Como escrever sobre um livro se temos um forte vínculo com o autor? Se entrevemos, nas narrativas, memórias compartilhadas?

Capa do livro Minha mãe e outras mulheres

“Perfurei você no momento mais lúcido da minha vida. E só lamento uma coisa. Eu queria mesmo  tê-lo enforcado.” É assim que termina um dos melhores contos de Fabiano Costa Coelho no livro Minha mãe e outras mulheres (Confraria do Vento, 2017). É um livro multifacetado, com poemas e contos de vários vernizes, de ficção científica a exercícios estilísticos ora pomposos ora modernos, e com muitas temáticas, tendo como temática predominante o sexo. Muito, muito sexo. Mas isto, para quem conhece este autor de sobrenome Coelho, já era de se esperar. Eu vou lhe explicar.

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Quando você lê ficção, principalmente se você também escreve, você tem aquela vontade, às vezes pouco moderada, de saber de onde vem aquilo que está lendo? O que levou a pessoa que escreveu a colocar aquilo, daquele jeito, sobre o papel? A pessoa que escreve está sujeita a todas as suas vivências, à sua época, ao seu contexto e é na combinação destes elementos todos que está a origem dos seus temas. Como estes temas depois serão trabalhados na obra é que é o trabalho do artista.

Podemos dizer também, acenando à psicanálise, que a maneira como aqueles temas serão reelaborados ou contraelaborados numa obra de ficção, ou em qualquer obra artística, é que fará a obra ter mais ou menos apelo. Há esta química entre a obra e quem a aprecia que é incitada pelo quanto da pessoa criadora a obra está impregnada. É a esta humanidade na qual a obra embebida que nos conectamos.  Aquilo da vida da pessoa que cria é transformado naquilo que vemos e apreciamos na obra — desde que esta obra ganhe vida com alguma técnica atraente. É claro que, para apreciar a mágica, não é necessário saber se o coelho já estava na cartola antes do espetáculo começar, o truque vale pelo truque; mas conhecimento é sempre bom e entender por que se usa um coelho e não um gato é uma grande epifania — para quem gosta de mistérios óbvios.

Quando se conhece o autor e com ele se compartilha de alguns trau… Algumas vivências. Quando se conhece o autor e com ele se compartilha algumas vivências, apreciar a obra dele, no caso, ler o livro dele é como ter a falsa segurança de que se conhece aquilo na obra já reelaborado pelo processo criativo. Ainda na falsa suposição de segurança, é como ver o mágico realizando o truque, perceber o quão crível é a encenação e, ao mesmo tempo, achar que enxerga todas as engrenagens por traz da ilusão.

É muito mais fácil ler a obra de quem não conhecemos intimamente. Antes de retornar ao livro de Fabiano Costa Coelho, aí vai o contexto que você precisa.

Eu e o autor somos primos. Eu, Guilherme filho de Guilherme. Ele, Fabiano filho de Fábio. Ambos somos pernambucanos. Eu, recifense de Casa Amarela. Ele, jaboatonense de Piedade. Nossos pais tiveram um grupo teatral histórico em Olinda, Pernambuco, chamado Vivencial Diversiones. O pai dele, bailarino, era o coreógrafo. Meu pai, o diretor do grupo. Ambos também eram atores. Atrizes no mesmo grupo também foram nossas mães. O filme Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda, é baseado neste grupo. Irandhir Santos interpreta Clécio, que é inspirado no meu pai. Sylvia Prado interpreta Deusa, que é o amalgama de nossas mães. Há uma criança no filme, num personagem chamado “Tuca”, um menino que é a junção das crianças disponíveis à época, eu e minha irmã Juliana. Foi neste teatro que nasci. É sobre este teatro que converso com meu pai. Foram as histórias deste teatro que ouvi da minha mãe, sobretudo quando ela, Juraci, deixou os palcos. A mãe de Fabiano, Suzana, continuou atriz até hoje, uma tia que adoro demais. Eu e meu primo não tivemos o tanto de convívio que eu queria quando éramos crianças. Mas era sempre muito frenético quando nos encontrávamos e temos muitas histórias para contar. Ele era meu ídolo, meu “primo rico”, que morava na praia, conhecia os Estados Unidos e tinha um Master System II. Quando jovens adultos, no início dos anos 2000, já em Brasília, passamos a conviver mais. Moramos sob o mesmo teto, na casa de uma tia, em momentos muitos distintos das nossas jornadas pessoais. O humor pernambucano, o amor pela literatura e uma inesperada cinofilia eram as coisas que então tínhamos em comum. Mais em comum. Poucos anos depois, a inexorável vida adulta fez a parte dela e nosso convívio ficou mais raro, mas não menos afetuoso. Hoje, nos vemos uma ou duas vezes ao ano.

Aí está, em resumo, o vínculo histórico e familiar que alterou a maneira como enxergo o livro de Fabiano. Antes, este vínculo me impedia de escrever sobre Minha mãe e outras mulheres, por dificultar que eu tenha o distanciamento necessário para comentar a obra de outro escritor. O tal aquilo que mencionei, a tal humanidade a que nos conectamos em contato com a obra, já vinha acompanhado de memórias que eu mesmo vivi. Quando li o livro pela primeira vez, tudo — ou quase tudo — o que eu via eram pedaços da vida do meu primo, suas questões familiares, a presença da avó, o convívio com o padrasto, o amor à mãe, tudo isso transformado em arte. No entanto, diante da impossibilidade de dissociar o autor da obra, sobretudo por compartilhar algumas vivências com ele, agora é o mesmo vínculo que me faz escrever sobre a obra dele, porque é a partir deste vínculo que escrevo.

Bem, aqui eu lhe peço que relembre a analogia com um número de mágica: apreciar o truque, perceber a encenação, enxergar as engrenagens. Eu não consigo ignorar as engrenagens que acredito ver por trás da obra.

O autor é uma pessoa muito teatral. Digo, muito histriônica. Há no livro o conto “Margareth”, encenado pelo próprio autor neste vídeo: veja para entender do que falo. Eu não consegui ler os demais contos sem imaginar o próprio Fabiano os encenando para mim. A extroversão sempre foi uma das características mais marcantes do autor, que, além de ter um talento nato para a comédia, é um exímio passista de frevo de intelecto privilegiado. Esta extroversão, embora natural, ajuda a maquiar outra característica dos homens Coelho, que é uma fragilidade infantil que perdurou até a vida adulta. Eu, ele, nossos pais, meu irmão, todos em alguma medida temos esta característica; ou a mim esta característica parece evidente, já que a percebo sob a ótica da intimidade familiar. Também é uma característica que exige um uso reforçado de máscaras sociais. Todos nós as usamos, eu sei, mas algumas máscaras são mais grossas que outras, como escudos para impedir as investidas do mundo contra feridas que não sararam direito, se é que um dia saram. Outras máscaras são mais chamativas, extravagantes, para também levar a atenção do mundo para longe de onde ainda dói. Toda a teatralidade natural do meu primo me fez ver onde estiveram (estão ainda? Estavam?) as dores que ele carrega nos seus contos.

Sexo (bastante), abandono, racismo, presença materna, memória — são os temas recorrentes nos contos de Minha mãe e outras mulheres. No conto “Iago”, um homem de programa fala de educação sentimental e empreendedorismo. Em “Emília”, um heteronormativo usa a verdade para iludir e levar Emília para uma “trepada ciclópica”. “Fina Arte”, um breve manual de como apreciar melhor a atividade sexual dos vizinhos (é bem divertido). “O Trem”, um bem elaborado relato de abandono. “Casa da Árvore”, um excelente truque literário sobre traumas.  Há também investidas em ficção científica e os poemas, a maioria relacionada àqueles temas. Eu consigo ver o meu primo através do livro, às vezes de forma explícita, mas no mais das vezes de forma reelaborada. Sei, no entanto, que seria difícil ver Fabiano no livro para quem não o conhece.

Ainda preciso falar de dois contos. Um deles é “Infanta, por ela mesma”. É deste conto que vêm as palavras com que comecei este texto. A narradora se expõe em vingança à memória do marido opressor já morto. Uma narrativa muito carregada, pesada. O outro conto é “Soldadinho”, o mais longo do livro e no qual é possível ver várias partes da história do meu primo. Ambas as narrativas estão recheadas de elementos que já conheço nos bastidores; porém, ambas as narrativas valem por si mesmas independente do que se saiba da vida do autor (e é para ser sempre assim, inclusive). Estes dois contos, da maneira como foram escritos, foram os que mais me ligaram à humanidade neles exposta. Esta é uma das coisas que a literatura proporciona, a conexão. Espero que você sinta o mesmo durante a leitura, com o inevitável distanciamento ou desconhecimento da vida do autor. Eu mesmo não posso falar de outra forma e foi um grande desafio ler a ficção de uma pessoa que eu amo e julgo conhecer bem. As verdades gritam sem parar, mesmo sob máscaras.

Categorias:Cultura

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