Deixemos de lado os pseudodilemas. Vamos acordar. Até o gigante (!) acordou

imagem: Thriller, Michal Jackson

Frente ao artigo “Como a Esquerda Morreu“, do filósofo Vladimir Safatle, a esquerda brasileira, pelo que vejo, está toda agitada para frisar que não, não: estamos só agonizando.

Toda agitada dizendo coisas do tipo: como a esquerda pode ter morrido, Safatle, se eu sou de esquerda (veja todas as minhas estrelinhas que atestam minhas Boas Opiniões em Temas de Esquerda!); se conheço outras pessoas que se dizem de esquerda e se quando a gente está junto fazemos piadas sobre o governo Bolsonaro; se temos nomes a que podemos atribuir o rótulo esquerda como Boulos ou até mesmo o Ciro, que estão certamente fazendo alguma coisa, mobilizando, sabe? Temos fé que eles têm algo em mente pra gente.

Como a esquerda pode ter morrido, Safatle, se agora o Lula está solto e ele vai nos guiar ou, ainda melhor, resolver as coisas sozinho como fez antes, certeza que ele está em casa agora com mais três mil livros lidos e um plano feito.

Eu de minha parte disse uma vez e digo outra: temos que perceber que fomos derrotados. De verdade: não fingindo que mesmo derrotados vencemos, porque somos “mais inteligentes” ou porque “a história não vai perdoar essas pessoas” (meu deus do céu, quem liga se a história vai fazer isso daqui a duzentos anos?). Temos de abandonar nossas várias vitórias em batalhas imaginárias. Safatle é bem claro sobre as batalhas reais que perdemos.

Compare você, simplesmente, como ele faz, os protestos contra a reforma da previdência na França e a ausência de protestos por aqui. Se a esquerda não morreu, ela estava onde? Não se trata, em política, de acumular umas opiniões: trata-se de empreendê-las na arena pública. Um agente político (a “esquerda brasileira”) que consiste em ter os sentimentos corretos frente ao noticiário não é agente político nenhum.

Se você não morreu, por que é como se tivesse morrido? Eu sei, você tem a resposta na ponta da língua. As pessoas são muito burras. Não conhecem História. São manipuladas pelas igrejas e pelos meios de comunicação. Todos esses autoelogios disfarçados têm verdades neles (por isso funcionam): é claro que há um regime de desinformação que opera na base do governos como Bolsonaro e Trump. Porém, você se esconde por trás disso, também. Não vê a sua fraqueza, a sua falta de recursos, a ausência de uma rede que você possa ativar.

Essa fraqueza, essa falta de recursos, essa ausência de rede – isso também se mostra, de modo negativo, no que fala Safatle. Um ponto central da sua crítica é que o modo de agir da esquerda, seu modo de formação de base e a sua estrutura de mobilização, se baseavam em um “populismo de esquerda” que, no Brasil, se constituiu como um meio para a um tempo absorver demandas populares e conciliar interesses de frações dominantes que por ocasião estiveram à margem. Isso, desde Goulart até Lula. Esse modelo se esgotou. Há aqui uma tarefa clara para quem queira que a esquerda não morra, tarefa de pensamento e de prática: elaborar um novo modo de agir.

É desesperador que diante dessa chamada a uma tarefa de renovação continuemos só na diversão das interpretações (diversão usada em dois sentidos: no de entretenimento, pois passamos o tempo, extraímos prazer e nos confirmamos nessa prática; e no de disfarce, diversionismo, de se autoenganar, de mudar o tema, de ser desviado ou desviar do central). A batalha imaginária que nos colocamos aqui é a da interpretação adequada sobre o estado de saúde da esquerda. A batalha real é a de que a esquerda tenha posições de ação e horizonte de criação. A batalha imaginária é: o que dizer para me livrar dessa problemática? A batalha real é: o que eu preciso e posso criar?

Em um poema de Arnaldo Antunes pode estar a solução desse pseudodilema da esquerda brasileira. Concordo, diz uma voz, discordo, diz outra, concordo, discordo, concordo, discordo, concordo, discordo – acordo! fecha o poeta. Vamos acordar, gente. Até o gigante (!) acordou.

 

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