movimento.

Ao perguntar sobre a estratégia do movimento como um elemento de sensibilização, todos os estudantes (13 participantes) disseram que a estratégia foi positiva e que gostaram dela. Um menino afirmou: “As brincadeiras são divertidas”. Outra menina recuperou um encontro sobre o mito do Sísifo e disse: “A brincadeira que eu mais gostei foi a gente teve que passar no corredor e todo mundo aplaudindo a gente. Essa brincadeira foi a que eu mais gostei, e vou levar para vida toda”. Para outra menina, “as brincadeiras de todas as aulas vão ficar comigo”; outra escreveu “adorei todos os encontros, levo para minha vida os exercícios como uma forma de me conectar comigo mesmo e me sentir em casa”. Uma estudante que compareceu a todos os encontros escreveu: “Gostei muito dos exercícios, não faltei. Eles são importantes para nossa saúde, nos deixam mais dispostos a realizar as tarefas do dia a dia”. Outro aluno disse que preferiu a dinâmica “Casa, morador e terremoto”: “Gostei mais da brincadeira da casa”. Outro estudante que compareceu a todos os encontros relatou: “Achei interessante como várias partes do corpo se relacionam com os sentimentos”. Uma menina disse: “O que mais gostei foi a luta da capoeira por conta do desafio de ganhar”. Outro afirmou que o que mais o marcou foi “a interação que tivemos com os colegas, a forma como o professor explica que é muito boa”.

Esse foi o último encontro com essa turma que acompanhei durante os três anos do Ensino Médio. Acredito que muito da disponibilidade e entrega para as atividades do Grupo de Movimento veio da relação de confiança dos estudantes no meu trabalho, esse vínculo favorece o contato e expressão emocional. Isso foi expresso especialmente nesse dia, em que nenhum compromisso institucional (notas e faltas) estava sendo colocado. Por ser a última semana de aula (todos já sabiam suas notas nas avaliações), posso dizer que o calor do encontro e os olhares de despedida me fizeram acreditar que se construiu, ali, com aqueles estudantes em termos reichianos, uma ponte radiante, capaz de reverberar em nossas escolhas futuras.

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