Aproximação, de Amos Gitai

Amos Gitai questiona até que ponto o judaísmo ainda é definidor de identidades e, por consequência, até que ponto ainda é coerente o sionismo

Aproximação chega ao circuito de cinemas mais de dois anos depois de ter sido exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo sob o título de A Retirada, mais próximo do original Disengagement e do que o filme realmente é: um retrato da retirada dos assentamentos judeus da Faixa de Gaza.

A nova tradução tenta torná-lo um filme sobre a relação entre mãe e filha ou sobre uma mulher de origem judaica e Israel — mas se perde então o que torna Amos Gitai o mais renomado e importante cineasta israelense: ele nunca fala do que parece falar. Pode-se dizer que seus últimos três filmes narrativos, Free Zone, este Aproximação e o ainda inédito Mais tarde você entenderá (exibido na Mostra de 2008) falam de mulheres de identidades indefinidas, de origem judaica e/ou israelense, mas que não se sentem definidas ou abarcadas por essa cultura. Esta é em parte a questão de Gitai: questionar até que ponto o judaísmo ainda é definidor de identidades e, por consequência, até que ponto ainda é coerente o sionismo [movimento nacionalista judaico].

O cineasta fala também de seu país, cuja identidade de nação religiosa há muito se perdeu. Há neste filme uma radicalização do que sempre foi uma característica do diretor: a crítica à política e, principalmente, ao exército israelense. Amos Gitai foi ele mesmo um soldado, lutou na sangrenta guerra do Yom Ki Pur, em 1973, no entanto seu olhar sobre o exército é sempre cínico: seus soldados são jovens que ora não se interessam ou não sabem bem porque estão ali, ora se deixam levar pela violência e o poder.

Há pouca coisa em Aproximação que pareça original ou que fuja ao estilo já bem delineado do cineasta, exceto talvez pela primeira parte do filme em que a relação entre a personagem de Juliette Binoche e seu irmão mostra-se ambígua e o diretor anuncia a direção mais poética e menos narrativa que tomará nos anos seguintes. Mas isso, nas mãos de um veterano como Gitai, não se trata de um defeito, mas de uma demonstração de estilo: estão ali os longos planos-sequências, a preferencia dele por ações que buscam a câmera e não o contrário, a eterna referência a Nouvelle Vague, personificada pela diva Janne Moreau, a crônica de um país.

Pois mesmo que o autor tome posição aqui, esta é igualmente contra o exército e os assentados. Sua opinião sobre estes sai de sua própria boca, em uma participação um tanto hitchcockiana que faz em seu próprio filme: “eles não deveriam estar lá”. Mas, se nada diz sobre o exército, faz questão de mostrar a violência para com todos e a humanidade por trás desses soldados que, incumbidos de missões tão difíceis, se deixam levar por problemas cotidianos.

Está aqui a força deste filme e de toda a cinematografia de Amos Gitai. Em meio a um dos mais polêmicos conflitos do planeta, ele não é panfletário, mas reflexivo. Gitai cria obras de arte repletas de linguagem e donas de uma estética rebuscadas, que no entanto aderem o tempo todo à realidade que as gerou.

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