Cintia Barreto, literatura se ensina?

Cintia Barreto

“A literatura, definitivamente, não é só fruição, quando apresentada no espaço escolar”, salienta a educadora

Cintia Barreto
Cintia Barreto com o seu Lia Lia (2020) | imagem: acervo pessoal

Locomotiva literária: assim Cintia Barreto foi apelidada e, verdade seja dita, ela faz mesmo jus ao termo. Na sala de aula (presencial ou on-line, para o Ensino Médio ou a pós-graduação), na pesquisa, na escrita de livros e na promoção do incentivo à leitura, Cintia vivencia a literatura através de perspectivas diversas. O que une todos os lados, da professora à autora de Lia Lia (2020), é o amor pela arte da palavra – sentimento que ela transmite com destreza. Posso, aliás, afirmar isso com respaldo testemunhal, posto que, sendo eu sua aluna, acompanho, a cada semana, o sábio encantamento com o qual Cintia trabalha prosas e versos. Esta entrevista equivale a uma extensão do aprendizado que tenho tido com ela. E um agradecimento também. 

Quando e como foi o seu primeiro contato com a literatura?

O meu primeiro contato com a literatura foi pelas mãos da minha tia-avó Glorinha, freira carmelita (conhecida, na congregação, como irmã Denise). A minha tia-avó era professora de francês e foi reitora em uma universidade em Caratinga (MG). Sempre lutou pela educação literária, muito antes de falarmos sobre isso. Foi ela quem me presenteou com os primeiros livros na infância e foi com ela que aprendi a gostar de literatura (e também de educação). A primeira obra que li ainda menina (e que trago para vida) foi O Gato de Botas (1697). Nunca me identifiquei com princesas. Percebo que a luta pela equidade social e por uma vida melhor para todos me pegou desde a infância pela literatura.

Quais lembranças você tem do ensino de literatura na sua época escolar?

No Ensino Fundamental, tive educadoras excelentes de língua portuguesa. Estudei na Escola Municipal França, em Piedade, subúrbio do Rio de Janeiro. Com uma excelente professora, no que hoje seria o 7º ano, lembro de ter lido O Quinze (1930), de Rachel de Queiroz. Interessante notar que, apesar de ser um livro, hoje considerado difícil para estudantes dessa fase, a professora lia com prazer as primeiras páginas e conversava com a gente sobre a leitura, estimulando que lêssemos o livro inteiro em casa. Teve prova sobre a leitura do livro e tirei 10. Ela entregou as provas a cada um e, na minha vez, disse: “Cintia escreveu o que eu escreveria sobre a obra”. Isso me estimulou ainda mais a gostar de ler literatura. Naquela época, era comum ter provas sobre os livros, o que hoje a gente diz não ser o mais adequado. No entanto, isso me permitiu perceber o que estava além da superfície dos textos. Na ocasião, comecei a compreender a leitura literária e a sua literariedade. A literatura, definitivamente, não é só fruição, quando apresentada no espaço escolar. Posso dizer que a literatura, para mim, já naquele tempo, estava nos campos emocional e racional. Aprendi a ler, de verdade, inclusive, os discursos dos textos.

Por que você decidiu cursar letras? Já entrou na graduação pensando em ser professora?

O curso de letras não foi minha primeira opção. Eu queria ser jornalista. Acabei cursando letras (português/latim) na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fiz até o 3º período e mudei para o curso de literatura brasileira. Quando terminei letras, fui para o curso de francês e, concomitantemente, ingressei na primeira pós-graduação lato sensu, coordenada pela Profa. Dra. Carmen Lúcia Tindó, em literatura portuguesa e literaturas africanas. Mas, logo no segundo semestre, o teatro me pegou e larguei os dois cursos. Depois, passei no concurso público para lecionar no estado do Rio. Larguei o teatro e decidi voltar a estudar e me preparar para o magistério. Cursei uma especialização lato sensu em docência do Ensino Superior na Universidade Veiga de Almeida (UVA) em 2001, considerada um curso inovador na época. Na sequência, retornei à UFRJ, cursei outra especialização em literatura brasileira e não parei mais de me qualificar, fazendo lá também o mestrado e o doutorado na mesma área.

Como você começou a dar aula?

Comecei a lecionar, língua portuguesa e produção textual, no final da década de 1990 em cursos supletivos e preparatórios para concursos públicos. Em 2002, saiu minha convocação para lecionar no estado e escolhi o Colégio Estadual André Maurois, no Leblon, por ter feito lá minha prática da licenciatura da UFRJ. Estou lá até agora: 20 anos envolvida em muitos projetos literários, como a coordenação do livro Poetas do Maurois, a Festa Literária do André Maurois (FLAM) e o meu projeto Conversa Literária, o qual ganhou projeção fora dos muros da escola. Entre outros espaços, lecionei durante 11 anos na Universidade do Grande Rio (Unigranrio) em cursos de graduação e pós-graduação lato sensu, em Duque de Caxias, além de, por exemplo, ter idealizado e coordenar, há 12 anos, a especialização em Literatura Infantil e Juvenil, chancelada por diferentes universidades.

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Cintia Barreto: “Aproximar os conteúdos da escola às realidades dos estudantes é imprescindível” | imagem: acervo pessoal

O que não pode faltar em uma aula sua de literatura?

Boas leituras compartilhadas em voz alta e com brilho nos olhos, conversas com os estudantes sobre o texto lido e práticas de análise e criação. É preciso vivenciar os textos literários, trazer as discussões para os dias atuais. Sensibilizar.

Você acredita que existe idade certa para começar a ler clássicos? 

Recomendo, para o espaço escolar, que os educadores procurem conhecer os seus estudantes a fim de promoverem estratégias mais adequadas de leitura para cada turma e faixa etária. Isso posto, será possível ler os clássicos originais e também as adaptações (existem muitas de qualidade no mercado editorial, incluindo os clássicos adaptados para HQs). Os clássicos podem ser lidos no final do Ensino Fundamental (embora sejam mais comuns no Ensino Médio) se for feita uma boa mediação por parte dos professores (e, certamente, temos profissionais excelentes no magistério que buscam as especializações na área para fazerem trabalhos ainda melhores). O interessante também é dialogar os clássicos com os livros contemporâneos e com outras linguagens, como cinema, teatro, música e webséries. Não podemos esquecer de que estamos em um outro momento e que as crianças e os jovens de hoje não são os mesmos de 20, 30 anos atrás.  Alguns têm contato diário com plataformas digitais (outros não). Aproximar os conteúdos da escola (isso inclui as práticas literárias) às realidades dos estudantes é imprescindível. É preciso também considerar as diferentes realidades discentes, os acessos que possuem, as ausências. Deve-se verificar o que falta, oportunizar descobertas, ampliar sentidos e experiências e visibilizar práticas culturais. Isso tudo a literatura permite.

A partir das suas experiências, como tem sido o contato dos estudantes com obras literárias? 

Se a sociedade mudou, a escola mudou e as estratégias para promover o gosto pela leitura literária se ampliam. Hoje, existem mais dispositivos para chegar à literatura. Alguns (pré) conceitos vão sendo desconstruídos à medida que os resultados positivos ficam evidentes. Eu considero que os estudantes podem ser estimulados a gostar de ler literatura por vários meios: é o que faço no Conversa Literária, que idealizei e faço a curadoria. O projeto permite aos estudantes participarem de bate-papos e rodas de leituras com escritores, ilustradores, bibliotecários, mediadores de leitura, editores, cineastas, dramaturgos, educadores, artistas, leitores críticos e especialistas em literatura para crianças e jovens. Aulas dinâmicas de leituras de textos literários em voz alta, conversas sobre as obras, festas literárias, dentro e fora das escolas, sessões de contações de histórias, de peças teatrais e de filmes literários ou não-literários, audição e análise de canções, saraus de poesia, leituras de HQs, produção de textos literários e promoção do protagonismo discente. Trata-se de um estímulo para leituras literárias enquanto fruição e desenvolvimento de bagagem e repertório, condição fundamental para ler (compreendendo que a leitura requer a compreensão do que foi lido), interpretar e criar textos.

Você está envolvida em muitas outras iniciativas além do ofício de professora em escola: escritora, coordenadora de duas pós-graduações, organizadora de eventos literários. O que te motiva a sempre criar projetos? 

A minha personalidade sempre foi de uma pessoa criativa, pró-ativa, alegre, libertária (dizem que tenho carisma, o que também contribui). Daí a me perceber, hoje, uma empreendedora foi um passo natural. O que me motiva a sempre criar projetos é a minha inquietude diante da vida e a necessidade de estar em constante movimento criativo. Estou sempre criando algo novo. E procuro com que essas criações se realizem. Isso me motiva a viver. A minha amiga e escritora Rosa Amanda Strausz me apelidou, por esse motivo, de “locomotiva literária” (risos).

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Cintia Barreto com o seu Entre Nós (2012) | imagem: arquivo pessoal

Como sua aluna da pós-graduação de Literatura Brasileira de Autoria Feminina, não posso deixar de perguntar: para você, qual a importância de lermos o que as mulheres escreveram e escrevem no Brasil?

A produção literária brasileira de autoria feminina é riquíssima. É inegável a qualidade literária de muitas escritoras. E a pluralidade temática, linguística e estética é vasta. Mesmo com todos esses atributos e, ainda que tenhamos avançado e caminhado para maior visibilidade do que tiveram as escritoras dos séculos XIX e XX, ainda, neste início do século XXI, temos muitos espaços a conquistar. O jornalismo sempre foi um espaço de maior visibilidade masculina. É preciso que se abra mais e mais para a divulgação de nossa produção, considerando nossa multiplicidade. É importante ler tanto as mulheres que escrevem hoje como Rosa Amanda Strausz (que tem atuado agora também como editora, lançando o livro Correnteza, de Adriana Falcão, pela Ventania Editorial) e Georgina Martins (que lançou, recentemente, Há Muitas Formas de Fazer Macarrão), só para citar duas escritoras que participaram do Conversa Literária. Devemos ler tanto essas e outras obras contemporâneas quanto títulos de escritoras que ainda estão sendo resgatadas de tempos em tempos, a exemplo de Maria Firmina dos Reis, Júlia Lopes de Almeida e Carolina Maria de Jesus. Elas precisam fazer cada vez mais parte de nossas leituras (dentro e fora dos espaços acadêmicos).

Pode me contar um pouco do seu trabalho como escritora? E, em especial, com Lia Lia?

Em 2012, publiquei meu primeiro livro de poesia, Entre Nós. Dez anos depois, além de outros livros de poesia e prosa, tenho publicações para o público infantil que têm tido ótima receptividade tanto das crianças quanto dos educadores Brasil afora. Lia Lia é um livro muito especial que escrevi, ilustrado por Camilo Martins e publicado pela Semente Editorial. A história apresenta Lia, uma linda menina negra que ama ler: “Lia nasceu cercada de livros”. O protagonismo infantil feminino negro e a representatividade tornam a obra ainda mais contemporânea e urgente. A menina Lia surge em situações cotidianas de leitura e afeto. Corresponde a um metalivro que fala sobre a importância e o prazer do ato de ler na vida das crianças. É ainda uma obra que precisa estar nas escolas para contribuir com uma educação antirracista em um momento em que são necessários livros que abordem a temática de forma a implementar a Lei 10.639/03 no espaço escolar desde a mais tenra infância. Lia já tem incentivado a leitura de milhares de crianças e vai incentivar muito mais. A história se tornará uma série e o segundo livro, Lia na Biblioteca, será publicado em outubro de 2022.

Por fim, literatura ensina?

Paulo Freire disse que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou sua construção”. Nesse sentido, penso que a literatura se ensina ao criar possibilidades de compreensão e produção. Na faculdade de letras, aprendi a ler e analisar textos teóricos e literários. Já escrever literatura, aprendi (e tenho aprendido) com minhas memórias, vivências, leituras prediletas e, sem dúvidas, com a literatura que vive em mim.

Heloísa Iaconis

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