Atualidades

Editorial – Setembro-Outubro/2021

Chega ao nível do afeto a nossa relação com os conteúdos que consumimos? Sites, podcasts, canais de vídeo são como gente que a gente conhece, amigos até? Ponho essas questões inspirado por um dos textos desta edição, que fala das amizades que formamos com robôs e outras criaturas tecnológicas. Lá são citados dispositivos interativos como a Alexa ou a Siri, mas estou pensando se não podemos levar essa ideia mais adiante. Os youtubers a que sempre assistimos, os colunistas de jornal que frequentamos são parte forte do cotidiano.

Eu já estranhei quando um site me disse “deus te abençoe”, mas talvez isso não seja nem incomum. As pessoas respondem às vezes ao “boa noite” de William Bonner e retrucam à rede social: “No que estou pensando, Facebook? Em nada”. A seção de “cartas” de um podcast como o Foro de Teresina demonstra como um programa se enraíza na rotina do público – para um exemplo mais sombrio, ouça Rabbit Hole, um documentário do New York Times sobre a ascensão da direita, em que um dos entrevistados (que gradativamente se radicalizou) depõe sobre sua identificação com autores do Youtube: refletia-se neles, ouvia aquilo que gostaria de ouvir, sentia-se em casa.

O tecno-animismo proposto no artigo citado deve incluir nossas fontes de conteúdo, então? Deixo essa questão para vocês. E ainda outra: que de melhor uma publicação pode construir na relação com seu público? O que Úrsula é para vocês, o que ela poderia ser?

Nesta edição, o que mais somos, me parece, é atuais: em Política, falamos do panorama político no Afeganistão, a partir de uma entrevista com o diretor de Em Nome do Meu Povo, documentário que será lançado no Brasil no fim de setembro; esboçamos uma genealogia do bolsonarismo nos programas de Luiz Carlos Alborghetti; discutimos, no centenário do educador, o quanto a tentativa de anular o legado de Paulo Freire denota um fechar os olhos ao Brasil; e conhecemos a avaliação da esquerda brasileira do ponto de vista do grupo Transição Socialista. Em Cultura, ainda outro texto político e contemporâneo, sobre a visibilidade de escritoras lésbicas.

A forma da atualidade implica um tipo de relação: tudo se passa como se tivéssemos obrigação de ler ou algo a ganhar. Como se aproximar então de textos mais extemporâneos como este ensaio poético sobre o mar ou este artigo sobre a ideia de uma filosofia única e eterna? A forma da curiosidade talvez nos seja exigida, essa “força motriz do pesquisador”, segundo o antropólogo entrevistado na série Da Pesquisa Brasileira nesta edição. Os conteúdos acabam pedindo que sejam pessoas diferentes. Necessidade então de um multi-tecno-animismo?

A essa altura você já sabe que eu acabei de inventar isso e não vou responder essa pergunta também não.

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Duanne Ribeiro
editor-chefe

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