Cultura

Tonho França e Wilson Gorj, da Penalux

Trouxeste a Chave? é uma série que reúne depoimentos de editores sobre o seu ofício e sobre como escolhem os bons autores. Desta vez, falamos com Tonho França e Wilson Gorj, editores da Penalux. Ambos são também escritores. Tonho é autor de Entre Parênteses (2002), Sinos de Outono (2004) e Blues à Tarde (2007). Wilson é autor de Sem Contos Longos (2007), Prometo Ser Breve (2010) e História para Ninar Dragões (2012).

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Por que trabalhar com editoração? Por que manter uma editora?

Por paixão. Paixão de leitor, paixão de escritor… Paixão em editar. Paixão por livros, em suma. Manter uma editora é sempre um desafio. Acarreta desgastes, porque consome de nossa parte muito tempo e energia. Mas isso é recompensado pelo prazer de saber que estamos fazendo o que gostamos. E melhor: a satisfação por saber que estamos fazendo essa atividade com competência e que isso vem sendo reconhecido por muita gente que admiramos.

A editoração é mesmo um modo de influir na cultura, como se diz? O que ela pode realizar?

Sim, na medida em que a publicação pode trazer à tona da comunidade ou de determinados grupos a produção intelectual de um de seus membros. Um escritor, um lançamento de livro, é sempre algo que incentiva outros a enveredarem pelo caminho da arte. Cada vez mais um maior número de pessoas, muitas das quais desfavorecidas socialmente, está se dando conta de que escrever e publicar um livro não é mais algo exclusivo a um determinado tipo de ser humano, um modelo inalcançável.

Como escolher a “boa” obra a ser publicada? Ou: que critérios de seleção vocês seguem?

O olhar busca mais o bom projeto: aquele que contemple um livro bem escrito e que reúna o “mínimo de comercialidade” (afinal, as editoras precisam sobreviver com a venda de seus livros, mesmo que modesta). Há projetos ousados e extremamente culturais como, por exemplo, as duas traduções que promovemos neste ano. A saber: as novelas Os papéis de Aspern, de Henry James e O Grande Deus Pã, de Arthur Machen, ambas traduzidas pelo escritor Chico Lopes. São projetos ousados que fogem da natureza das pequenas editoras, pois tendem a ficar no “vermelho”, mas, em contrapartida, surpreendem o público-leitor e chamam a atenção para o nosso trabalho. Tem sido assim também com duas publicações internacionais que igualmente saíram neste ano: Almas de porcelana, do angolano Gociante Patissa, e Poemas pendentes, do argentino Rodolfo Alonso.

Como é a relação com os autores? Ou: como a editoração deve lidar com o trabalho criativo de alguém?

Procuramos estar próximos (entenda: acessíveis) dos autores, mesmo à distância, seja por e-mails, redes sociais ou telefone. O objetivo dessa proximidade é naturalmente criar um ambiente amigável, sendo o respeito parte inerente desse contato. Um fator positivo é que também somos autores com livros publicados. Isso nos leva a tratar cada edição como se representasse um livro nosso. Daí o cuidado, a preocupação em extrair de cada publicação o máximo do seu potencial.

Quais as condições da atividade editorial no Brasil? Algo de particular por aqui que condicione, positiva ou negativamente, o seu trabalho?

Vemos com bons olhos o trabalho feito pelas editoras independentes. As chamadas pequenas editoras estão se firmando nos prêmios literários mais expressivos do país, ganhando destaque onde antes era apenas território das grandes casas editoriais. Também estão obtendo expressividade em feiras literárias. É fato que as pequenas editoras possuímos um catálogo mais diversificado — em gênero e estilo — que as grandes. Nessas, impera mais o apelo comercial, o que vende mais, em detrimento de projetos com valores literários mais acentuados. A poesia, por exemplo, é um gênero que vem sendo renegado pelas grandes e acolhido com entusiasmo pelas pequenas editoras.

Qual a maior lição (ou quais as maiores lições) que trabalhar com editoração trouxe a vocês?

Acho que a oportunidade de viver mesmo a pluralidade do nosso país. A gente conversa com um autor do sul e, de repente, já estamos falando com outro da Bahia e, logo em seguida, já é outro do Pará que nos abre o diálogo. Experiência enriquecedora e gratificante. O Brasil, hoje, podemos dizer, é um país que escreve. Talvez não seja ainda “o país que lê”, mas acreditamos que caminha para isso.

 

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