Cultura

Amanda Angelozzi, literatura se ensina?

Amanda Angelozzi: “Quando criança, tinha uma vontade inexplicável de aprender a ler e escrever” | foto: arquivo pessoal

Não é difícil encontrar quem tenha uma história ranzinza em relação a leituras obrigatórias na época da escola. É um tal embaraço que, muitas vezes, o que deveria ser um primeiro encontro com a palavra encantatória acaba por virar um aperreio. Por outro lado, existem aqueles que, já quando novos, têm o privilégio de adentrar na costura sensível de textos literários. Assim aconteceu com a pedagoga e mestranda em literatura brasileira Amanda Angelozzi: com mãe e tia professoras, a leitura fez sempre parte de seu cotidiano. Ao longo dos anos, a educadora constrói seus passos tendo a sala de aula enquanto norte. Como transmitir e mediar um conhecimento-fascinação que muito permeia sua vida? À Úrsula, Amanda – que é também graduada em letras (bacharelado e licenciatura em português e italiano) – rememora sua história e reflete a respeito da pergunta: literatura se ensina?

Quando e como se deu seu primeiro contato com a literatura?

Quando criança, tinha uma vontade inexplicável de aprender a ler e escrever. Chegava a ficar irritada e ansiosa por ver tantas letras em vários lugares e não saber o que elas, juntas, significam. Minha vontade era tamanha que a minha mãe acabou por me ensinar a ler e escrever por meio de um jogo enquanto ela realizava os afazeres da casa. Dessa brincadeira, passei, depois, aos livros. O primeiro deles foi uma obra de literatura: A Arca de Noé: Poemas Infantis de Vinicius de Moraes (1970). Adorava ler os poemas e observar as ilustrações. Guardo, aliás, até hoje o livro comigo (todo rabiscado!).

Quais lembranças você tem do ensino de literatura na sua época de escola?

Do período do Ensino Fundamental, para ser honesta, só me recordo dos textos que líamos em cada unidade do material didático. Foi no Ensino Médio que a literatura se fez presente mesmo. Eu tenho lembranças felizes por ter sido aluna de Rosita, uma professora que ama Luís de Camões e fala do poeta de um jeito bastante apaixonado. Ela organizou, certa vez, um sarau: a turma se vestiu com roupas de gala e recitamos poemas no meio do pátio. Foi divertidíssimo. Cida, outra educadora, pesquisa Machado de Assis e analisa os contos do Bruxo do Cosme Velho de uma forma acessível e enriquecedora. Já Carol canta nas aulas e apresenta músicas, filmes e demais recursos para abordar as obras literárias. Essas professoras sempre se mostraram abertas e liam, inclusive, as narrativas que eu, timidamente, comecei a escrever. Sou grata pelo exemplo e carinho delas. 

Por que você decidiu cursar letras?

De primeira, não queria cursar letras. O meu plano era trabalhar com jornalismo cultural ou literário. Costumo dizer, porém, que uma conversa me salvou. No cursinho, tive mais uma professora especial de literatura, Niti. Formada tanto em letras quanto em jornalismo, ela despertou a minha atenção para o fato de que os meus olhos brilhavam nas aulas de literatura. Faltavam poucas semanas (talvez, dias) para as inscrições do vestibular e essa conversa não saía da minha cabeça. Fui me informar a respeito do curso de letras e, em cinco minutos, tive a certeza que não encontrei em quatro ou cinco anos desejando fazer jornalismo. Eu me orgulho e agradeço a Amanda de 17 anos por ter tido coragem de mudar seus planos e escolher aquilo que mais fazia sentido para ela. Ao entrar na faculdade, a minha ideia inicial não me tornar educadora. Contudo, quando entrei na sala de aula pela primeira vez, acabei me apaixonando. Hoje, não descarto a possibilidade de explorar outras áreas de trabalho (como o jornalismo e a editoração), além de me realizar também na pesquisa acadêmica, mas tudo sem deixar o amor que se formou em mim pela educação.

Amanda Angelozzi ao se formar em letras na Universidade de São Paulo (USP) em 2019 | foto: arquivo pessoal

Como você começou a dar aulas?

Em meados de 2014, uma antiga professora minha me indicou para a posição como professora de literatura, pois ela não poderia seguir com as turmas. Por mais que a empresa estivesse relutante em razão da minha falta de experiência, acabei ganhando uma chance, já que a educadora tinha tanta confiança em mim. A minha primeira aula foi para uma classe de cinquenta alunos. Eu, aos 19 anos, ensaiei diversas vezes em casa. Mas, ao chegar na sala, mal conseguia olhar para os estudantes: senti medo, tremia, a adrenalina era tão grande que parecia que ia desmaiar. No fim, correu tudo bem e, com o passar das semanas, fui me envolvendo e ficando desenvolta. Porém, uma coisa nunca mudou: nunca saio de uma aula do mesmo jeito que entrei e sei que aprendo muito com meus alunos.

O que não pode faltar em aula sua de literatura?

Não pode faltar interdisciplinaridade. Adoro ensinar com música, cinema e história. A literatura é uma arte extremamente complexa: não se trata apenas de ler ou de abstrair. Creio que esse processo interdisciplinar aumenta a sensibilidade dos alunos: ler quadros, por exemplo, ajuda a estabelecer relações com características e movimentos literários. O mesmo vale para filmes, canções, contextos históricos, sociais, políticos etc. Vale ressaltar ainda que, por mais que precisemos nos atentar para a teoria, aula de literatura sem o texto literário é impossível. Precisamos de muita leitura e recitação. Também não deve faltar diálogo, uma vez que a arte literária é vida e viva. Acredito que, com conversa, troca e um espaço seguro para dúvidas e ideias, podemos produzir conhecimento. A aula de literatura não é um monólogo: ela necessita ser uma construção de muitos tijolos, coletiva, bonita e consistente.  

Você acha que há idade certa para começar a ler clássicos?

Acredito que uma criança não conseguirá ler Homero, posto que ela ainda não dispõe de todos os mecanismos para encarar uma leitura assim. No entanto, com bom senso, não acho que deva ter uma restrição etária rígida para começar a ler clássicos ou qualquer outro livro. Não podemos subestimar a inteligência de crianças e adolescentes. Eles têm a capacidade de enfrentar temas complexos e tramas desafiadoras. 

A partir de suas experiências, como você percebe a relação de jovens com obras literárias?

São diversas as relações. Há estudantes que se envolvem, muitos por já terem gosto pela leitura. Outros, porém, menos acostumados, ainda não conseguem transpor a alcunha de “lista de leituras obrigatórias”. Alguns, aliás, iniciam-se no universo da leitura por conta, justamente, dessas listas. Mas, penso eu, que é possível, com bastante conversa e orientação, ultrapassar esse estigma. Fora o diálogo, o professor deve ter um papel de fascinar o aluno com o texto literário, falando sobre a narrativa de maneira interessante, aguçando a curiosidade do estudante sem forçar nada. O educador também deve ser honesto e solidário, mostrando a importância das obras ditas obrigatórias para a história e a rede literárias.

A última pergunta: afinal, literatura se ensina?

Em partes, sim, pois, na minha visão, ler é um trabalho associativo e formal. O aluno deve ser instruído a respeito dos procedimentos que envolvem o fazer literário e ser capaz de agregar tanto o que é mais formal quanto o que é do terreno do sensível, do afetivo. Além de ser ensinada, a literatura precisa ser despertada. Eu, por mais que tivesse uma propensão ao exercício da leitura, jamais teria me interessado de forma profunda pela arte literária se não tivesse sido sempre incentivada pelas pessoas ao meu redor. A literatura, sendo um direito, é parte do que nos faz um “eu” e, concomitantemente, um “nós”, precisa estar inserida em inúmeros lugares e relações. Como pontuou o professor e crítico Antonio Candido, a literatura é a manifestação universal de todos os homens em todos os tempos – e, para mim, ela é uma das poucas certezas que tenho na vida.

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