Cultura

Personas e Máscaras Femininas na Literatura

Na literatura, vemos várias “imagens” da mulher; máscaras, papéis e rótulos que são atribuídos aos personagens femininos e refletem, senão a própria mulher, seus desejos e sonhos

Um traço comum à multidão das mulheres marcadas por um destino excepcional, é o se sentirem incompreendidas; os que as cercam não reconhecem sua singularidade – ou não o fazem suficientemente; elas traduzem positivamente essa ignorância, essa indiferença dos outros pela ideia de que encerram em si um segredo… É por não poder exprimir-se na ação cotidiana que a mulher também se acredita habitada por um mistério inexprimível; o famoso mito do mistério feminino encoraja-a a isso e vê-se, em compensação, confirmado.

– Simone de Beauvoir

Através da literatura podemos percorrer os diversos caminhos traçados pelas representações da mulher. Estas máscaras, papéis e rótulos que são atribuídos aos personagens femininos muitas vezes refletem se não a própria mulher em sua época e sociedade, ao menos seus desejos e sonhos. Muitos aspectos poderiam ser analisados entre a mulher-imagem da literatura e a mulher-real; aspectos estes que, assim como o fiz, rotulam-nas de acordo com seus sonhos, desejos, atitudes, pensamentos… Rótulos que são governados pelas possibilidades, pela sociedade e cultura; em síntese, pelas circunstâncias. Alguns podem ainda clamar pelas questões físico-orgânicas relativas ao que Simone de Beauvoir — filosofa e feminista francesa que viveu o maior período de libertação feminina à partir da década de 1940 — denominou “natureza feminina”, e questionou como sendo ou não uma natureza orgânica definitiva da mulher. Aqui, atenho-me às questões que se colocam como possibilidade de uma discussão abstrata, deixando as outras ainda sem resposta, para os cientistas.

Passeando os olhos por uma enorme estante imaginária, recheada de livros representantes da literatura atual ou pertencentes ao passado; denominados eruditos ou os vulgarmente chamados de massa; encontro muitas personas merecedoras de uma análise mais profunda. O espaço torna-se interessante, se analisarmos estas personas, diante da mulher-representante-de-sua-época em suas já citadas circunstâncias, na tentativa de encontrar um paralelo com as mulheres-reais descritas por Simone de Beauvoir em seu livro O Segundo Sexo. À partir das analogias apontadas, o olhar é direcionado a prescrutar a mulher-real. Mas não me refiro àquela que se vê pelos olhos da sociedade, o olhar externo que invade e julga; e sim àquela que se sente do interior, cujo movimento se dá do profundo ao aparente. Como estas obras literárias podem nos guiar nessa direção? De diversas formas. Algumas pela incrível capacidade do autor de absorver o feminino em sua realidade, e transpô-las em personagens de belas histórias. Outras, nem tanto por algum tipo de proeza literária, mas pela capacidade de vislumbrar – mesmo que inconsciente – medos e sonhos de sua geração de mulheres; e através de personagens irreais proporcionar a possibilidade da realização destes sonhos em um envolvimento emocional com suas histórias de contos de fadas.

Decidi pela escolha de livros cujos autores tenham esta possibilidade de realizar o movimento de absorção do interior para o exterior; de compreender a sensação de não saber exatamente quem é, ou onde deveria estar; de enxergar o mundo através dos rótulos atribuídos e carregados durante a história por sua classe: desde os fundamentais menina-mulher, mulher-mãe, mulher-avó, aos famigerados mulher-macho, mulher-objeto, mulher-histérica. Estas características únicas, me apontam a uma seleção des livros escritos por mulheres-autoras-escritoras. Estas, por recriarem personagens e histórias, são também mulheres-livres, baseando-se na afirmação de Beauvoir:

A arte, a literatura, a filosofia, são tentativas de fundar de novo o mundo sobre uma liberdade humana: a do criador. É preciso, primeiramente, se colocar sem equívoco como uma liberdade, para alimentar tal pretensão.

Os livros, assim como qualquer expressão artística, respondem à uma demanda específica pelo consumo da arte; e para obter aceitação, deve fazer com que seus espectadores identifiquem-se com suas histórias e personagens. Identificação que pode dar-se pelas semelhanças, ou opostamente pelas diferenças: que se mostra no desejo do espectador de possuir o que não pode, ou de tornar-se quem tão pouco pode ser. A literatura, neste extremo, torna-se responsável por suprir mentes e corações carentes daquilo que não há: fantasia, imaginação. A literatura, atende ao apelo desesperado destas mulheres sem lar, mulheres dissociadas de sua verdade por estarem rendidas aos papéis impostos pela sociedade.

Crepúsculo: Ocaso do Amor?

Quando uma multidão de mulheres-casadas, meninas-mulheres, mulheres-solteiras, mulheres-mal-amadas e mais uma sucessão de mulheres-rotuladas, encontram nos livros da saga Crepúsculo, de Stephenie Meyer, a realização do desejo de um amor impossível e irreal, o título não poderia servir a uma analogia, indicando o crepúsculo do próprio amor? Seria este o ocaso do amor possível e real? O encontro com a alma gêmea (se é que vampiros possuem alma); o sentido de castidade perpetrado pela personagem Bella; a impossibilidade de viver sem Edward, demonstrada por suas diversas atitudes infantis e suicidas; a entrega de sua vida ao amor, e pelo amor; e até mesmo o fato de seu homem-vampiro-amado de 17 anos na verdade já ter vivido 109 anos, assemelhando-se muitas vezes a um tutor ou a um pai para Bella; todas estas características expressam e tratam de um amor à moda antiga, o qual supostamente acredita-se estar muito distante da juventude atual. A menina-mulher representada em Bella, também expressa um conceito feminino oposto à suposta independência financeira e sexual da mulher.

Em uma época um pouco mais distante, expressa por uma proposta literária diferente, a personagem Lorena — jovem de família rica que mais vive em um sonho do que vive sonhando, criada por Lygia Fagundes Telles no livro As Meninas — mostra-se análoga à personagem Bella de Crepúsculo. Lorena, durante a narrativa – que transcorre durante apenas um dia na vida desta e de suas amigas, Lião e Ana Clara – representa e é representada simbolicamente por viver segura em “sua concha”: assim designa seu quarto no convento de freiras onde mora durante a dura época da ditadura. Esta “concha”, expressando seu mundo interior mostra-se totalmente alheia à dura realidade da ditadura e suas mazelas. Lorena é também a típica menina-mulher representada por Bella; mas ao contrário daquela, vive suas fantasias de menina-apaixonada apenas em seu interior. Seu homem-amado é um médico casado, com filhos, por quem Lorena passa o dia a esperar apenas um telefonema, um sinal de vida; mas como a menina-mulher-rejeitada chega a assumir, sabe não ter seu amor correspondido por M.N., seu homem-médico-amado.

À semelhança das personagens já citadas, há ainda um exemplo da literatura infantil transformada pela Disney em dois longa-metragens de animação em 1989 e em 2000: o conto A Pequena Sereia escrito por Hans Christian Andersen em 1836. Ariel, uma das filhas do rei Tristão – Rei dos Mares – morre de curiosidade pela vida “lá em cima”, fora do mar; a vida dos humanos, dos quais pouco conhece. Desobedecendo as ordens de seu pai, se aventura pelo mundo mágico do humanos, e em uma sucessão de acontecimentos se apaixona pelo príncipe Eric, um humano. Eric e os humanos que habitam mundos desconhecidos para a pequena Ariel, simbolizam o homem que “transcende” de Beauvoir; que conhece o mundo, que cria e recria este mesmo mundo, que se mostra como único caminho para a pequena menina-sereia-mulher livrar-se de sua “contingência”, e através de seu homem-humano “transcender” também. Seu homem-humano-amado vive acima dela, como se representando esse mundo superior de possibilidades o qual Ariel almeja e fantasia poder ser seu um dia.

A fantasia e o sonhar acordada, expressos nas três personagens, se dá de maneira contraditoriamente análoga. Meyer nos mostra Bella como uma heroína que deseja firmemente enfrentar sua morte, sua transformação em um ser no qual veias e artérias parecem não ter muita utilidade: uma vampira. Um olhar mais sutil pode tirar de sua expressão, supostamente heroica, a resignação, a recusa de si, a entrega de sua vida e corpo à tutela do “homem-Deus” de Beauvoir: o homem que age enquanto a mulher espera, o homem que transcende enquanto ela permanece na imanência; enfim, o homem que possui o poder de mudar e recriar o mundo, enquanto ela… Assim que o coração pulsante de amor de Bella deixar de bater, também seu corpo não mais lhe pertencerá; sua alma será para sempre de Edward, seu amado. A mulher, de acordo com Beauvoir, quando encontra um homem procura “ressuscitar uma situação… almeja reencontrar um teto sobre a cabeça, muros que lhe escondam seu abandono no mundo, leis que a defendam contra sua liberdade… Tornar a ser criança nos braços de um homem as satisfaz amplamente”. A coragem então simbolizada em Bella, enfrenta apenas fantasias; como Simone de Beauvoir versa:

A mulher esgota sua coragem dissipando miragens e detém-se assustada no limiar da realidade.”

Ainda longe do “limiar da realidade”, menina-virgem, Lorena nada entende sobre o amor verdadeiro, o amor que não é relatado nos contos-de-fadas. No romance As Meninas, o conceito de resignação e recusa de si em Lorena é dado não pela entrega de sua vida, mas sim pela castidade mantida em nome de seu homem-casado-amado; através da suspensão de qualquer experiência real que possa ter ou viver com outros homens; Lorena entrega seu amor, seu sofrimento, e principalmente sua razão ao homem que a rejeita. Ela recusa a possibilidade de amar e ser amada, recusa a probabilidade de qualquer relação sexual com outro homem, recusa sua vida amorosa para entregar-se à sonhos e fantasias de uma uma menina-mulher que tem medo de crescer, que tem medo de tornar-se infeliz como sua “mãezinha”. Demonstra, mesmo que sutilmente, o quanto desaprova o segundo casamento da mãe; o quanto a entende como uma mulher desesperada que se agarra aos delírios para fugir de suas dores do passado, ainda tão presentes em sua vida. Esse exemplo empresta à Lorena o medo de tentar, de experimentar a vida a dois e findar humilhada como a mãe; por isso escolhe viver fantasiando, à semelhança de sua personagem análoga Bella, que realmente vive a fantasia.

A pequena menina-sereia-mulher Ariel, também em um suposto ato de coragem sonha em possuir pernas em lugar de sua cauda, entregaria seu único meio de locomoção, para poder estar com seu amado. Nada mais lhe importa, os amigos que não mais poderá ver, as irmãs com quem não mais conviverá, nem ao menos a distância do pai parece lhe fazer pensar em desistir. E é assim, com esta coragem, que enfrenta suas fantasias; mantendo-se no “limiar da realidade” é que ela vai ao encontro da bruxa do mar, Úrsula; e lhe entrega, em troca de par de pernas, não somente sua cauda, mas também sua linda voz, que lhe será devolvida apenas se conseguir do príncipe Eric um verdadeiro beijo de amor em apenas três dias; caso contrário, perderá a voz para sempre. Ariel aceita o acordo com a bruxa mesmo diante da enorme possibilidade de não conseguir cumprir os mandos da bruxa em tão pouco tempo, de ver-se desprovida de sua linda voz: única característica que poderia ser reconhecida pelo príncipe, antes salvo por uma mulher pela qual procura na beira do mar por estar apaixonado por sua voz, única lembrança que guardou de sua salvadora. A pequena menina-sereia-mulher Ariel, é uma fantasia e nesta vive sua vida; mas considerando-se esta sua natureza, torna-se então, o fato de ser uma sereia sua realidade. E é nesta realidade que Ariel expressa a recusa de si, entregando seu corpo e alma (sua voz) nas mãos da terrível bruxa do mar, por uma chance de ser amada por seu homem-humano-Deus. Beauvoir fala sobre essa mulher que “…sente um desejo apaixonado de ultrapassar seus próprios limites e tornar-se infinita através de um outro que tem acesso à realidade infinita.”

Na literatura, vemos várias “imagens” da mulher; máscaras, papéis e rótulos que são atribuídos aos personagens femininos e refletem, senão a própria mulher, seus desejos e sonhos

O Respeito e a Abstenção Esmagam o Desejo Sexual

Há uma analogia entre o sutil desejo sexual de Edward e seu apetite voraz pelo sangue de sua amada; o desejo sexual do vampiro mascara-se, expressando então uma atitude respeitosa. Bella, e talvez também suas leitoras, têm o desejo de ser mais que amadas, querem sentir-se desejadas sexualmente por seus pares; mas a visão de ser possuída, de não mais ser pura, as amedronta, as humilha? O fato de Edward representar o homem que a deseja, que se sacrifica e se autoflagela a cada segundo a seu lado, mas ao mesmo tempo a respeita a ponto de não demonstrar o quanto a quer, tanto sexualmente como nutritivamente; tudo isso não o torna o homem-perfeito? O personagem que surge para saciar os desejos e sonhos impossíveis da mulher, aquilo que não há: fantasia e imaginação? Ele não a reconhece como objeto; aceita amá-la por todo o sempre, mesmo diante da torturante proximidade com seu maior desejo. Simone de Beauvoir explica a difícil relação entre o sexo e o amor que se põe diante da mulher:

Há uma oposição que torna difícil a adaptação da mulher a seu destino sexual… É pela estima, pela ternura, pela admiração do homem que esse aviltamento pode ser abolido… O ato amoroso exige dela uma alienação profunda; ela mergulha na languidez da passividade; de olhos cerrados, anônima, perdida, sente-se transportada por ondas, varrida pela tormenta, sepultada na noite; noite da carne, da origem, do túmulo; aniquilada alcança o Todo, seu eu é abolido. Mas quando o homem se separa dela, ela se encontra rejeitada à terra, em um leito, na luz; readquire um nome, um rosto: é uma vencida, uma presa, um objeto. É então que o amor se torna necessário… É preciso que, pelos olhos do amante que a contempla, a mulher se sinta reintegrada no Todo de que sua carne dolorosamente se destacou.

Lorena, também em seu viver sonhando, nos mostra essa suposta necessidade por um homem imbuído mais pelo respeito que por lascívia. M.N, apesar de desejá-la, evade-se de sua vida sem mais desculpas ou explicações, até com aparente facilidade; demonstrando uma possível preocupação paterna para com a menina-mulher, objeto de seu desejo: como poderia envolver uma ainda criança, em sua complicada vida sem garantias? Lorena sente-se “doente de amor” por este respeito, por esta distância, pela impossibilidade de tornar-se mulher em seus braços. Foge assim de Fabrício, colega de sua idade que a visita e rouba-lhe um beijo, demonstrando que a deseja e que quer tornar este desejo realidade; ele a chama e a atrai para a vida real, para uma experiência amorosa de carne e pele; mas ela, apesar das sensações e emoções que lhe causam o beijo, parece só ter olhos para seu amado M.N. A atitude do menino-homem Fabrício a assusta, é sincera demais para um coração sonhador de uma menina-mulher; demonstrar assim seu desejo por possuí-la, torna-se na interpretação de Lorena uma atitude infantil e impulsiva se comparada com o refrear nas atitudes de seu homem-amado.

Em A Pequena Sereia, a abstenção do sexo na resignação da mulher se mostra de maneira bastante simbólica, já que se trata de um conto infantil. A sereia, ser mitológico metade mulher e metade peixe, está intrinsicamente relacionada à sensualidade e à sexualidade: seu maior atrativo, a linda voz que possui, atrai os homens à desgraça e ao seu controle. O fato de que Ariel aceite entregar exatamente esta mesma voz repleta de sedução e domínio simboliza a frigidez da mulher que se entrega ao desejo sexual do homem; e, não podendo suportar a humilhação e a mácula que se põe então sobre seu corpo, inflige à sua própria alma uma punição: a privação daquilo que sua moral absorve como ilícito, a abstenção do prazer diante de tal ato infame. Beauvoir descreve como o interior da mulher vive em constante luta diante de tal paradoxo:

Fazer-se objeto carnal, presa, contradiz o culto que ela rende a si mesma: parece-lhe que o ato sexual desonra e emporcalha seu corpo ou lhe degrada a alma. Por isso é que certas mulheres escolhem a frigidez, pensando mantér assim a integridade de seu ego.”

A Liberdade Sexual versus a Recusa de Si

O enorme sucesso e alcance dos filmes de Edward e Bella, assim como a recente adaptação de As Meninas para o teatro e a continuação da história de Ariel em uma sequência do original, diante da analogia criada com as histórias reais de Simone de Beauvoir, nos faz questionar o significado do termo liberdade sexual, tão disseminado e utilizado em referência à situação atual da mulher. Essa liberdade sexual de mulheres-objetos que se sentem livres de pudor para exibir o corpo nu em revistas masculinas, na televisão ou nos desfiles de Carnaval; a mesma liberdade que se expressa na iniciação sexual das meninas-mulheres com quem isso ocorre cada vez mais cedo; a liberdade de escolher e possuir (ou ser possuída) por diversos parceiros; talvez, para estas mulheres-leitoras descritas no texto, não signifique realmente uma liberdade sexual. Ao menos não uma liberdade que se forma do interior para o exterior; e sim um conceito de liberdade criado no seio da sociedade que é interiorizado pela mulher, e posteriormente se transforma em atitudes de liberdade. Mas atitudes nem sempre expressam sinceramente, e menos ainda, com clareza de raciocínio, os verdadeiros sentimentos de um indivíduo. E é neste contexto que se põe meu questionamento sobre o significado do termo em questão, assim como nossa relação com este.

Onde se escondem o pudor, a opressão e o desejo de permanecer criança para sempre? Estão estes nos medos femininos? Na espionagem e cobrança social? Quem são estes ou estas que consideram o sexo e o desejo privilégios masculinos, boicotados por meninices de mulheres-mulheres? A recusa de si, a resignação citadas não seriam expressão de um desejo pela irresponsabilidade na mulher? Pela rejeição do peso que se põe sobre as decisões tomadas ao longo de uma vida? Durante toda a história da humanidade a mulher foi sujeitada a permanecer em segundo plano; o homem, como o sexo mais forte, não obteve grandes dificuldade em transformar seu mundo de acordo com seus interesses e sua realidade. A mulher-real muitas vezes sofre com as questões aqui discutidas, mas nem ao menos desconfia do que se trata o seu sentimento, tão impregnada está pela sociedade e seus conceitos.

Mas algumas destas mulheres-escritoras parecem ter, quando não grandes reflexões sobre o assunto, ao menos vislumbres deste; e assim criam estas personagens fantásticas que, de maneiras diversas expressam a problemática feminina que apresentamos. Um fato histórico, a destruição da cidade romana de Pompeia pela erupção do Vesúvio, que é descrita por Simone de Beauvoir, nos fornece um paralelo dessa atitude de recusa de si; vista na relação da menina-mulher com o homem-vampiro, na não-relação entre a menina-mulher e o homem-médico-casado, e na fantasia entre a menina-sereia-mulher e o homem-humano em que as três desejam entregar seu corpo e sua “transcendência” à outro. Como versa Beauvoir, é uma relação em que ela, a mulher-esposa, “apreende-se… em face desses deuses de figura humana que definem fins e valores”. O que nomeio aqui de recusa de si ou resignação, se mostra no fato e na imagem que o representa abaixo:

Quando desenterraram as estátuas de Pompéia, observaram que os homens estavam imobilizados em movimentos de revolta, desafiando o céu ou procurando fugir, ao passo que as mulheres, curvadas, encolhidas sobre si mesmas, voltavam o rosto para a terra.

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