As Muitas Origens da Solidão

Noreena Hertz afirma que a onipresença dos celulares e as imposições da economia implicaram em um aumento da solidão – e há vários riscos decorrentes disso

Recorte da capa de O Século da Solidão

Idosas japonesas cometem pequenos furtos para serem presas porque na penitenciária elas encontram mais companhia do que em suas casas. Donos de robôs que aspiram pó colocam nome neles e compram pequenas roupas, da mesma forma como se faz com bebês ou cachorros. Robôs sexuais são produzidos com material sintético com textura e temperatura semelhante à pele humana para emular contato físico, olhos capazes de simular contato visual e podem ser programados com comportamento como tímido ou intelectual. Serviços de aluguel de amigos possuem uma clientela considerável. Todos esses são sintomas de um novo mal do século: a solidão. E é esse tema que a economista Noreena Hertz aborda em sua obra O século da solidão.

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Esse livro se debruça sobre a tese de que estaríamos em uma época em que os níveis de solidão seriam maiores do que em outras épocas. Esse problema possui fundamentação empírica: 60% dos trabalhadores do Reino Unido afirmam sentir solidão no trabalho, um quinto dos jovens da geração millenial afirma não ter amigos, 60% dos britânicos entre 18 a 34 anos afirmam passar por momentos de solidão, 50% das ligações para serviços de apoio mental se tratam de pessoas alegando solidão.

Esses dados dão uma noção de que a solidão é um problema global e que inclusive é responsável por problemas de saúde. O estresse causado pela solidão provoca alterações fisiológicas, como na pressão arterial e na respiração. Pessoas solitárias sofrem mais de problemas coronários, têm mais chances de ataques cardíacos e demência. Níveis de colesterol e a possibilidade de desenvolver câncer são maiores nesses grupos. Em suma: solidão mata.

Mas por quais motivos os níveis de solidão nos tempos atuais cresceram? Para responder a essa pergunta, a autora apresenta uma ampla argumentação.

Capa do livro de Noreena Hertz

Por que estamos mais solitários?

A resposta a essa pergunta é bastante ampla, porque a solidão possui diversas formas e afeta as pessoas de forma diferente. Há pessoas que se sentem solitárias no trabalho, jovens que não se enturmam na escola, aqueles que não conseguem se envolver em uma relação amorosa mais próxima, aqueles que vivem cercados de pessoas e se sentem sozinhos. Então muitos fatores envolvem a origem da solidão.

Umas das respostas apontadas pela autora tem base econômica, referindo-se a como os modelos financeiros e trabalhistas dos últimos 40 anos afetam a capacidade de socializar. Com o capitalismo neoliberal e suas novas relações de trabalho, o tempo disponível para socialização é cada vez menor. Os espaços de convivência, como clubes, sindicatos e demais agremiações se tornaram menores. O foco no individualismo se tornou maior e isso pulverizou parte das relações sociais.

Outro fator é bem conhecido: o apogeu das tecnologias da comunicação, em especial os celulares. O uso excessivo dos aparelhos eletrônicos tira o foco das relações pessoais. Mesmo havendo socialização por meio das mídias digitais, elas não suprem o contato físico ou olho a olho. Perder as relações próximas e se focar nas digitais não suprem a necessidade de companhia. E não é raro ver famílias ou grupo de amigos juntos que, em vez de interagirem entre si, ficam conectados em seus celulares.

As novas configurações de locais de trabalho também afetam na solidão. Como o trabalho consome boa parte do tempo das pessoas, é nesses locais que ocorre boa parte da interação social. Porém, nessa nova era do capitalismo neoliberal e das tecnologias da informação, as relações de trabalho se tornaram mais isoladas. Comunicação entre as pessoas se burocratizaram em e-mails. Câmeras de vigilância apontadas para os funcionários inibem conversas. Os antigos refeitórios onde todos compartilhavam da refeição mudaram para almoços solitários. Daí a alta de pessoas que apontam solidão no trabalho.

A arquitetura das cidades também colabora para esse processo. Bancos de locais públicos com encostos para o braço e dispositivos que gotejam água para evitar mendigos são fruto da arquitetura hostil, uma arquitetura que busca criar espaços de pertencimento e não-pertencimento, uma forma de exclusão que promove o afastamento entre as pessoas. Ou então parques e praças, locais historicamente dedicados à interação, com grades separando aqueles aceitos e excluídos.

Todos esses fatores influenciam na sensação de solidão de cada pessoas. Entretanto, há uma forma de solidão que é diferente, possui origens próprias e consequências bem mais amplas.

O mundo não liga pra mim

Quando se fala em solidão, a cena que vem a mente é de pessoas sem amigos ou familiares, dentro de casa sem atividades sociais. Hertz vai mais além e aponta outra forma de solidão, que é a sensação de abandono nos âmbitos social e político.

Esse tipo de solidão nasce da sensação de que as pessoas ao redor não se importam, que não há ninguém próximo, não existe companheirismo ou laços entre a comunidade; ou então do abandono por parte do poder público, a ideia de que o estado não fará nada pelo sujeito, não vai oferecer cuidados, serviços ou segurança.

Essa sensação é bem diferente da solidão tradicional. Ela representa um deslocamento dentro da sociedade e a descrença no estado e na política. A pessoa acha que vai ficar velha e sem amparo de políticas públicas. Ou que adoecerá e não haverá um hospital ou profissionais de saúde para atendê-la. Sente que não consegue emprego ou que a inflação aumenta porque o estado a deixou de lado. E essa sensação traz implicações para a postura política.

Esse perfil se torna mais vulnerável a extremistas populistas que bradam por união social e mudanças na estrutura governamental, entre outras promessas que aludem a oferecer a esperança de que o estado vai sim se importar. Essa forma de solidão acaba tendo muita relevância nas mudanças políticas recentes, como na ascensão da extrema-direita em diversos países, com um discurso que apela para o nacionalismo e o senso de pertencimento, o que muitas vezes descamba para a xenofobia e a intolerância.

O sentimento de intolerância tem forte destaque dentro desse tema. A solidão pode gerar sentimentos mais violentos, como a repulsa ao contato social. Pessoas solitárias tendem a ser mais agressivas. Isso em um contexto de sentimento de abandono social tem forte potencial para dar espaço aos políticos extremistas com pautas xenófobas.

Portanto, a solidão não se limita a um problema de nível pessoal e com impactos apenas na saúde. Ela está atrelada a questões sociais, tanto com relação às causas quanto às consequências. Por isso é um tema que demanda um interesse de nível social.

Como reverter?

Se a solidão afeta o ser humano em tantas dimensões, discutir o assunto e procurar soluções se trata de uma pauta importante para o bem-estar individual e social. Então é na origem do problema que Noreena procura essas respostas.

Noreena coloca muita relevância no fortalecimento da democracia e em respostas por parte do estado junto à comunidade. O restabelecimento dos locais públicos e da convivência social são algumas dessas medidas. Investimento em clubes e agremiações capazes de estabelecer a proximidade entre as pessoas. Alteração na legislação trabalhista, derrubando medidas que criam ambientes de trabalho impessoais ou exercendo mudança nos modelos gerados pelo capitalismo neoliberal. Garantir que haja mais tempo disponível para outras atividades fora do trabalho, o que inclui legislação quanto a contatos digitais fora do ambiente de trabalho.

A criação de novos vínculos entre estado e pessoas para reduzir a sensação de abandono abrandaria esse problema. Por isso o reforço da democracia e do senso comunitário impactaria as pessoas que se sentem abandonados pela comunidade e pelo estado. Essa mudança também passa pelo nível individual. Dar maior ênfase às relações próximas, desconectar dos dispositivos digitais, reestabelecer o contato com família e amigos.

Com toda essa ótica, temos aqui um livro que propõe uma análise muito pertinente acerca da humanidade atual. O problema levantado pela autora assola a humanidade e tem causado danos pessoais e coletivos. Por isso a discussão proposta precisa ser levado a sério e convertida em mudanças práticas.

Guilherme Carvalhal
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Um comentário sobre “As Muitas Origens da Solidão

  1. as causas da solidão atual eu não seria capaz de dizer quais seriam. A autora do livro coloca o desamparo por conta de políticas públicas como uma possibilidade, mas não estou convencido de que se pode afirmar com segurança a relação de causa e efeito entre estas coisas. Enfim, é algo bem interessante. Valeu pela contribuição!

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