Ser Leitor, que diferença faz?

Capa do livro

“Formar leitores e tornar-se leitor — prioridade em qualquer nível escolar e na vida”, essa é a afirmação provocadora feita pela professora de língua portuguesa e literatura Luzia de Maria que dá mote ao seu O Clube do Livro – Ser Leitor, que diferença faz? As mais de trezentas páginas de leitura são ligeiras, como se estivéssemos em uma conversa informal, fato que não mascara a importância vital do assunto tratado: a formação de leitores plenos como principal cerne da educação, não apenas técnicos, mas críticos, inferentes, maduros, que façam da leitura elemento modificador de si e do mundo a sua volta.

No Brasil, somos sabidamente carentes de bibliotecas públicas e livrarias, sendo a escola um dos poucos lugares em que a maior parte da população pode encontrar leitura. Fato é, contudo, que muitas bibliotecas são fechadas ao público ou subutilizadas pela própria instituição escolar. Ao mesmo tempo, em sala de aula, professores de Língua Portuguesa, principalmente do segundo ciclo do ensino fundamental (5º ao 9º ano) e do ensino médio, preenchem suas aulas de leituras obrigatórias e esquematizadas, sem conexão com as diferentes mídias da atualidade, com conteúdos por vezes maçantes, sem sentido e sem prazer, tendo por fim que em vez de proporcionar o crescimento intelectual do discente, afasta-o (e para sempre) dos livros. Não é difícil encontrar em redes sociais, como o Orkut, perfis e comunidades onde podemos ler declarações do tipo “odeio ler” ou “eu odeio livros”, ou ainda “eu odeio as aulas de português”.

Ciente de tal quadro, a autora se propõe a comprovar a importância e o poder da leitura em sala de aula, poder capaz de mudar a perspectiva de mundo de um aluno que nunca havia lido um livro sequer. Para isso, se vale de argumentação apaixonada e embasada em mais de 30 anos de profissão, nada menos do que a sua vida leitora, contada em pequenos capítulos que nos obrigam a refletir sobre o que fazemos para adquirir conhecimento, para nos divertir, nos informar… de que forma “exercitamos” o nosso cérebro, mantendo-nos física (e intelectualmente) saudáveis? E os professores? Serão eles leitores? Capazes de transmitir o prazer pela leitura?

O Clube do Livro

O Clube do livro foi um trabalho desenvolvido nos anos oitenta no Liceu Nilo Peçanha, uma escola estadual de Niterói-RJ, onde Luzia fundou em suas aulas uma espécie de clube em que os alunos tinham por principal obrigação ler, e ler muito. Mas essa não era uma leitura qualquer, era direcionada e mediada pela professora, que indicou aos alunos do segundo e do terceiro ano do ensino médio livros de ficção e não ficção, brasileiros e internacionais. Com o passar do tempo, os alunos também passaram a indicar os livros, aumentando assim a lista de leituras.

Acontecia assim: cada aluno tinha uma “cota” mínima de livros a serem lidos por bimestre, devendo fazer uma resenha sobre cada um deles. Os títulos passavam por Carlos Drummond a Darcy Ribeiro. Alguns autores eram convidados a participar de conversas com os alunos, estreitando os laços dos leitores com a obra, escritor e com o universo de cada história. O ponto alto do Clube do Livro é justamente o depoimento de alguns desses alunos, relatando a experiência do projeto em sala de aula e como isso mudou as suas vidas, comprovando que é possível sim, quando existe empenho profissional, aliado à competência e paixão do professor, melhorar suas aulas, implantar projetos de sucesso, conquistar os alunos, enfim, educar, conduzir para fora do aluno o seu potencial:

Entre serena e feliz, plena e vaidosa de mim mesma, reconheci o quanto ter-me tornado leitora me protegeu do vazio de que muitas pessoas são acometidas quando as portas dos shoppings se fecham, quando os garçons, ansiosos por encerrar seu expediente, começam a empilhar as cadeiras no canto do restaurante, quando as luzes se apagam uma a uma impiedosamente. Reconheci o quanto passei de objeto de uma generosa doação a sujeito das ações que fazem de mim um ser de existência concreta, por ter a liberdade de fazer escolhas em um mundo que as limita para a maior parte das pessoas (trecho do depoimento da ex-aluna Márcia)

Fazer desse projeto as aulas de português foi ousado, mas deu certo. Alguns alunos, que nunca tinham lido um livro, chegaram ao número de setenta títulos em um ano, fato que melhorou não só a própria leitura, mas também o conhecimento em língua portuguesa, a escrita, o vocabulário, o repertório, o conhecimento de cada aluno, de forma geral. Mais do que uma experiência de sucesso, o livro de Luzia de Maria instiga: professor, você também pode fazer isso.

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