Cultura

Da Pertinência das Discussões Atuais sobre Cinema Clássico (parte 1)

Um mote!

Inspirado por uma “provocação” pessoal decidi gastar algumas linhas de meus pensamentos para falar sobre o que a própria indústria cinematográfica define como filmes blockbusters. A provocação inicial veio por conta dos filmes da franquia “saga Crepúsculo”, que o diretor alemão Werner Herzog, em entrevista dada ao jornal Folha de S.Paulo, afirmou não serem tão ruins.

O que pretendo nesses artigos que publicarei aqui é desenvolver a minha visão sobre filmes desse gênero, mostrando que eu não os considero ruins, mas apenas prefiro outras opções blockbusters. Indo um pouco além, pretendo discutir mais a fundo essa dicotomia entre arte e entretenimento, no intuito de mostrar caminhos menos radicais sobre uma arte que nasce fruto da revolução industrial, como é o cinema. Contudo, a ideia também é não cair em uma relativização vazia, como se bastasse gostar do filme e pronto, sem discussões. Há algumas questões aí que devem ser pensadas profundamente.

Discutir se os filmes da saga são bons ou ruins, reconheço que foge de minha alçada na medida em que vi apenas o primeiro filme, e não me agradou. Isso não significa a adjetivação de bom ou ruim, trata-se de uma opinião baseada numa questão de gosto. No meu olhar, é um roteiro típico, com uma abordagem convencional, sem qualquer preocupação estética para além do enredo. Se há o que podemos chamar de inovação está no fato de que, nessa história, vampiros brilham ao sol. O que considero apenas não convencional para vampiros e fraca tentativa de atualizar explicações sobre eles, mas parece que colou.

Narrativa clássica e ponto. Nada tenho a afirmar sobre atuação, na verdade algo dentro dos padrões que uma produção desse porte exige. Bem, passado esse comentário sobre a minha impressão frente ao primeiro filme Crepúsculo, podemos entrar na famigerada discussão de ser bom ou ruim.

O primeiro ponto que é bom esclarecer é que quando eu estou me posicionando enquanto crítico, a tentativa ao falar de uma obra (filme, livro, peça, show) é a de apresentar aspectos técnicos que podem caracterizá-la como boa ou ruim. Não há nenhuma sombra de dúvidas de que esse distanciamento não é isento de gostos pessoais, uma vez que pedir isso de uma pessoa é impensável. Contudo, a centralidade da crítica está em destacar os aspectos formais da obra que fujam ao olhar mais imediato do espectador, pois que ele está inserido na “cadeia produtiva” da arte/entretenimento. Mas, ao final, cabe ao leitor da crítica apreciar ou não a obra em questão – seja ignorando, contrariando ou concordando com o que o crítico colocou.

Gostar ou não de um filme não é aferição da qualidade dele, sendo um mero dado quantitativo: “tantos milhões de pessoas gostaram de tal filme, outros tantos não gostaram daquele outro”. Muito menos vai dizer se o filme é bom observando só a quantidade de espectadores, isso interessa somente aos investidores e produtores que contabilizarão os lucros ou prejuízos. Certamente, isso terá impacto para os artistas envolvidos, pois um “fracasso” de bilheteria pode significar portas fechadas para produções e projetos futuros.

O segundo ponto a colocar está em procurar compreender onde reside a “disputa” entre os ditos filmes “de arte” e os blockbusters. Essa discussão se pauta no binômio arte versus entretenimento, que para muitos, são opostos. Ou seja, os filmes de entretenimento, muitas vezes as principais propostas dos grandes filmes hollywoodianos, não podem ser artísticos pois objetivam o divertimento do público, a “alienação” de sua realidade, e mostrar um mundo de  fantasia. Em contrapartida, os filmes de artes estariam preocupados com as grandes questões da humanidade, a existência e a miséria humana, a abordagem de temas polêmicos, etc.

Breve intercurso histórico

As discussões acerca da “qualidade” artística é anterior ao cinema, já que ela possui aí uns cento e poucos anos, tempo irrisório se pensarmos na literatura e no teatro. Mas essa discussão vem, pelo menos, desde a década de 1930, quando o cinema enquanto um “sistema industrial” começa a tomar força nos Estados Unidos, mas ainda passível de coexistência com os cinemas europeu e político soviético.

No entanto, essa discussão entre arte e entretenimento ganha força em meados dos anos 1960, já com o cinema hollywoodiano hegemônico em grande parte do mundo. Fazer essa distinção era uma questão política e de demarcação de territórios, em que cineastas europeus procuravam formular teorias alternativas ao cinema em escala industrial ianque. É quando surge a teoria do cinema de autor. É quando também, influenciados pela psicanálise, se formulam as teorias sobre o cinema de entretenimento como elemento alienante, sublimador dos desejos psíquicos de seus espectadores, em que o processo de identificação com os filmes os impediam de serem críticos perante o que viam.

Movimentos como a Nouvelle Vague, na França, e os novos cinemas, surgem ao redor do mundo versando contra um cinema em escala industrial, com um esquema de produção massiva e impessoal, em que vários roteiristas trabalham ao mesmo tempo e produtores é quem ditam  enredos e formas de filmar. Nesse âmbito, um grupo de artistas europeus propôs um cinema em que o diretor fosse a figura central do processo criativo e artístico. Em breves comentários, são esses os aspectos que permeiam os debates sobre cinema de arte e de entretenimento.

Muitos teóricos atuais rejeitam essa leitura, que não deixa de ter a sua relevância, mas pregam que elas acabaram por moldar um espectador excessivamente passivo diante do que recebe, ou acabaram por ignorar que a expressão artística promove uma imersão sobre a sua “realidade”, independente de sua “natureza”. Ou seja, possui um caráter catártico para quem se dispõe a “jogar o seu jogo”, seja a intenção do filme o entretenimento ou a “arte”. Portanto, ainda que politicamente válido, para tentar se contrapor a um estilo de cinemão, do ponto de vista da experiência, essas teorias tornam-se um tanto quanto simplistas.

O cinema clássico e Crepúsculo como seu modelo

Voltando para a discussão central e procurando me colocar dentro do que levantei acima, a minha posição não é da radicalidade, embora tenha um posicionamento político muito bem definido. O que se torna inegável, pegando a provocação inicial e a fala de Herzog, é que mesmo do ponto de vista da forma e do conteúdo, filmes como Crepúsculo não são ruins. E poderia dizer até que são bons mesmo, na medida em que atendem ao que é “solicitado” pelo gênero e pela indústria cinematográfica.

Mas afirmo isso apenas de um ponto de vista meramente técnico, ou seja, são filmes que se preocupam com a estética para torná-los “um produto bonito”, com efeitos surpreendentes e de alta tecnologia, cenas de ação de tirar o fôlego do espectador, longos travellings de paisagens exuberantes e exóticas de lugares inóspitos. Cria-se realmente uma esfera de fantasia para, em realidade, vender um produto. Para além desses aspectos técnicos, há pouca inventividade e trabalho criativo dentro dos filmes blockbusters.

No que se convencionou chamar de cinema clássico, a estrutura narrativa se baseia numa história contada de forma linear, com acontecimentos milimetricamente encadeados, ou seja, são filmes em que a cena presente explicará o que acontecerá na próxima cena, de forma a não deixar qualquer dúvida sobre o que está acontecendo no enredo contado. Há também o casal de heróis (sempre pela normativa heterossexual, obviamente), a mocinha pura será salva pelo herói, que ainda precisa passar pelas provações e se reconhecer enquanto tal para merecer a pureza da mocinha, sendo permitido ao casal perpetuar a espécie. Trata-se, evidentemente, de uma estrutura básica. Não é uma regra inabalável e pode sofrer diversas variações em torno de suas premissas principais.

Ainda que tenha visto apenas o primeiro filme da franquia, apesar de ser uma saga, dificilmente filmes nesse formato fogem dessa estrutura. Não é uma estrutura exclusiva do cinema, sendo muito forte na literatura, e ela contém um fundo de conteúdo altamente moral, no intuito mesmo de “ensinar uma lição”. Ali estão reforçadas um modelo de sociedade baseado em normas de conduta, com papeis sociais muito bem delimitados. Ainda que a heroína tenha personalidade forte, há tradições mais profundas que a levam à procura de seu grande amor. No final prevalece a família patriarcal, heterossexual e quase sempre branca.

O que está por “trás” do cinema clássico

Pode parecer um ideologismo, mas pode-se chegar a essa conclusão facilmente ao ver os principais filmes comerciais em cartaz num cinema perto de você, a diferença é que na saga Crepúsculo entram vampiros e lobisomens na equação para dar um ar de novidade. O núcleo duro permanece o mesmo. Ou seja, embora muitas pessoas frequentem os cinemas apenas atrás do entretenimento, isso é só o invólucro e peça de marketing em que se vende um filme que você “não precisa pensar” – procurando concretizar uma oposição que não é verdadeira. No fundo, você não pensa, porque o que você vê somente confirma a visão que você possui sobre o mundo.

Mas já estou fugindo um pouco de minhas intenções iniciais, a de discutir sobre a dicotomia arte versus entretenimento. Acredito que nesse artigo consegui minimamente esclarecer um pouco melhor a perspectiva pela qual filmes como Crepúsculo se estruturam e qual o seu papel dentro da indústria cinematográfica e na sociedade em que eles se inserem. Isso não é nada fortuito e é muito profundo para refletir a sua relação com a arte e a cultura.

No próximo artigo, procurarei demonstrar que não há superioridade do cinema de “arte” sobre o de entretenimento. Muito pelo contrário, pretendo problematizar um pouco essa discussão abordando como arte e entretenimento podem se imbricar e gerar filmes não convencionais, mesmo quando estruturados sobre a narrativa clássica. Por fim, procurarei demonstrar que o principal ponto de divergência entre essas duas questões também pode ser uma falsa questão, ou seja, a de que no cinema de entretenimento não é preciso pensar e de que no cinema de arte você só pensa.

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