“Ser educadora é sentir os abalos sísmicos da base social em primeira mão, como as andorinhas percebem a tempestade chegando e começam a voar baixo para nos avisar”

Esta entrevista faz parte da série No Chão da Escola, sobre os profissionais que atuam nas escolas
imagem: Arquivo pessoal

A escola como espaço da prática da convivência e da diferença, da construção das identidades e da abertura a novas possibilidades. Parece ser essa a essência do depoimento da professora Chie Hirose à Úrsula, na estreia da série No Chão da Escola, que a cada vez trará falas aprofundadas de quem vive o cotidiano escolar, o contato com os alunos, as questões estruturais do ensino. Chie é doutora em educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE/USP), com dois pós-doutorados nessa mesma faculdade. É professora de sociologia da educação nas Faculdades Integradas Campos Salles e do Fundamental I da Escola Municipal de Ensino Fundamental e Médio Vereador Antônio Sampaio, em São Paulo. Além disso, é diretora científica de eventos e diretora de relações com escolas públicas do Centro de Estudos Medievais Oriente & Ocidente (Cemoroc), da Feusp.

O que te atraiu para a educação?

Chie Hirose: Nasci em 1968, primeira filha de um casal recém-chegado ao Brasil e cresci rodeada de jovens imigrantes japoneses, iguais aos meus pais: sobreviventes das consequências mais profundas da 2ª Guerra Mundial na infância. Esses pais e mães davam muita importância à educação dos filhos. Eu imaginava que era porque o seu país de origem tinha como tradição valorizar a educação. Quando eu mesma cheguei à idade desses jovens, percebi que o que eles queriam era propiciar às suas crianças uma infância rica de experiências variadas de muita brincadeira, estudo e criatividade. Ou seja, tudo que a guerra tinha tirado deles quando eles eram muito pequenos.

Crescendo nesse ambiente, protegida por esses adultos, fui entendendo a força destruidora da guerra e o valor inestimável da liberdade e a alegria de viver na paz. Principalmente ouvindo as experiências dos meus pais: a primeira recordação da minha mãe é estar fugindo dos aviões inimigos e se escondendo em um buraco coletivo no chão. De meu pai, que é da província de Hiroshima e órfão de pai soldado, fui aprendendo que a paz não era algo dado, mas a ser conquistado. Com o tempo também fui entendendo que existem outras situações na vida que não recebem o nome de “guerra”, mas que também carregam as destruições da vida tranquila, como o fato de ainda recentemente nosso país ter saído de uma Ditadura Militar, na qual muitos viveram a violência e perderam suas vidas. Consequentemente, muitas crianças brasileiras da minha idade não puderam aproveitar a infância, como aconteceu com os meus pais no Japão.

Eu nunca me senti tentada a deixar a educação (apesar de todos os pesares…), permaneci porque para mim sempre foi um caminho sem volta. Quem muito bem explica isso é o pensador Julian Marias: “Vocação: é o que não se pode deixar de fazer”

Acho que foi essa conscientização que me fez querer ter a profissão de professora. Ainda hoje, eu me empenho para que cada criança ou jovem consiga desenvolver toda sua potencialidade na vida escolar. Foi por isso que meus avós batalharam para oferecer a meus pais durante a guerra e o que eles fizeram com que eu acreditasse também: que todos, independentemente da situação em que nasceram, tem o direito de viver a vida plenamente e com dignidade. E, para isso, é primordial a aprendizagem da convivência e da cultura da paz.

Quis contar sobre essa motivação que me acompanha como profissional e que me fez escolher a escola pública brasileira para se dedicar. É uma maneira de responder à pergunta preconceituosa, a injúria racial do presidente, que disse não saber o que “essa japonesa” (a jornalista Thaís Oyama, brasileira nata com ascendência japonesa) fazia no Brasil.

Ser uma brasileira com pais vítimas de guerra dá-me a oportunidade de ver a história de conflitos de poder do nosso país de forma diferente de outros brasileiros com outras vivências. Faço questão de estudar com meus alunos as lutas territoriais das nossas comunidades indígenas; não deixo de estudar os medos e as aflições das crianças que fogem das balas perdidas das favelas do Rio. E estendo essa preocupação também aos animais que fogem das matanças e dos incêndios florestais. A minha sensibilidade em relação às notícias da guerra em vários pontos do mundo ou o meu empenho pessoal para buscar a paz no nosso território torna-se muito forte. Consigo me identificar com os descendentes de alemães e italianos que sofreram perseguições do governo brasileiro na época da Guerra e me interessar pelos refugiados que vêm fugindo das guerras civis dos seus países. Sempre contenho o meu choro quando leio sobre o esforço dos brasileiros afrodescendentes que lutaram na Guerra de Paraguai para conseguir a sua liberdade (e foram enganados…). Eu me remeto às tragédias que meu avô e tios-avôs sofreram na Guerra.

Tenho certeza de que a força do povo brasileiro está no leque de heranças culturais e histórias universais que cada um de nós carrega como sua identidade. A minha, como filha de japoneses, é essa. Seria de esperar que o líder atual deste país pudesse – ainda que minimamente – reconhecer a importância da heterogeneidade da nossa população.

Algo já te tentou a deixar a educação? O quê? O que te faz permanecer na educação?

Eu optei por ser professora aos 16 anos quando escolhi o curso de magistério para meu ensino médio. É um investimento que fiz, conscientemente na minha adolescência, para a minha formação profissional e que mantenho até hoje. Fui estudar antropologia da educação fora, voltei, fiz o doutorado e recentemente terminei o meu segundo pós-doutorado, na Feusp. Eu nunca me senti tentada a deixar a educação (apesar de todos os pesares…), permaneci nela nesses tantos anos, simplesmente, porque para mim sempre foi um caminho sem volta. Quem muito bem explica isso é o pensador Julian Marias: “Vocação: é o que não se pode deixar de fazer”.

Precisamos considerar o chão da escola como espaço de construção da humanidade. É lá que acontece a formação como ser social, a afirmação da identidade. Nele, elaboramos as várias questões pessoais e coletivas da nossa época

Que experiências vividas na escola mais te marcaram? Conte uma história que considera valioso compartilhar com outros professores.

Em fevereiro de 2012, a nossa cidade recebeu a rara possibilidade de apreciar os dois painéis de Guerra e Paz do ilustre pintor Candido Portinari. São obras-primas que estiveram expostas de forma restrita e permanente desde 1956 na sede nova-iorquina da Organização das Nações Unidas (ONU). Os painéis (com uma superfície de 280m²) retornaram ao Brasil para serem restaurados. Era uma oportunidade única para as crianças, da minha classe, conhecerem essas obras. Fui atrás dessa possibilidade e soube que nenhuma escola da nossa região norte teria ônibus à disposição, pois o orçamento para o transporte já estava reservado pela Secretaria Municipal de Educação (SME) às escolas que iriam para uma semana esportiva da Prefeitura. Eu não tinha como levar as crianças até o Memorial da América Latina.

Nós professores, não desistimos. Passei o chapéu entre amigos e familiares para conseguir alugar um ônibus por conta própria, enquanto os meus colegas de artes, educação física, espanhol etc, cada qual nas suas aulas, apresentaram aos estudantes por que razão davam tanta importância a esses painéis e sua relação com o menino Candinho. Nós, professores, sabíamos muito bem que no ambiente familiar da nossa comunidade, as crianças e os jovens eram confrontados frequentemente com casos de conhecidos, vizinhos, ou até parentes, vítimas da cultura da vingança – assassinatos, chacinas, abusos da polícia, guerras de traficantes, fora o desemprego, dificuldades na habitação e na alimentação. Os nossos alunos vivem a violência de uma guerra todos os dias! O desejo profundo que Portinari depositou em Guerra e Paz certamente daria às crianças uma experiência única com a arte e a esperança. A história de vida do próprio Candinho era uma referência de coragem e fé.

O que mais me tocou nesse processo foi quando um colega, o professor Alexandre José Arcanjo, explicou às crianças que a cidade de São Paulo não se interessou por que elas conhecessem os dois painéis, um fato muito triste e algo a pensar… Mas se elas quisessem, nós professores faríamos de tudo para levá-las, porque sabíamos que Portinari tinha desenhado aqueles enormes painéis para elas, as crianças que podem transformar o nosso mundo em paz. As crianças disseram: “Nós queremos!” O dinheiro suficiente só foi conseguido, infelizmente, no último dia da exposição. Eu, desolada, quase aos prantos, de repente, recebo a notícia de que ela tinha sido prorrogada, dada a enorme procura do público (essa exposição foi vista por mais de 120 mil pessoas). Para nós todos, foi como um milagre operado pelo próprio pintor, lá do Céu. Na mesma semana, partimos com o ônibus cheio para o Memorial. Chegando lá com toda a criançada, outro fato inesquecível: recebi das mãos do representante de João Cândido Portinari um livro assinado por ele, agradecendo o nosso esforço para levar as crianças à exposição do seu pai. Alunos, mães e professores ficamos impactados com a sintonia entre o nosso desejo e o dos organizadores do Projeto Portinari. Uma criança me disse: “Professora, aprendi que quando nós buscamos a paz de todo coração, como fez o Candinho, algo iluminado pode acontecer: O impossível se torna possível!”

Às vezes os professores criticam certas opiniões sobre a escola indicando que os críticos não conhecem o “chão da escola”. Como você define esse chão da escola? O que ele tem de particular?

O exemplo que dei do movimento que fizemos para a exposição do Portinari, na verdade, já ilustra o que eu defino como “chão da escola pública”. Depois de estar por quase 30 anos envolvida diretamente com as escolas públicas, daqui e do Japão (pesquisa etnográfica), a lição mais importante que aprendi foi: precisamos considerar o chão da escola como espaço de construção da humanidade. É lá que acontece a formação como ser social, a afirmação da identidade. Vivendo no “chão da escola”, elaboramos as várias questões pessoais e coletivas da nossa época. Entretanto, as pessoas se enganam, muitas vezes, achando que esse espaço escolar é só para os estudantes, a prioridade voltada somente para as novas gerações. É necessário conscientizarmos que o “chão da escola pública”, por definição, é um ambiente que sintetiza o processo de democratização, ele é um lugar “de direito” também dos professores, também de todos os envolvidos na educação dessa escola.

Ainda nesse sentido, o que as políticas públicas ou as ações dos governos poderiam entender melhor na abordagem das questões escolares?

Atualmente, não sei se todos percebem, os problemas do sistema educacional são transformados rapidamente em questões pessoais ou psicológicas dos atores da escola. Isto ocorre porque existe um movimento (para mim, intencional) no qual as contradições do sistema não são explicitadas ou assumidas politicamente, mas empurradas por meio de discursos e pesquisas encomendadas, como causa-consequência, para a responsabilidade dos sujeitos, induzindo a que (até por eles próprios) sejam considerados como problemas de pessoas. Quantas vezes ouvimos a sociedade por meio de várias discussões midiáticas ou dos órgãos “ditos” especializados em educação, tanto internacionais quanto nacionais, justificando a violência escolar, ou os dados baixos de rendimento escolar, como questões de má formação dos professores? Ou colocando a culpa na desintegração da família ou até no uso excessivo ou do não uso da tecnologia?

O chão da escola permite colaborar para a afirmação das identidades dos alunos e, ao mesmo tempo, reconhecer o meu próprio lugar e valor. Isso, porque participamos dele pela nossa razão, pela nossa emoção, pela interação dos nossos corpos

As contradições da organização escolar, ainda hierarquizada e autoritária, aparecem quando utilizam teorias mirabolantes de gestão (tão disseminadas) que priorizam os estudantes e suas famílias como “clientes”, para impor uma ação pedagógica ou uma reforma curricular. São políticas públicas ou gestores escolares implementando mudanças de estratégias enxergando só uma parte desse “chão”. Esquecem que a escola é financiada pelo imposto e por isso um espaço de aprendizagem democrática de todo mundo mesmo. A escola pública precisa ter o seu “chão”, um espaço em que todos os envolvidos sejam priorizados para que sua aprendizagem como pessoa e como ser social aconteça. É por isso que digo que o “chão da escola pública” é muito mais amplo do que as pessoas imaginam. Daí que exista a necessidade de estudar este espaço público em sua complexidade.

Veja o meu caso. Alguém pode perguntar: nossa, precisa mesmo estudar até pós-doutorado para ensinar crianças de 6, 7 anos a ler e escrever? Por incrível que pareça, a alfabetização que ocorre no chão da escola pública exigiu tudo isso de mim. Porém, o que as ações políticas precisam entender é que os professores não precisam dos famigerados pacotes de “curso de capacitação” para se aperfeiçoar na sua atuação. Eles precisam, sim, é de cursos de formação ou projetos voltados para que eles potencializem sua identidade e que os fortaleçam nos projetos que eles mesmos criam, maravilhosamente. Dependendo do lugar social do qual cada professor parte, ele expandirá sua atuação com sua singularidade e criatividade, o que é uma real contribuição que parte do chão da escola e o beneficia sobremaneira.

Nesse sentido, como diretora do Cemoroc, núcleo de pesquisas da Feusp, e editora ad hoc de diversos volumes de suas revistas internacionais, empenhei-me (com gratificante sucesso) em que os próprios professores da escola pública pudessem registrar, em primeira pessoa em artigos seus projetos, ideias e vivências. Como editora o que procurei foi extrair dos próprios atores da linha de frente do ensino básico suas experiências, paradigmáticas, que (infelizmente) não costumam ser apresentadas em eventos das secretarias de educação ou, por eles mesmos, em publicações científicas. Um apanhado desses artigos se encontra aqui. Eu acredito na fundamental importância de garantirmos esses projetos dos próprios professores e fortalecê-los, pois eles partem de lugares sociais diversos e permitem embates mais democráticos entre grupos de poder e de resistências. Tudo isso parte do chão da escola pública.

Chie em sala de aula

O que é ser uma educadora?

Percebo que nesta entrevista, respondi às suas perguntas focando, especialmente, como a educadora que sou: de escola pública (desde 1989) da maior metrópole da América Latina, filha de imigrantes japoneses.

Minha satisfação maior é ouvir um estudante me dizer: “Sinto que estando com você potencializo quem eu sou”. Assim, ser educadora é ter o privilégio de desenvolver o nosso papel de cidadã dessa sociedade, carregando a nossa identidade juntamente com outros autores sociais de forma contínua e intensa. Poder sentir os abalos sísmicos da base social em primeira mão, como as andorinhas percebem a tempestade chegando antes de nós e começam a voar baixo para nos avisar. Receber diretamente as pressões de vários interesses das camadas da sociedade brasileira com coragem. E tentar traduzir esse estresse conflitante de embates políticos e culturais na arena chamada sala de aula com a nova geração de seres humanos com seus 6 a 10 anos de existência neste planeta. E, junto com eles e outros adultos – colegas, estagiários, pais e comunidade –, procurarmos entender a história que a humanidade está vivenciando no momento. É colaborar para a afirmação das suas identidades e, ao mesmo tempo, reconhecer o meu próprio lugar e valor. O chão da escola permite isso, porque participamos corporalmente desse espaço: pela nossa razão, nossa emoção, pela interação dos nossos corpos: corpos que pulsam a vida nesse universo.

Categorias:Conhecimento

Participe da conversa