Minha avó tem de aceitar algo incompreensível: que tome os remédios, vários, várias vezes, sem que isso garanta nada

imagem: Rodrigo Denúbila

“Por que eles não dão uma coisa pra curar?”, perguntou a minha avó outro dia. Referia-se aos remédios, em número cada vez maior, que tem de tomar. Sulfato de sabutamol, aesculus hippocastanum, diosmina, hesperidina, cilostazol, cloridrato de fluoxetina — por que não curam?

A resposta é contraintuitiva, embora estejamos — nós, os de outra faixa etária, nós, os de outras classes sociais — acostumados com ela: não curam porque não podem. O que fazem é preservar, fortalecer, prevenir. Realizam uma manutenção. Não há, para usar a metáfora de Susan Sontag, a troca de cidadania, do reino da doença para o reino da saúde outra vez. Fica-se sempre à beira.

O broto de goiaba combate a diarreia, o chá de boldo ajuda com problemas de digestão, o café com manteiga é expectorante, o mentruz com leite afasta tosse e resfriado — mas o cloridrato de metoclopramida, o cloridrato de pseudoefedrina, a losartana potássica não cumprem essa correlação simples. Nos momentos de crise, é possível ver os seus resultados; de resto, agem sem estrépito.

Minha avó tem de aceitar, assim, algo incompreensível aos seus padrões: que tome os remédios, vários, várias vezes ao dia, sem que isso garanta nada, ou garanta bem menos do que ela se acostumou a esperar dessas práticas. Podendo até lhe causar efeitos colaterais.

Na verdade, a situação é ainda mais complicada porque é toda uma outra postura do sujeito o que exige a medicina da prevenção. Com o chá de cravo, o soro caseiro, trata-se de reagir: há problema, toma-se uma atitude, voltamos a nos sentir bem. Com o dicloridrato de betaistina, “sentir-se bem” deve perder muito da sua validade: como se isso fosse nada, é preciso continuar engolindo os comprimidos.

Não diminuamos a diferença entre essas duas subjetivações. De um lado, a pessoa tem a si mesmo como uma bússola, divisa o certo e o errado, interfere, atinge resoluções. Do outro, perde a posse do próprio corpo — aquela percepção tão certeira, “estou bem ≠ estou mal”, é subjugada pelos discursos do médico e da família. Sofrem-se interferências, atingem-se critérios de bom funcionamento opacos, transcendentes. A saúde é definida e realizada meio que apesar do indivíduo.

E tudo isso por uma certeza miserável: não curam porque você não pode ser curada. A cura não compõe o horizonte de possibilidades com que trabalhamos. Você é cidadã do reino do paliativo. Como insistir nisso com entusiasmo?

Eu não consigo. Posso cumprir o dever, repetir a cantilena, colocar os comprimidos cortados no meio nos potinhos de dia da semana que minha mãe comprou, mas eu sinto que há algo valioso nessa autonomia que transparece quando minha avó diz, com uma rebeldia plácida, que “não está tomando tanto remédio esses dias”. Essa resistência que nem é resistência, é só se decidir sobre si sozinho.

 

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