A Colheita da Ficção, ou: O Pantanal Agora Só Existe na Novela

Dos cemitérios de biomas feitos de soja e milho ao encontro direto com o Pantanal

imagem: Antonio

Em um passado recente, cerca de oito anos atrás, uma parcela do meu trabalho era coletar Euschistus Heros (percevejo marrom) e Dichelops Melachantus (percevejo de barriga verde), as populares marias fedidas, em lavouras de soja e milho, pois esses insetos são considerados pragas dessas culturas. Eu coletava/capturava os percevejos com pequenas armadilhas feitas com garrafa PET, a fim de realizar pesquisas relacionadas à aquisição de resistência desses insetos aos agroquímicos utilizados para seu controle nas lavouras de soja e milho de grandes e pequenos produtores rurais. O agronegócio não permite que a vida prolifere e diferentes métodos de controle químico, baseados em genocídio de espécies julgadas errôneas na existência do negócio, são o único objetivo para o alcance do lucro do agro.

Lembro que o responsável por supervisionar o meu trabalho me pedia, além dos resultados dos testes com os percevejos, fotos e desenhos das áreas de soja e milho para provar que ele viu o que eu vi sem ele estar lá. Parece loucura, mas quando se trabalha com pesquisa para empresas voltadas ao agronegócio tudo tem que ser registrado, ora, a empresa tem os direitos até do que você come e respira. Engraçado que ela não paga pelos seus pensamentos mais, digamos, humanos. Perguntei a ele se dez fotos de cada área de plantio estaria bom e ele me disse que precisava de um verdadeiro ensaio fotográfico de cada local. Eu lhe disse que seria difícil pois soja e milho não trocam de roupa e muito menos desfilam e, no mais, quem entende de moda era algodão e não havia algodão no meu itinerário. Infantil rebeldia. Ouvi que se eu não quisesse tirar fotos ele encontraria quem tirasse. Recado dado e para demonstrar que queria continuar no emprego meu cartão de crédito permitiu comprar uma máquina fotográfica com GPS para, além das fotos, enviar as coordenadas das áreas visitadas. Pensava que meu supervisor poderia dizer para seus diversos superiores que ele até esteve onde eu estive. Tonto, quem queria estar por onde passei? Ao menos tinha uma câmera nova e boa vontade.

Chegara o momento de pegar a estrada. Câmera fotográfica a tiracolo junto das armadilhas para coletar percevejos e a vontade de encontrar bonitezas pelo caminho. Aquele trabalho me deu a oportunidade de conhecer diferentes regiões do Brasil. No começo ficava entusiasmado por viajar para tantos lugares diferentes. A caçada aos percevejos me levara das campinas e cerrados interioranos de São Paulo a Mata Atlântica remanescente nos limites do estado paulista; passei pelas serras mineiras, pela mata de araucárias paranaense, pelo cerrado baiano, pela caatinga pernambucana.

Você deve estar pensando em todas as coisas lindas que vi. Rios, plantas e animais formando paisagens maravilhosas. Infelizmente isso é ilusão criada por você para você mesmo. A verdade é que só vi soja e milho. Também vi gigantescas máquinas agrícolas remexendo a terra, abrindo sulcos e covas para o negócio de grãos. O mesmo cemitério de biomas em todo lugar que passei; biomas sepultados em imensos cruzeiros, tal qual os esquecidos que sub-vivem nas covas das ruas e viadutos. Fiz um silencioso velório para meu entusiasmo. Foram cinco estados do país, mais de 200 cidades e nada, nada diferente de soja e milho. Onde estava a diversidade que eu via nos livros, na TV, na web e nas pesquisas de outras pessoas? Onde estava a vida a ser estudada e fotografada? Nessas viagens a trabalho aprendi que as commodities são mais valiosas para o agronegócio do que a comida. Grãos como soja e milho rendem mais ao empresário que o arroz e feijão rendem ao agricultor. Estudo era de mercado e as fotografias eram do produto.

Pois bem, ainda faltava um estado para completar meu trabalho: Mato Grosso do Sul. E digo com esses olhos que a terra há de queimar que tudo mudou por causa de uma foto. A cidade era Corumbá. Estava coletando percevejo de barriga verde na área (lavoura) de um empresário do agronegócio quando escuto um barulho diferente. Era um bicho grande. Nem olhei direito, peguei a câmera e tirei a foto rapidamente com medo de perder o bicho. Olhei a foto recém-captada e em seu centro havia uma ema. Uma ema no meio do milharal encarando o horizonte. Olho para os lados e vejo várias emas. O responsável pela plantação dono da terra me acompanhava e me disse que as emas eram comuns na região, que elas vinham comer os insetos que andavam no milharal. Também me disse que ele estaria disposto a pagar mais caro por algum veneno que, após pulverizado, além de matar as pragas, “espantasse” essas aves indesejadas.

O empresário e dono de terras fez um longo e chato monólogo de como o agronegócio salva o país e outras sandices. Aqui, hoje, coloco-me a refletir sobre o discurso daquele sujeito e como aquelas palavras se espalharam como doença fúngica, impregnada na saliva da ignorância. Antes de entrar na caminhonete e ir embora ele me disse:

— Moleque, tome cuidado com as onças, elas vêm atrás das emas.

— Obrigado pelo aviso. Mas onças não saem apenas a noite?

— Menino, aqui é o Pantanal, as regras são diferentes – fechou a porta da caminhonete e sumiu na poeira da estrada e na fumaça do escapamento.

Quem se importa com mordida de onça? Eu estava no Pantanal. Era minha chance de ver vida de verdade. Minha chance de ver o mundo como ele é e não como ele foi moldado ao bel-prazer de poucos. Fiquei animado, entretanto, havia um problema. Eu precisava terminar aquela coleta e esse tipo de trabalho demora, não haveria tempo de conhecer o Pantanal no mesmo dia. Penso no dia seguinte, penso na colheita de soja que precisaria acompanhar, penso no Pantanal.

À noite ligo para o responsável pela colheita do dia seguinte e digo se teria algum problema se eu chegasse atrasado, pois teria um compromisso importantíssimo, daqueles que, de tão importantes e raros, como o alinhamento de todos os planetas, só aconteciam uma vez na vida (cruzei os dedos para que a desculpa desse certo). Ele não reclamou e disse que eu nem precisava ir pois todas as colheitas de soja na região são iguais e que ele estava enjoado das minhas piadas sem graça. Digo que meu trabalho exige minha presença na área, mas não a todo instante. Rimos da minha cara de pau e ele fala para eu não beber muito na noite de Corumbá. Beber? Queria mais é tomar picada de mosquito e correr de jacaré enquanto acenava para um tamanduá. Queria voar com as araras e nadar com as piabas. Conversar com as onças e bolar planos infalíveis com os lobos-guarás.

No dia seguinte, com a câmera pronta e a disposição de desbravar o mato junto das minhas companheiras formigas, era só passar a perna nas horas que, naquele dia, só serviam para me avisar quando deveria sair dali para meus deveres laboriosos. Confesso que não vi onças, serpentes, tamanduás ou lobos-guarás. Juro que vi as mais belas aves desse mundo. Plantas de verde potente e água pulsante de vida. Vida em estado puro de matéria e em essência. Consegui tirar fotos de vitória-régia e camalote-da-meia-noite. Também tirei fotos de baía, cordilheiras, cambarazal, campos, capão, carandazal e paratudal. Os mosquitos me guiaram por toda a visita pelo seu habitat e só me cobraram alguns litros de sangue. Quase acabado o espaço no cartão de memória da câmera as horas me avisam para ir trabalhar.

Toda essa aventura me tomou muito tempo e quando cheguei ao meu destino primário a colheita de soja já havia sido feita. A última colhedeira estava prestes a carregar o último caminhão de transporte da carga. Tomado pela adrenalina do ensaio fotográfico proibido decidi ousar e, para comprovar que estive mais uma vez acompanhando um procedimento igual ao anterior, eu tiraria uma foto diferente. Pulei na carroceria do caminhão para fotografar o momento de descarga da soja colhida. A colhedeira aportou próxima ao caminhão e a chuva de grãos lavou a máquina fotográfica das minhas mãos… e o Pantanal que eu havia registrado desaparecera no fundo daquele oceano de commodities

Em um passado um pouco mais recente, 2021, li que as queimadas no Pantanal atingiram recordes históricos. Em um passado ainda mais recente, alguns dias atrás, vi na TV um capítulo da nova versão da novela Pantanal. Hoje, não consigo deixar de pensar que todo aquele bioma irá se juntar, um dia, à minha câmera fotográfica no fundo do oceano de soja criado pelo todo poderoso agro e seu séquito. Hoje, não consigo acreditar que o cenário da novela é de verdade, que aquele lugar existe… Também não consigo parar de pensar em quem nega ou tem dúvidas desse crime ecológico e de lesa-pátria, crime que ainda arde nas fotos das cinzas das plantas e dos animais mortos pelas labaredas e pelas máquinas de plantio. Sinto que os incrédulos adquiriram resistência à realidade e à humanidade e preferem assistir à ficção televisa. Creio que o resultado daquele trabalho, a memória daquela aventura, somados às notícias da destruição e ao comercial da novela carregam quatro coisinhas que desejo compartilhar com os descrentes: percevejo fede, oceano de soja não tem peixes, o fogo queima e o Pantanal agora só existe na novela.

Antonio Carlos Nascimento Neto
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