Nas redes sociais, indignação moral e satisfação pessoal passam por ação social

imagem: Cosmoflash

Um artista de que gosto muito usou blackface. Imaginem a delícia de ver a obra com aquele embrulho no estômago, sendo preto.

Mesmo assim, nunca discuti a minha rejeição desse trabalho. Alguns podem achar essa uma escolha estranha. Mas nenhum fim prático a favor de um movimento social viria dessa controvérsia. Qualquer debate levantado por isso ficaria no mundo abstrato que a esquerda adora. Um protesto eficiente sempre presume uma ação específica e material que resulta em algo específico e material. Progressismo perdeu eficiência por usar de ações abstratas para resultados abstratos e que por vezes não conseguem nada além de barulho e cansaço.

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Em tempos de guerra cultural e política (que é o que vivemos), estratégias são necessárias, e isso implica em conhecer seu terreno e seus aliados. Posso citar os muitos pensamentos daquele artista, sobre os mais diversos assuntos, que são úteis ao trabalho de base dos mesmos que promoveriam o seu ‘cancelamento’, ou, pelo menos, permitiriam que o burburinho ofuscasse o resto de sua obra.

Digo mais uma vez: o bom protesto social tem um objetivo de ação concreta para resultado concreto positivo. Ação concreta: fazer barulho sobre esse blackface. Resultado concreto: meus aliados vão ‘cancelar’ um artista cujas várias mensagens no restante da carreira são essenciais para trabalho de base desses mesmos aliados. O ‘cancelamento’ vai fazer quem gosta desse artista e que poderia vir para o nosso lado achar que somos todos chatos demais; não vai se converter e irá nos demonizar. Eu ganhei nada, todos perdemos. Meus sentimentos levaram a melhor, deixei o prazer emocional de condenar inibir minha ação social.

Nossa catarse é menos importante que uma estratégia de ação

Essa discussão me recordou uma afirmação de Bertold Brecht (1898-1956). Minha admiração pelo dramaturgo sempre foi complicada por não acreditar que sua visão seja aplicável em uma sociedade pós-moderna sem trabalho de base e que taxaria o seu pensamento experimental, de um teatro reflexivo e sem envolvimento emocional imediato, como pretensioso. Seria uma obra condenada a pregar aos convertidos. Mas as redes sociais me fizeram entender esse algo que ele disse: a catarse emocional impede atos de mudança.

Nas redes sociais, indignação moral e satisfação pessoal passam por ação social. Eu percebi com Brecht que meus sentimentos sobre aquele artista eram irrelevantes quando comparados ao meu dever social de divulgar a obra e pensamento que ela traz, pelo bem da formação intelectual alheia, além de evitar um conflito interno que só favoreceria os inimigos. Percebi que apontar erros ou métodos questionáveis de aliados era menos importante, na guerra, que levar os mantimentos necessários à sobrevivência.

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“Ah, mas não é prático discutir blackface?”. Blackface me ofende menos do que um desmonte político que ameaça a todos. Não se trata nem de pragmatismo ou de valorizar a racionalidade mais que as emoções: é medir que meu ultraje com essa escolha do artista era menor que meu medo do perigo. Essas discussões abstratas são relevantes socialmente, mas não agora, em pânico.

Reconhecer o que está em jogo, levar adiante o que vale a pena

O que se pode fazer, então? Posso criticar um aliado por um deslize ou esperar até o fim do perigo para confrontá-lo definitivamente. Há controvérsia? Antes de tudo, antes de alimentar a polêmica vazia, divulgar militâncias e movimentos que trabalham o problema evidenciado pela discussão. Se calhar, dar aquele toque gentil no ombro de quem falou besteira e usar o momento da pessoa nos holofotes para divulgar outras mais corretas. Permitir que mensagens importantes cheguem a quem precisa.

Só crime hediondo justifica bloqueio. Abrace o problemático quando ele dá espaço para divulgar a verdade sobre o assunto. Abrace todos os aliados apesar das desavenças e os guie a se retratar sobre erros — quem merece mais divulgação, a pessoa escrota ou a pessoa atacada? Espalhe notícias sobre causas em vez de divulgar materiais que as prejudicam. Divulgue artistas marginalizados, divulgue acontecimentos que desestabilizam a força autoritária e ajudam as minorias. Ação concreta simples para resultado concreto positivo.

É gostoso vocalizar indignação com coisa escrota. É gostoso participar do teatro das redes e ser herói. Eu não estou sendo sarcástico. É realmente uma tentação que é difícil combater. Mas dá. E isso abre possibilidades de vitória.

 

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