Cultura

Possíveis Leituras

Kovrin, um intelectual russo, sofre um esgotamento nervoso e vai repousar na casa de seu antigo tutor e sua filha, no campo. Ali, certa noite vê um monge de hábito negro que lhe afirma ser ele um dos escolhidos, um indivíduo excepcional. É a primeira das várias entrevistas que ele terá com o monge — até que, já casado com Tânia, a filha ex-tutor, é alertado por ela que está falando sozinho…

O Monge Negro, de Anton Tchekhov (1860-1904) é uma novela estranha que exige mais de uma leitura. Ao findá-la, podemos nos perguntar: o que quer isso tudo dizer? Essa peça ficcional poderia ser uma antevisão dos processos do inconsciente só mais tarde discutidos pela psicanálise; poderia ser um relato simbólico da grandeza que cada pessoa enxerga em si, precisando acreditar nisso a fim de que a vida tenha sentido. Poderia ser um conto sobre o temor à mediocridade em habita em todos nós (e essa explicação não se oporia à anterior, funcionando como seu complemento); poderia ser ainda uma alusão à própria Rússia em fins do século XIX, uma nação agrícola e atrasada frente ao resto do mundo pós-revolução industrial, e que busca entender qual é a sua missão, qual o seu papel nessa Europa tão “adiantada”.

Talvez todas essas possibilidades sejam verdadeiras (e outras mais). O que desnorteia o leitor (pelo menos esta leitora) é que não há qualquer atmosfera onírica na narrativa; o monge negro parece real (mas ninguém, senão Kovrin, o vê); todavia a dubiedade fica patente quando, a algumas palavras do monge, o protagonista lhe diz: “Como é estranho que você esteja repetindo o que tenho pensado com tanta freqüência”. O monge tem uma expressão descrita (na tradução direta do russo) como “afável e astuciosa”. Este adjetivo, “astuciosa”, logo de início, coloca em nós, os leitores, suspeitas acerca desse mensageiro que fala tão bem à auto-estima e à vaidade de Kovrin. Um outro elemento fornecido por Tchekhov é que, pouco antes do seu primeiro encontro com o monge, fica claro que o protagonista não está repousando como deveria, e sim trabalhando como fazia na cidade.

Assim, há dados e dados, detalhes que o escritor acrescenta à sua novela e ampliam as leituras da mesma.

Lembrei-me de duas outras novelas que tocam a questão da mediocridade e da revolta contra ela (que pode assumir variadas formas): Bartleby, o Escriturário, de Hermann Mellville, e A Fera na Selva, de Henry James. Coincidência ou não, as duas integram a mesma coleção que O Monge NegroNovelas Imortais — dirigida pelo falecido Fernando Sabino. Ou sou eu que estou vendo demais. Certa é uma coisa: é preciso ler O Monge Negro.

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