Atualidades

Editorial – Dezembro-Fevereiro/2021

As editorias das revistas e jornais soam como divisões estanques, mais do que isso, sendo classificações, determinam nosso olhar: estabelecem modos de ver os assuntos, condicionam as relações que fazemos entre os temas, sugerem ferramentas para analisar problemáticas. O filósofo francês Gilles Deleuze descreveria esse poder da etiqueta, do rótulo com o conceito de palavra de ordem. O jornal diz: cultura, e percebemos as problemáticas nos limites dessa palavra “cultura”. A revista põe em cima do texto: política, e temos todo um arsenal de disposições prontos para lidar com o que vem sob a palavra “política”.

(Falei um pouco mais disso neste artigo sobre a cobertura de políticas culturais na Ilustrada, da Folha.) É preciso talvez uma capacidade de — usando uma metáfora também deleuzana — gaguejar para escapar desse poder das chancelas. Essa seria, segundo o filósofo, a habilidade dos escritores: errar (talvez em ambos os sentidos, de falha e de aventura) na própria língua. Podemos errar na linha ordenada das classificações? Nesta e noutras Úrsula, há como diluir as separações das matérias.

O comunismo e os 30 anos do fim da União Soviética, por exemplo, vem nesse trimestre em duas seções: Política apresenta uma retrospectiva histórica e Cultura lista dez filmes em torno desses objetos. Falar do desdobramento final da Revolução de 1917 e das suas ramificações pelo mundo é assunto da política ou da cultura? Se alteramos o instrumental de análise – ou os utensílios da política ou os utensílios da cultura – modificam-se nossas percepções e conclusões? E se somamos ambas (e outras)?

Já em Filosofia & Ciência, lemos sobre o combate de um pesquisador contra os novíssimos métodos de desinformação, as deep-fakes. Mas isso é, claro, tremendamente político. Esse também é o caso da entrevista com a filósofa Luciana Zaterka: sua filosofia da ciência se liga com problemas cruciais da atualidade e nos faz perceber que a química é ciência e história e ética. Captar os ramos e as profundidades de um conhecimento pode exigir desconfiar das categorias que o abrigam.

E talvez até forçar o olhar a perguntas inesperadas e “desnecessárias”. Quando nos perguntamos se existem filósofos aqui na nossa terra, estamos na sombra das categorias “universidade”, “ciência”, “filosofia” — mas e se pensássemos isso como um nó social? Ou seja, e se a existência de filósofos for um problema político? Deixo para vocês experimentar esse pensamento, com uma dica: essa tensão, me parece, é justamente a que constituiu a filosofia africana no século XX.

Deixo também para vocês gaguejarem pelos outros conteúdos, do sonho de escrever a um ilustre esquecido filósofo do século XVII, da figura do Mal ao ensino e ao fazer da literatura.

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Duanne Ribeiro
editor-chefe

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