Cultura

Tudo Está Sob Cerco

Roseira
Roseira
Vida e morte no jardim de apartamento | imagem: Duanne Ribeiro

Quando eu era pequeno, eu e meu avô caçávamos lesmas.

Era tipo uma aventura. De noite, a gente pegava a lanterna (a luz do quintal não adiantava) e passava à busca. Tinha de monte. Quando achava uma, jogava um punhado de sal em cima. A lesma derretia.

Eu matava umas seis. Acho que meu avô nem matava mais nada, tinha delegado total. Lembro de ter pena e nojo ao mesmo tempo, acima de tudo uma convicção de faroeste: “Esse jardim é pequeno de mais pra nós dois”. Se deixa, elas comem tudo!

Era questão de sobrevivência, as pobrezinhas virando água (será que doía?). Um jardim, veja só, proporciona essa experiência pequenina do que são a vida e a morte. Tudo isso, bem fácil, do nosso lado. Aqui no meu jardim de apartamento essa guerra (?) ocorre também.

Os insetos, por exemplo, me têm sido mortíferos. Minha planta de Natal – aquela que fica toda vermelha, a bico-de-papagaio – foi infestada por uns piolhos brancos; enchem a parte de trás da folha, secam uma a uma. Já na roseira avançam os pulgões-aranha, com seus viadutos de teia indo de galho a galho, destruindo a própria casa como humanos. A orquídea tem sofrido também, com outro tipo de tecelão. Juntam-se na base e sufocam os nutrientes.

E aí não é pau nem pedra, é alho, é fumo, é o fim do caminho pra eles. Sacudo o spray como quem gira o revólver no dedo antes do disparo. Guardo no coldre a água com um pouco de detergente e vivo o anticlímax: será que deu?

Tem uma carência da morte, e a vida não chegou até esse ponto se deixando abalar no primeiro ataque. Amanhã é olhar a terra quieta e imutável e ver o que ela diz e se algo mudou. E reagir ou esperar, sob esse tudo está sob cerco de que me falou Clarice e agora eu entendo claramente por cuidar de plantas de vasinho.

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