Cultura

Flash Mobs: Intervenção Urbana em Tempo de Redes Sociais e Tecnologias Móveis

Imaginem-se caminhando perdidos na materialidade da vida cotidiana quando algo inusitado acontece: um grupo de pessoas, que até então pareciam tão “normais” quanto você, inicia algo bastante diferente. Pode ser uma dança, uma coreografia, um coro, um protesto, uma percussão, um evento promocional de uma marca, etc. Esses são os flash mobs, intervenções urbanas comuns nas grandes cidades mundiais neste século.

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Observadores objetados: ‘No meio daquelas caras amarelas que cumpriam rebanhalmente suas vidas, os movimentos que a bailarina fazia eram perfeitos. As pessoas em volta olhavam com desdém.’

Flash Mobs é como são chamadas as aglomerações instantâneas de pessoas em um local público para realizar determinada ação inusitada previamente combinada, sendo que essas pessoas devem dispersar-se tão rápida e inusitadamente quanto se reuniram. O meio de comunicação favorito para agendarem o evento, normalmente, são as diversas redes sociais e os meios de tecnologia móvel. Mas, ao contrário do que se pensa, o uso do termo flash mob data de aproximadamente 1800, porém não da maneira como o conhecemos hoje, claro.

A expressão foi usada pela primeira vez para descrever um grupo de prisioneiras da Tasmânia baseado no termo flash language para o jargão que estas prisioneiras utilizavam. Ainda nesta época o termo australiano flash mob foi usado para designar um segmento da sociedade, e não um evento. Afinal de contas, as mobilizações de pessoas são, historicamente, um recurso muito usado, em manifestações políticas.

A história está repleta delas, como por exemplo a Revolução Francesa, na qual o povo para pressionar a monarquia francesa tomou de assalto a fortaleza-prisão da Bastilha e invadiu o Palácio das Tulherias, fazendo de reféns a família real. O mesmo aconteceu com os bolcheviques na Rússia, que pretendiam a formação de uma aliança entre operários e camponeses para colocar fim a autocracia czarista e, em meados de 1968, em Paris, palco de uma revolta estudantil, cujas consequências ultrapassaram em muito as fronteiras da França.

O primeiro flash mob foi organizado via e-mail pelo jornalista Bill Wasik, em Manhattan. Mandando o e-mail para 40 ou 50 amigos, Bill convidou as pessoas a aparecerem em frente à loja de acessórios femininos Claire’s Acessories. Segundo ele, “A ideia era de que as próprias pessoas se tornassem o show e que, apenas respondendo a este e-mail aleatório, essas pessoas criassem algo” em um mob anônimo e sem liderança. No entanto, a loja foi avisada antes do acontecimento e a polícia foi acionada, evitando que as pessoas ficassem na frente da loja, frustrando os planos do primeiro mob.

O segundo flash mob aconteceu em 3 de junho de 2003, na loja de departamentos Macy’s. Wasik e amigos distribuíram flyers para pessoas que passavam nas ruas, indicando quatro bares em Manhattan, onde elas receberam instruções adicionais sobre o caráter e o lugar do evento, minutos antes do seu início para evitar o mesmo problema que ocorreu com o primeiro. Mais de 100 pessoas juntaram-se no 9º andar de tapetes da loja, reunindo-se em volta de um tapete caro. A quem se aproximasse de um vendedor foi dito que as pessoas reunidas viviam juntas num depósito nos arredores de Nova Iorque, que estavam procurando por um “tapete do amor” e que todos faziam suas decisões de compra em grupo.

Hoje em dia, os mobs já ganharam até uma topologia. Existe o Pillow Fight, a famosa guerra de travesseiros; a Subway Party (festa no metrô), que nada mais é do que um grupo de pessoas que se juntam, no estilo flash mob, para promover festas dentro dos vagões dos trens metropolitanos de grande cidades; a Zombie Walk, que consiste em pessoas que se juntam para passar algum tempo caracterizadas como zumbis e agindo como tal, dispersando-se em seguida; a Improv Everywhere, que é um dos grupos mais famosos no meio dos flash mobs, donde surgiu a ideia de eventos mobilizando pessoas.

E até recordes já foram criados no mundo das intervenções urbanas contemporâneas. No dia 10 de setembro de 2010, o grupo Black Eyed Peas quebrou o recorde de maior flash mob da história, ao reunir cerca de 21 mil fãs na Avenida Michigan, em Chicago, nos EUA, para comemorar a passagem da 24ª temporada do programa de Oprah Winfrey na TV. O grupo preparou uma surpresa para ela ao tocar o hit I Gotta Feeling com uma coreografia inacreditável envolvendo toda essa multidão.

No mundo inteiro, flash mobs vêm ganhando cada vez mais aspectos políticos e não apenas para mudar a rotina ou modificar o meio urbano. Na Rússia, por exemplo, um grupo de pessoas se reuniu ao redor de um caixão e deram-se as mãos em luto formando um quadrado, declarando a “morte da democracia”, em 2003. Por lá, pela repressão às revoltas ou protestos ser intensificada, flash mobs são preferências cada vez mais aceitas por serem organizadas rapidamente, atraírem muitas pessoas e depois se dispersa tão rápido quanto apareceu, impedindo a ação da polícia muitas vezes.

Na Espanha, após os atentados terroristas aos trens em 11 de março de 2004, vários espanhóis enviaram via SMS mensagens pedindo para que dois dias depois se reunissem para uma mobilização em favor dos mortos pelo ataque terrorista, e nessas mensagens a repetição da palavra “pásalo” (repasse, em espanhol) tornou-se um ícone desse mob. O resultado veio no dia 13 de março, onde as pessoas se reuniram de maneira espontânea protestando contra o governo por ocultar dados sobre o atentado terrorista. Ficou também conhecida como “La rebelion de los SMS”.

Seja apenas para promover uma marca ou data comemorativa, para fazer protestos políticos ou simplesmente para levarem as pessoas a saírem da sua rotina cotidiana, a agirem de maneira desautomatizada, os flash mobs já fazem parte da paisagem urbana contemporânea. No Brasil, apesar de mais comuns em São Paulo, os mobs se espalham cada dia mais. E fiquem atentos! A qualquer momento, caminhando para ir ao trabalho, indo almoçar ou, simplesmente, pegando o transporte público, você pode ser surpreendido por um grupo de pessoas agindo de maneira pouco convencional, fazendo-lhe um convite a sair da rotina e notar que cada momento da vida é único e passageiro.

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