Marília Aiko Kubota (Paranaguá/PR, 1964) é escritora e jornalista. Estreou no jornal de literatura Nicolau, em 1991. Integrou as antologias Crônicas Paranaenses (1999), Pindorama (2000), Passagens (2002), 8 Femmes (2007) e Antologia Brasileira do Início do Terceiro Milênio (2008), lançada em Portugal e prevista para ser lançada em outubro, no Brasil. Também publicou nos periódicos Gazeta do Povo, Medusa, Babel, Inimigo Rumor, Suplemento de Minas Gerais, Jornal Vaia, Zunái, entre outros. Desde 2005, orienta oficinas de criação literária e participa de outros eventos da Fundação Cultural de Curitiba. Participou de recitais, leituras dramáticas e debates em Curitiba, Londrina e São Paulo. Em 2008, organizou o Concurso Nacional de Haicai Nempuku Sato (Secretaria de Cultura do Paraná). Mantém o blog Micropolis e trabalha com projetos de comunicação para a comunidade nipo-brasileira de Curitiba, onde reside.

Capitu — Como a poesia compareceu à sua vida? E como e por que você quis que ela permanecesse em sua vida?

Marília Kubota — Foi aos 13, 14 anos, quando li na antologia escolar de Domingos Paschoal Cegalla textos de Manuel Bandeira (O Bicho), Millôr Fernandes (A Morte da Pequena Tartaruga) e Clarice Lispector (O Ato Gratuito). Apenas o de Bandeira era um poema, mas eu ficava encantada como eles usavam as palavras, de um modo engraçado, não literal. O primeiro poeta por quem me apaixonei foi Drummond — logo que o conheci comecei a ler suas crônicas e não parei mais. Eu ainda não sabia o que era metáfora, mas achava engraçado dizer que um velho mastigava palavras (ou algo assim), em vez de dizer literalmente que ele murmurava.

Acho que quis que a poesia permanecesse em minha vida porque ler Drummond, Bandeira, Cecília, Vinicius — as primeiras leituras — foi uma educação sentimental. Eu tinha necessidade da companhia deles. Eles escreviam sobre a vida, o amor, a morte, temas fundamentais para encher um coração em formação.

Capitu — Qual o seu compromisso com a poesia? Vale a pena ser por muitas vezes incompreendido por conta do convívio com ela?

Kubota — Compromisso é uma palavra muito forte. Eu sempre tive uma relação lúdica com a poesia. O meu vinculo permaneceu por causa deste aspecto: poesia é prazer, não obrigação. Minhas leituras sempre foram aleatórias, um autor ou livro levava a outro, por impulso.

Se vale a pena ser incompreendido ? A incompreensão vem, talvez, pelo fato de o poeta ou escritor ser sempre um ser devotado à solidão, e criar um mundo à parte do mundo. Neste mundo particular há muitos encantos e talvez valha a pena estar compreendido nesta suspensão da realidade, em que o tempo e o espaço não existem. É a superação dos limites da vida, da dor, da doença, das desavenças. Tudo é possível na arte, por isto o encanto.

Capitu — Você organiza oficinas literárias em Curitiba. O que você aprendeu com elas? O que é válido e o que não é?

Kubota — Eu não organizo oficinas de criação literária, ofereço este trabalho para órgãos públicos de cultura, concorrendo em editais oficiais. É uma maneira que encontrei de sobreviver e repassar um pouco de experiências acumuladas, 30 anos como leitora e 20 como escritora profissional, esta praticando o jornalismo. O jornalismo foi a profissão que escolhi para ganhar a vida. Fui absolutamente fascinada pelo universo do ‘aggiornamento’ até uns cinco anos atrás.

A primeira experiência com oficinas foi em grupo, era uma brincadeira coletiva com amigos, para escrever poesia aleatoriamente. Depois fiz outras brincadeiras em grupo na internet e em 2003 veio um convite da Fundação Cultural de Curitiba para dar uma oficina. Então resolvi ir desistindo do jornalismo como fonte de sobrevivência.

Aprendi com as oficinas a valorizar meu trabalho de escritora, que até então considerava uma ‘felicidade clandestina’. Aprendi que é importante conviver com os leitores e pude comprovar que não é preciso ter títulos acadêmicos para escrever poesia. Encontrei pessoas maravilhosas, que já eram poetas e escritores e, como eu, guardavam os escritos Descobri que é bacana crescer juntos.
O que é válido? Vale a pena conhecer pessoas diferentes da gente, cada uma é uma experiência, um potencial, uma liberdade. O que não é? Ainda não descobri.

Capitu — Em Cartas ao jovem poeta, Rilke fala da necessidade da solidão. Ela é realmente necessária, ou poesia é algo que se compartilha à distância?

Kubota — Ah! Boa pergunta. A poesia pode ser uma solidão compartilhada no ato da leitura. Mas na criação estamos sós. Não gosto muito de exercícios de criação coletiva. A arte é um desnudamento, ficamos a sós conosco para revelar o inconfessável. Ela só é verdade e beleza quando se entra num estado de intimidade, quando se esquece de fama e sucesso, quando, como diz Rilke, não é possível fazer nada mais a não ser escrever. A solidão é uma ‘pobreza’ necessária para o escritor que tem um compromisso com a arte e a renovação da linguagem.

Capitu — Relembre um poema que lhe marcou e diga: eu recomendo o exercício e a leitura porque…

Kubota — Relembrar um poema só é muito difícil. Enquanto respondia a entrevista lembrei os poetas amados, Manuel Bandeira (tantos são inesquecíveis, mas gosto de Testamento), Drummond (Anoitecer, lembro sempre a versão feliz musicada pelo Zé Miguel Wisnik), as canções de Zeca Baleiro, que ouço todos os dias, Jorge de Lima (Canto X, de A invenção de Orfeu), os poemas de One Art, de Elizabeth Bishop e, claro, À Espera dos Bárbaros, de Konstantin Kaváfis. Os dois últimos eu parodiei e recomendo a meus alunos que façam muitos exercicios de imitação dos clássicos e dos poemas que gostam. Recomendo a leitura de todo tipo de poesia e ficção, especialmente não ler apenas clássicos ou literatura de um só segmento, pois este é o melhor modo de emburrecer, mas também ler, ouvir e falar bobagens, como já dizia meu amigo e guru Valêncio Xavier, um homem que sabia pensar elegantemente sobre todas as questões da vida e da arte. Ele dizia: ‘o escritor se cria’, ‘a forma já está implicita na criação’ (citando Alain Resnais, o cineasta francês).

Faz falta as vozes de Valêncio, de Manoel Carlos Karam, Jamil Snege, de Paulo Leminski, escritores que se criaram em Curitiba e fizeram parte de uma geração de artistas artesãos e inventores. Criaram uma linguagem, um estilo, um pensamento próprio.

O poeta, o escritor, é aquele que tem o talento de falar sobre temas particulares de uma forma universal. Se não tiver o estilo, uma visão própria do mundo, seus versos, suas estórias serão banais.

 

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