“A canção brasileira está mais viva do que nunca, rica, surpreendente e pouco divulgada pela mídia”

O jornalista e produtor musical Zuza Homem de Mello escreve sobre música desde 1956. No ano passado, resolveu rever uma obra sua, em homenagem aos 50 anos da Bossa Nova. O livro Música Popular Contada e Cantada, lançado em 1976, foi revisto e se tornou, em nova edição, com outro formato e acréscimos, Eis os Bossa Nova (Martins Fontes, 08). A partir de entrevistas feitas com os músicos, Mello cria uma espécie de biografia em primeira pessoa da bossa nova. O jornalista culpa a mídia pela falta de reconhecimento dada à boa música, e também fala à Capitu da refeitura do livro e de seu envolvimento com os personagens daquele movimento musical.

Segundo Homem de Mello, ‘quando você ouve um trabalho, uma composição do Dante Ozetti, você vê que a canção brasileira está mais viva do que nunca; quando você ouve uma cantora como a Rosa Passos, você também chega a essa conclusão; quando você ouve um violeiro como o Ivan Vilela, também’. Também: ‘eu preciso ir atrás do que acontece na cena musical do Brasil hoje, que é muito rica, cada dia mais surpreendente em relação ao que acontece. ‘Isso tudo não é, infelizmente, divulgado na maioria dos meios de comunicação. A mídia, em geral, quando não é comprometida, é muito preguiçosa. Na maioria dos casos é comprometida com uma relação comercial que beneficia o bolso de quem faz o programa, ou coisa do tipo’.

Falando de Eis os Bossa Nova, ele afirma que seu livro é composto de ‘são episódios que chamam a atenção porque são uma descrições de viva-voz: as pessoas contam a história que viveram. O início, no bar do Plaza, com o Johnny Alf tocando e as pessoas escrevendo como todos eles iam lá ouvi-lo, eu penso que é um dos episódios que chama atenção. A descrição da primeira gravação de João Gilberto, como ele faz os dois percussionistas tocarem do jeito como ele quer; é algo que só eles podem contar. O livro está cheio de curiosidades, de aspectos que esclarecem muito a essência da bossa-nova’.

Na recomposição do livro, ‘a idéia foi desmontar o livro original e remontar em função da bossa-nova. Além de eliminar aquilo que não era ligado à bossa-nova no livro original, eu acrescentei novos depoimentos e dei a ele um outro título também, de maneira que ficou um livro mais homogêneo e mais específico’. São 27 personalidades desse movimento, que, de acordo com o que diz o autor, foi ‘o momento mais revolucionário da história da música popular brasileira até hoje’.

‘De maneira geral, todos eles me marcaram. Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronaldo Bosco. O Tom Jobim, pela inteligência, percepção, conteúdo e, sobretudo, pela capacidade de uma certa premonição, de uma certa previsão em relação à música brasileira feita em 1967 e que, de uma certa forma, se confirmou nos anos seguintes. A Elis Regina também: era uma pessoa maravilhosa, extraordinária, com uma abertura de visão que não se limitava só à música, ela ia mais além. Embora na minha entrevista ela tivesse vinte anos, vinte e um anos, uma coisa assim, ela já tinha essa capacidade de vislumbrar coisas que as cantoras da sua idade não conseguem’.

Há outro livro bastante conhecido, já chamado de registro ‘definitivo’ da história da bossa nova por alguns jornalistas: Chega de Saudade — A História e as Histórias da Bossa Nova (Companhia das Letras, 1990), de Ruy Castro. Perguntado sobre o que seu livro traria de novo ao relato de Castro, qual seu diferencial, Mello disse: ‘Bom, eu não posso comentar isso porque são os leitores que devem comentar sobre esse assunto. Eu acho que, em princípio, um assunto nunca se esgota. Não posso deixar de citar que a primeira edição desse meu livro é de 1976, portanto, anterior ao Chega de Saudade, do Ruy Castro’. De acordo com ele, essa primeira edição teria sido bibliografia de Castro.

 

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