Ao ‘Mestre Ignorante’, com Carinho: em memória de Teixeira Coelho

Depoimento de um discípulo e amigo sobre Teixeira, pesquisador que tratou de arte, cultura e outros temas, tendo praticado a abertura crítica e tendo representado “a mão que conduz (e não a mão que dirige)”

imagem: Maria Leonor de Calasans

No dia 4 de junho desse ano, faleceu meu querido mestre, amigo e professor José Teixeira Coelho Netto. Eu o conheci pessoalmente no dia 3 de agosto de 2005. Naquela ocasião, estava cursando a segunda graduação na Universidade de São Paulo, já tinha lido alguns livros de sua pena (O sonho de Havana, 1985; Usos da cultura, 1986; Dicionário brasileiro de bolso, 1991; Niemeyer, 1994) e tive a felicidade de conviver seis meses com o mestre Teixeira, na condição de aluno na disciplina de Ação Cultural do departamento de Biblioteconomia da Escola de Comunicação e Artes (CBD/ECA). Passada uma década, e merecidamente, em 23 de setembro de 2015, ele veio a receber o título de professor emérito pela ECA, por sua significativa obra e trajetória intelectual.

Seis anos mais tarde, e bem mais recentemente, em plena pandemia, voltaríamos a nos encontrar por causa de uma vaga de pesquisador que abrira no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Em meados de março de 2021, o Grupo de Estudos em Culturas e Humanidades Computacionais buscava dois pesquisadores de pós-doutorado para integrarem suas atividades dentro do tema eCultura, eArte: significado e impacto, sob a supervisão de seu coordenador, Teixeira Coelho. Voltamos, então, a partilhar saberes, entabular conversas e a pensar juntos e coletivamente sobre questões pertinentes ao universo da cultura e arte digitais em tempos de algoritmização da vida cotidiana, ou seja, refletir sobre a realidade contemporânea das culturas computacionais e digitais e da produção cultural (mediada ou autoproduzida), a fim de compreender o novo cenário em que a máquina já substituiu o trabalho dos humanos e caminha para substituir, por meio da inteligência artificial (IA), o trabalho intelectual.

Por coincidência ou não, dois meses antes de restabelecer os nossos laços na e pela academia, eu acabara de ler O mestre ignorante, de Jacques Rancière e havia participado ativamente do Colóquio Internacional Jacques Rancière (online, entre os dias 1 e 5 de março de 2021). Começava aí o reencontro com o “mestre ignorante”; e com ele renasciam as inúmeras indagações e dúvidas, quase nunca se falava de “certezas” (aliás, certeza era um termo que tinha como denominador comum no grupo de estudos o fato de ser abominável; entre nós, cultivaríamos a dúvida).

Em sua partilha sensível do saber, Teixeira passeava com liberdade pelas veredas das estéticas de diferentes culturas e nos convidava a penetrar, por meio do senso crítico, na imensa floresta dos símbolos duvidosos. Costumava perturbar e desafiar a pensar sobre as fronteiras entre arte e cultura, entre poesia e pintura. Afinal quem imita quem, o pintor ao poeta, ou o poeta ao pintor? Quais as fronteiras de cada uma? Tal discussão se levantava sobretudo no que se refere a obras de arte que provêm de narrativas (prosa ou verso) antigas (grega ou romana). Para incentivar nosso apreço pela pesquisa, lembro que, em uma de suas aulas, sugeriu que lêssemos Laocoonte ou sobre as fronteiras da pintura e da poesia, obra publicada em 1766 pelo crítico alemão Gotthold Ephraim Lessing, a quem o filósofo alemão Friedrich Nietzsche se referiu como o mais honrado dos homens teóricos, e que havia publicado uma importante obra que se tornou um marco referencial em nossas discussões, sendo festejada, inclusive, por Goethe.

A vasta produção de textos do professor Teixeira, artigos e livros já lhe valeria um lugar na posteridade. Mas, afinal, qual é o sentido da posteridade? Se há um sentido, onde se pode encontrar tal sentido, no passado? Sim. Conforme dizia ele mesmo, os valores estéticos só são possíveis em princípio no contexto da história da própria arte. Suas posições críticas servem para revigorar em mais de um aspecto o pensamento fossilizado sobre arte e cultura no Brasil, afinal: “Nenhuma obra de nenhum artista ou poeta tem sentido em si mesma, o que significa dizer que nenhum poeta, escritor ou artista tem sentido em si mesmo”. Ensinou-me que o valor de uma obra somente surge quando comparada a obras de outros autores, artistas ou poetas, e, em particular, a obras de artistas e poetas mortos. E isso se revela aos que se comprometem com mais empenho nesse processo e se recusam a seguir por trilhas comuns: o primeiro público de um grande artista é aquele que já morreu; a maior frustração de todo grande artista do século XX é que os artistas dos séculos anteriores que ele tanto admira jamais poderão ver sua obra e sobre ela dizer algo. Conforme dizia Teixeira, eis a grande solidão do artista e do poeta. Solidão final e irreversível: ele sabe o que aconteceu antes dele ao passo que aquilo que aconteceu antes dele o ignorará para sempre.

Teixeira Coelho era o próprio amálgama do escritor, artista e poeta, daqueles que falam para o presente e para a posteridade na medida, e apenas na medida, em que buscam um lugar na série passada que se prolonga: e foi assim que aprendi com ele que esse é o único sentido da posteridade. Sábio é o mestre que emancipa e aposta na luminosidade do outro! Quem nunca leu as cinco lições sobre a emancipação intelectual de Jacques Rancière, certamente estará se perguntando por que um “mestre ignorante” seria capaz de transformar a vida de alguém, sobretudo hoje (mas a coisa vem de longe) quando ninguém mais respeita o trabalho de educadores e professores neste país, a começar pela desvalorização profissional, salarial e até ontológica do ofício de ensinar.

Em toda constelação sempre tem aquela estrela que brilha mais que as outras, que é mais incandescente, que se destaca das demais estrelas, embora isso não seja sinônimo de vaidade nem de soberba. Sob o meu modesto ponto de vista, a singularidade do professor Teixeira (que o fazia brilhar mais na complexa constelação de egos do ambiente acadêmico) não pode ser definida, sem cometer injustiça ou mesmo apenas resvalar nas bordas de seu caráter como intelectual crítico, agudo e perspicaz, um mestre generoso no incitamento da dúvida, um provocador de incertezas. Em sala de aula, era um mestre do afastamento e da disjunção, que sabia se distanciar (discorrer) e dissertar sobre o passado (embora tivesse “horror da história”!), sobre cultura, arte, teoria da ação cultural, além de ser amante da etimologia, da linguística, da semiótica e da crítica literária. Enfim, um ser que sabia como ampliar a esfera de presença dos outros seres, sobretudo dos alunos (do latim alumni, sem luz) que frequentavam as suas aulas espetaculares.

E, no entanto, a questão maiúscula permanece: como caracterizar esse sujeito modelado no permanente estado de ser, no entre? Como definir o homem cujo espírito habita a ordem da instabilidade, do caos, da complexidade?1. Em meu caso, que tive o privilégio de conviver com o professor Teixeira em dois momentos distintos (e separados por longos 17 anos), ele significou para mim o Virgílio reencarnado que ampliou a esfera de presença de meu ser: a mão que conduz (e não a mão que dirige).

Teixeira, durante o período em que foi diretor do Masp, entre 2006 e 2014

Aqui não posso deixar de citar outro mestre, o sociólogo Maurício Tragtenberg, que me antecipara (fui seu aluno na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1987) a seguinte afirmação categórica: “A separação entre ‘fazer’ e ‘pensar’ constitui-se numa das doenças que caracterizam a delinquência acadêmica”. Tal esquizofrenia existencial não estaria emperrando a análise e discussão dos problemas relevantes da educação em nosso país? Afinal, a emancipação não constitui um ato político, uma forma de ação, inerente à responsabilidade social do intelectual? Curiosamente, a delinquência acadêmica prevalece até os dias atuais. Para se ter uma ideia, entre os eurocêntricos prevalece a visão hierarquizante de que a filosofia (por extensão, a pedagogia) teve sua origem na Grécia, no século VI a. C. Essa “lenda” é difundida no mundo ocidentalizado; e em quase todos os livros sobre filosofia, ela começa com os gregos, como se fossem predecessores de todos os outros povos (os ‘bárbaros’ não falam grego) no que se refere a conceitos de beleza, de arte, de números, de escultura, de medicina, do ser e da organização social. E para provar o contrário, enquanto esteve à frente do Museu de Arte de São Paulo (Masp), entre 2006 e 2014, ocupando o cargo de curador-coordenador, abriu as portas para arte africana, e ofereceu ao público a Coleção de Arte Iorubá Robilotta do Masp, intitulada Do coração da África2.

De acordo com Teixeira, essa forma de pensar é hegemônica nos EUA e nas universidades ocidentais (como disse Rancière, “Guimarães Rosa é pouco lido na França”), assim como em outras que foram ocidentalizadas, incluindo as africanas e asiáticas. Perpetuar no ambiente escolar esta concepção (branca, masculina, adulta, patriarcal, racista) de mundo e de ser humano, unicamente pautada no eurocentrismo, não significa reproduzir a desigualdade e consequentemente reduzir a essa produção teórica a única possibilidade de filosofar?

Eis que partiu um ser que nos faz muita falta: uma presença in absentia. Um ser que realmente era e sempre foi avesso ao lugar comum, o dono da voz dissonante das mesmices oriundas dos feudos de saberes fragmentados, dos discursos delinquentes e disciplinares, o inconteste crítico dos pontos de vista solidificados pela normatividade. “Todo consenso é digno de suspeita”, dizia Teixeira. Um ser que reflete e compartilha generosamente sua percepção estética e sensível no mundo… Um astro que procura fazer outros astros brilharem incessantemente.

Virgílio foi o responsável por conduzir Dante ao Paraíso. Quem leu a Divina Comédia sabe muito bem o quão importante foi a “mão solidária” de Virgílio, sem a qual Dante jamais teria atravessado os nove anéis do Inferno, os nove anéis do purgatório, para enfim encontrar Beatriz no último anel do Paraíso. E conhecer é quase um mistério em que sabor e saber quase se tocam… Ora, bem no meio do caminho, após sinuosas veredas de dúvidas… o imponderável!… A mão que me conduzia se desprendeu de mim. Não pude ver Beatriz. Teixeira foi o Virgílio que me conduziu pelos nove anéis do Inferno, passamos por nove anéis do Purgatório, e estávamos no ponto em que Dante encontraria Beatriz no último anel do Paraíso…

A meu ver, a melhor expressão que define Teixeira vem do Oriente… De uma palavra japonesa, MA, para a qual convergem muitos significados. Escreve-se 間 e, como quase a maioria dos ideogramas, possui leituras plurais – Ma, Aida ou Kan – e engloba semânticas como “entre-espaço”, “espaço intermediário”, “intervalo”, entre outras. Regido por uma lógica relacional, esse vocábulo apresenta-se de maneiras diversificadas, de acordo com as associações que se estabelecem no espaço e no tempo. Trata-se da expressão de algo muito próximo de um senso comum bastante peculiar dos japoneses, ou seja, todos sabem o que é, mas não conseguem explicar com exatidão. Pois bem, estudar o Ma exige, justamente, conhecer o tal espaço do terceiro excluído, do contraditório e simultâneo, habitado pelo que é “simultaneamente um e outro” ou “nem um, nem outro”:

Tao gera o Um;
O Um gera o Dois;
O Dois gera o Três;
O Três gera as dez-mil-coisas.

As dez-mil-coisas tem atrás de si escuridão;
A sua frente elas abraçam a luz;
E o vazio lhes dá a harmonia.

(capítulo 42 do Tao Te Ching)

Sou muito grato pelo tempo em que estivemos juntos, ele, como supervisor de meu pós-doc no IEA, foi quem buscou ampliar de forma democrática e plural a esfera da sua luz incessante, estendendo-a todos nós alunos (alumni, sem luz)… A dádiva de sua presença sensível – seja na sala de aula, no corredor do IEA, nas aulas abertas no saguão da FAU, nas reuniões online, onde fosse, o que estava em jogo era “o homem como projeto… o homem como sonho”, com o firme propósito de partilhar experiência e criar condições para a ampliação da esfera de presença significativa das demais pessoas que orbitavam o seu Ser.

Quando leu meu projeto de pesquisa em 2021, entendeu imediatamente a questão antropotécnica relacionada aos fenômenos da cultura e arte digitais. Fez anotações escritas, teceu comentário, deu várias sugestões e, por fim, como é de seu feitio, estendeu a mão, mas me deixou livre para “voar”! Quando já fazia parte do Grupo Cultura e Humanidades Computacionais do IEA, deixou claro que o diálogo entre ciências duras e ciências moles deveria ser mais estreito. Cabia-nos estudar nas fronteiras, com o olho do espírito. Ele mesmo já havia dito em diversas palestras no IEA e em entrevistas que o homem estava mudando, que a noção de sujeito estava em xeque, que era urgente refletir sobre a realidade contemporânea das culturas computacionais e digitais, examinar criticamente a produção cultural (mediada ou autoproduzida). Ora, por quê? Quando se é contemporâneo no sentido que atribuiu a essa palavra o filósofo Giorgio Agamben3. 

o artista enxerga com o olho do espírito, a fim de compreender o novo cenário do qual ele também faz parte, tanto quanto nós. Teixeira dizia abertamente que a máquina já havia substituído o trabalho dos humanos e caminhava para substituir, por meio da Inteligência Artificial, o trabalho intelectual, com velocidade exponencial. Fazia-nos transitar pela dúvida e o questionamento permanentes no universo da arte e cultura4.

Em O destino da imagem, Jacques Rancière finaliza dizendo que “a lógica do irrepresentável só se sustenta numa hipérbole que afinal a destrói”. Ora, como pensar a relação entre palavras e imagens depois de Lessing e de seu tratado Laocoonte, que deve ser visto como o auge (e também o esgotamento) da estética da representação? Teixeira também questionava sobre a questão do irrepresentável, sobretudo depois da “experiência científica” da indústria da morte, que culminou com o holocausto. Paul Celan também já havia dito loucamente que era o fim da poesia. Outro exemplo significado é o tratamento estético conferido ao filme Noite e neblina (Night and Fog), documentário de curta-metragem francês de 1955, dirigido por Alain Resnais, e que foi produzido dez anos após a libertação de sobreviventes dos campos de concentração nazistas.

O desafio que me coube aqui, o de representar e homenagear o “mestre da emancipação e ampliação da esfera do ser”, Teixeira Coelho, talvez não seja digno de sua envergadura intelectual, mas espero ter contemplado em meu discurso as vozes embargadas de amigos e colaboradores do Grupo de Estudos Cultura e Humanidades Computacionais do IEA (Marcos Cuzziol, Manoel Robilotta, Rejane Cantoni, Marcos Buckeridge, Lúcia Maciel Barbosa de Oliveira, Martin Grossmann, Teresa Cristina Toledo de Paula, Maria Helena Pires Martins, Maria Bonomi, Bruna Coelho, Lorena Martins, Maria Christina Almeida, Samuel Leon), com os quais também tive o prazer de desfrutar desta fonte inesgotável de saber e experiência… A eles, faço lembrar uma das tantas mensagens, cartoons de El Roto e outros bônus enviados pelo professor Teixeira via e-mail a todos nós do grupo, numa clara referência a Jean-Paul Sartre: “O Homem é seu projeto, o Homem é seu desejo — sem isso, é o Nada…”.

Autor

  • Mestre e doutor em Ciência da Informação e bacharel em Linguística e em Biblioteconomia pela Universidade de São Paulo (USP), é pesquisador, bibliotecário, violeiro, cinéfilo e estudioso das culturas de tradição oral de matriz africana e indígena. Desenvolve um pós-doutorado sobre os impactos da inteligência artificial nas artes e nas culturas digitais. É colaborador do Grupo de Estudos Ontologias Abertas da USP e do grupo de pesquisa Estudos Transdisciplinares da Herança Africana”, da Universidade Paulista (UNIP). Realiza trabalho voluntário na Escola Pluricultural Odé Kayodê e no acervo da Biblioteca Obá Biyi, além de participar do Coletivo Egbé Odé Kayodê, espaços culturais de matriz afro indígena, sediados no território simbólico de Vila Esperança (GO).

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