A escrita da ganhadora do prêmio São Paulo de Literatura de 2018 exige, nem mais nem menos, que olhemos com atenção e pensemos: e agora?

  1. Como começar um comentário sobre Ana Paula Maia, escritora de tom e tramas tão díspares na literatura brasileira recente? É um desafio imenso, ao menos para mim, escritor de letras pueris — uma vez que essa moça redige seus livros com um equilíbrio entre detalhes explícitos na narrativa e sugestões por parte do narrador. Ana Paula tem um senso muito apurado para redigir parágrafos (oximoramente) de enorme minimalismo e enorme simbologia; cada palavra parece estar ali apenas após ter sofrido um minucioso trabalho de desconstrução semântica e simbólica para, depois, gerar toda uma reconstrução própria daquele universo.

Minha definição talvez não faça sentido, mesmo para aqueles com mais experiência em leitura de crítica literária. É porque o trabalho de escrita de Ana Paula é minucioso, é cuidadoso, é pensado sem pressa, pensado não em termos de enredo, e sim em termos de palavra. Mesmo que ela diga que não é, o trabalho dela é assim, com certeza, porque essa é a impressão que fica em seus livros. Daí a verborragia do que redigi no primeiro parágrafo: o trabalho de Ana Paula é feito para ser lido, primeiro, com a emoção.

Ana Paula é uma escritora negra brasileira, e nasceu em um bairro humilde em Nova Iguaçu. Segundo o que diz no programa Sempre Um Papo, ela cresceu vendo os matadores da cidade tomando umas e outras no bar do seu pai. Ou seja, conhece várias esferas dos preconceitos brasileiros. Ela efetivamente produz uma literatura de crítica social, uma literatura com tipos marginalizados, e com marcado realismo psicológico e cinematográfico. Mais que isso, a escritora, nascida quase na década de 1980, disse que, na sua infância, matava-se por qualquer coisa, uma bem material roubado, uma ofensa verbal disferida, uma contenda no jogo de cartas…

Outro detalhe importante, ressaltado pela escritora, é sua juventude cinéfila e sua formação em leituras de filosofia. Notamos o espectro cinematográfico de seus romances pela forma como seus narradores fixam o foco de suas narrativas. A filosofia, por sua vez, é pressentida pela forma como ela lida com questões complexas, como a morte e a repetição do cotidiano de suas personagens; adotando um foco pretensamente isento, mas de palavras enormemente significantes, Ana Paula cria um romance filosófico com personagens marginalizadas e enganosamente limitadas, entretanto, profundamente questionadoras nos seus mundos interiores.

E, afinal, quando vou começar a falar desse tal “homem medíocre” chamado Edgar Wilson? Bem, vamos começar agora. Primeiro, pensando na palavra medíocre, que vem da ideia de algo abaixo da média, abaixo do aceitável, abaixo de algo razoável, o rés-do-chão na escala humana de valores sejam eles quais o forem. Esse é Edgar Wilson, a personagem que perpassa toda a obra de Ana Paula desde de A Guerra dos Bastardos, de 2007, como um coadjuvante, e desde Entre Rinhas de Porcos e Cachorros Abatidos, de 2009, como protagonista.

Há quem vá falar que sua literatura traz características da literatura pulp, aquela com enredos cheios de violência, erotismo e miséria moral etc. Não peçam que eu insista nesse ponto, não sei o que significa falar isso, nem se é relevante.

Coloco ela e seu Edgar Wilson no patamar do William Faulkner, do Robert Musil, e do Franz Kafka. Alguém mais atento pode aproximar Edgar Wilson das personagens de Cormac McCarthy, igualmente. Edgar Wilson é um homem medíocre por ser um resultado de um mundo e uma sociedade que vão gradativamente excluindo os cidadãos das classes C-D-E, até que a eles só reste trabalhos degradantes e desgastantes.

Que fique claro, minha crítica aqui é ao modo como esses trabalhos, necessários ao funcionamento de nossa sociedade, se operam: visando resultados sem uma preocupação com a forma de obtê-los.

Volto a mediocridade de Edgar Wilson. O que o faz medíocre não é apenas os trabalhos que ocupa ao longo dos livros já citados e também Carvão Animal, De Gados e Homens e Enterre seus Mortos. Sua mediocridade advém da forma como ele se relaciona com outros seres humanos e da forma como ele constrói seus valores éticos e morais – de forma mais ou menos simples e direta. Exemplos dos livros (não digo quais, porque há quem fique chorando: “Não dê spoilers!”).

O Brasil bruto e periférico, vítima de indiferença governamental, limitação material extrema, perspectivas de futuro quase nulas. Um Brasil de favelas, de saneamento básico insuficiente e compaixão humana quase inexistente

Sua noiva se interessa apenas que ele lhe compre uma geladeira: ele se sente enganado e mata ela. Seu trabalho é recolher animais mortos, e um pai de família precisa levar o filho ao hospital: ele pega um cachorro na rua e mata ele. Uma lógica pragmática e direta, que passa necessariamente pela ética neoliberal mais extrema, viver e fazer o que precisa ser feito, sem incomodar a ninguém.

Seria bastante interessante, já, se os livros da Ana Paula fossem apenas essa biografia de um homem medíocre que mata porcos e pessoas que o enganam com a mesma facilidade. Um naturalismo zolaense um tanto extremado. O grande negócio dos livros da Ana Paula, porém, mais do que descrever a vida e os trabalhos de Homens (homem, o gênero masculino tradicional – falo logo), é apontar turbilhões de pensamentos e questionamentos por parte desses homens, na hora de eles lidarem com seus deveres e suas emoções.

Qual a importância de sabermos isso, para pensarmos Edgar Wilson? Gosto de pensar que a personagem se sustenta per si, mas que, quando a gente vê a vida de Ana Paula, ele ganha ainda mais possibilidades. Ele não é apenas um tipo, que representa seres a margem da sociedade, seres que sofrem os pré-conceitos dos Poderes que o julgam mero criminoso psicopático. Edgar Wilson é uma metonímia dos brasileiros largados a própria sorte, obrigados a aceitar trabalhos que ninguém mais quer, entretanto, metonímia, não de uma forma romantizada e idealizada, como era nas vanguardas de 1930.

Explico. Sua cronologia dentro dos livros é, essencialmente essa:

  1. Carvão animal
  2. Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos
  3. De gados e homens
  4. Enterre seus mortos

No primeiro livro, seu comportamento e sua forma de enxergar o mundo ainda é muito mais pragmática e simplista. Ele trabalha com minerador e sabe que seu trabalho é arriscado e insalubre, sabe que suas condições de trabalho são degradantes, e mesmo assim ele trabalha. Trabalha porque sabe, ainda, que precisa trabalhar e trabalha nessa área, talvez, por saber que sua formação intelectual e financeira não permite que ele sequer almeje outra coisa.

E a verdade é que Ana Paula não coloca essa questão e isso é relevante no sentido de nos mostrar: Edgar Wilson está numa condição tão miserável e marginal da sociedade que ele simplesmente aceita que é aquilo, sem questionar.

Nos livros seguintes, Ana Paula começa a desenvolver a personalidade de Edgar, e ele começa a ter questionamentos, começa a ter dúvidas de ordem metafisica, ainda que essas sejam bem mais simplistas que as dúvidas de uma personagem de romances políticos dos anos 1970. E, na verdade, essa simplicidade de suas duvidas é o que parece ser o ponto crucial na personagem: uma personagem extremamente miserável, que gradativamente transcende sua limitação social e física e começa a pensar sobre dignidade e respeito.

Ana Paula, escritora negra, produz uma fantástica obra de crítica social, tecendo suas posições em relação ao elitismo, ao racismo, à misoginia, a partir de um enredo bastante simples e direto, a partir de uma ambientação sucinta e sutil. É um trabalho literário simplesmente brilhante, esse que ela faz! Colocar homens como lixeiros, abatedores, cremadores e presidiários carentes (de Assim na Terra como Embaixo da Terra) como homens que questionam as razões do viver e os pilares de valores do mundo que os cerca é uma proposta literária extremamente pretensiosa. E Ana Paula o faz com meticulosidade linguística.

Enterre seus Mortos, Ana Paula Maia

Seu uso das palavras equilibra termos chulos, ofensivos e grotescos (principalmente nas cenas envolvendo os porcos de Edgar Wilson e os cadáveres carbonizados do bombeiro Ernesto Wesley) a narrativas existenciais, de ecos da análise sociológica. De forma mais localizável, eu sugeriria que o cerne de seu estilo está na participação de Edgar Wilson (Entre Rinhas…) no campeonato de abatedores de porcos, quando a descrição do torneio oscila entre o linguajar sensacionalista de jornais populares e o tom dramático das campanhas napoleônicas de Tolstói em Guerra e Paz. O começo de Carvão Animal e sua ponderação sobre a importância dos dentes numa exumação de cadáver é, igualmente, um momento significativo: sua narrativa disserta sobre a transitoriedade da vida, a partir de uma descrição de ossadas humanas queimadas. O dilema moral de Edgar Wilson em Enterre seus mortos, sobre levar uma criança enferma ao hospital, porém, no meio de seu expediente (recolher cadáveres de animais encontrados em autoestradas) é uma terceira cena que exemplifica o que eu aqui tento demonstrar.

Como motivo central, aliás, animais e seres humanos são as imagens que perpassam quase todas as obras: animais que brigam entre si, homens com características animalescas, a reincidência de termos como carvão, ossos, fogo e dejetos, o subterfúgio em coisas simples, e um pouco degradantes, como as rinhas e a prostituição. De forma que, nos livros de Ana Paula, um homem medíocre, como Edgar Wilson é o carvão, é o porco, é o lixo, é o morto: um produto que a sociedade precisa, consome até que não reste mais nada, e que depois despeja, esperando que um terceiro se desfaça das sobras, preferencialmente, longe da esfera física dos cinco sentidos.

Falo a todo o momento de homens e, como disse antes, são eles os maiores protagonistas de seus livros. O que será que significa uma escritora negra, de origem periférica, escrever sete romances e, em grande parte deles, as mulheres estarem, quase sempre em papel menor? Um ativista mais extremado pode falar em misoginia. Eu digo que o problema não é dessa ordem. Qual o espaço que sobra às mulheres nesse contexto tão miserável e mundano? A ausência de personagens femininas protagonistas possivelmente é a resposta de Ana Paula: num mundo de miséria moral e social tão grande, num cenário de negação intelectual tão acentuada, as mulheres sofrem ainda mais, porque nem mesmo protagonistas elas conseguem ser.

São vítimas de seus cônjuges, vítimas de poderes paralelos, vítimas de homens imprudentes. Excluídas do protagonismo daquelas vidas que, em si, já são uma exclusão, são auxiliares – porque o Poder político maior que rege aquelas vidas tão degradadas não permite nem mesmo que essas galguem qualquer outro destino. Essa construção da personagem por sua lacuna é outra posição de Ana Paula que penso ser brilhante, para a definição de uma estética de crítica social.

Assim, chego ao epílogo de minha fala sobre Ana Paula Maia e sua personagem Edgar Wilson. Ganhadora em 2018 do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Livro do Ano (Enterre Seus Mortos), ela é uma das mais brilhantes autoras de nossa atualidade. Ler seus livros é entrar em contato com essa esfera da sociedade da humanidade que nós excluímos pelas mais diversas razões, e Edgar Wilson é o símbolo (um dos) dessa esfera. É acessarmos o Brasil bruto e periférico, vítima de indiferença governamental, limitação material extrema, e perspectivas de futuro quase nulas. Um Brasil de favelas de ruas escuras de terra, de saneamento básico insuficiente e compaixão humana quase inexistente. Uma baita crítica social, que critica sem se propor explicitamente a isso.

Não digo que os livros de Ana Paula nos farão virarmos a última página para logo em seguida, perdermos todos os nossos preconceitos. Eles nos fazem ver uma outra face do Brasil, uma face separada por uma barreira econômica e cultural quase impossível de transpor, justamente, por ela estar galgada numa negligência de raízes tão profundas e antigas. Esse é o grande mérito da autora: mostrar a dignidade e a humanidade de indivíduos que tanto sofrem por nossos preconceitos e omissões quanto a eles – e fazer isso com exímia perícia textual.

Diferente desse artigo, que se pretende introdutório a uma escrita tão ampla de questões e posições, a poética de Ana Paula Maia é um panorama minimalista. Nem usa palavras que diminuem as personagens, nem palavras que romantizem suas vidas; não se atém a futilidades, justamente porque futilidades não cabem nessas vidas tão imediatas e incertas. Não é demagógica porque é arquejada em cima de toda a ruína que é o subdesenvolvimento brasileiro. É uma escrita que exige, nem mais nem menos, que olhemos com atenção e pensemos: e agora?

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