O manual de falácias é a arma retórica dos grupinhos “racionais” que são incapazes de racionalizar o que não é digerido pelos seus parâmetros

imagem: Philosopher’s Fight | ilustração de Fedotov.ilia

Você já esteve nesta situação: postando alguma coisa qualquer na Internet, em qualquer rede social, sobre qualquer assunto, dez anos atrás ou ontem mesmo, aparece aquele carinha que virá te destruir com fatos e lógica. Embora a fórmula “logic and facts” seja mais sonora na internet de língua inglesa, desde o Orkut essa figura infeliz é mais do que prevista: o cara que “manja de lógica”, e quer apontar, com tipologias muito específicas, a qual falácia você sucumbiu desta vez.

Leia também:

– podcast Sobre os Ombros de Gigantes: Górgias, de Platão
– “A Gamificação da Retórica“, por John Scalzi

Não é por acaso que “aquele carinha” é um homem jovem, na maioria dos casos. Já tem tempo que vemos como os grupos conservadores tendem a aderir mais frequentemente a esse tipo de comportamento. E eles se valem do manual para desqualificar exatamente os argumentos de grupos marginalizados de qualquer tipo, seja em gênero, religião, cor, ou sexualidade. Apenas com lógicas e fatos, eles vão esmagar os seus sonhos de uma sociedade mais justa, suas preocupações por reconhecimento do seu grupo social, ou qualquer outra luta que você considere importante. Apenas com argumentos lógicos e científicos, eles vão esmagar suas tentativas patéticas de defender as políticas em favor das pessoas trans ou das religiões afrobrasileiras. Você já entendeu de que tipo de gente estou falando. Se não, pode ver uma melhor caracterização delas aqui.

É verdade que ler um manual de lógica parece te dar armas ou armaduras para ir à luta no vasto campo internético. Mas me parece muito interessante que não é um manual de lógica completo que as pessoas tentam usar na internet, é só um pedaço dele: o manual de falácias.

Uma lista e refutação de falácias não é coisa nova em lógica. Já o pai da lógica, Aristóteles, termina seu Organon com as “Refutações sofísticas”. Isso significa que a parte final da lógica já é, tradicionalmente, um guia de como não usar a lógica, uma demarcação clara de onde a lógica termina. E termina, que —  surpresa! — aí é onde começam os sofistas. É curioso apontar: desde o começo, a lógica termina por apontar quem está dentro e quem está fora, quem tem ou não legitimidade para falar. Pelo exemplo negativo, ela opera por exclusão de quem não segue o modelo.

O próprio Aristóteles, entretanto, nunca achou que tudo terminava com a lógica. Como sabemos, sua vasta obra inclui, notoriamente, uma Retórica. A relação entre essas duas disciplinas terá uma longa história pra contar, mas cabe para nós aqui reter que a tradicional formação da mais tardia escola medieval segue uma ordem canônica na educação da juventude: Gramática, Dialética (ou “Lógica”), Retórica. Se a Dialética porta sobre raciocínios, a Retórica é mais ampla e se abre à completude da vida civil, por exemplo nas questões legais e políticas, exatamente o tipo de questões de que tratavam, legitimamente ou não, os sofistas. A história da herança de Aristóteles é em parte a história das valorizações correlativas e variações das interpretações de sua dialética e de sua retórica. Pouco importa que, para nosso patrono grego, as duas coisas se complementavam; nada impede seus leitores posteriores de pegar partes à vontade, dependendo das circunstâncias.

O problema é que, se tomadas como formas puras, essas partes fazem pouco ou nenhum sentido. Mesmo a voga dos manuais de falácias nas lógicas inglesas do XIX era destinada às boas maneiras das discussões nos parlamentos, isto é, por membros já eleitos e muito bem estabelecidos da sociedade inglesa. Pensar que isso pode ser estendido tal e qual para as discussões entre duas pessoas aleatórias em qualquer parte da internet beira a loucura, e reveste esse manual, agora inútil, de um verniz enganoso de bom-senso. Essa letra morta se torna então uma pseudológica, não mais adequada à regulação das discussões como se dão; ela vira uma casquinha artificial de bons modos à mesa, uma pura estilística. O ornatus, que na tradição retórica significa a boa adequação das palavras (em latim com sentido de arma ou vestimenta, no sentido de que tal ideia se vestiu/expressou assim), se torna agora mero ornamento, frufru, superficialidade.

Para se proteger dos sofistas, isto é, das pessoas de má-fé que usam o discurso para enganar, é preciso ter armas e armaduras que protejam a discussão pública de desestabilizações. Mas vale sublinhar que essa divisão entre o falso e o verdadeiro não é definitivamente eficaz: um enganador continua podendo, por hipótese, lançar mão de uma falácia que não seja detectada por ninguém e convença todos os ouvintes; ou seja, o argumento falacioso ainda tem eficácia persuasiva. A divisão é então um dispositivo de conduta, ou seja, de ética. A distinção entre o orador honesto e o sofista é ética; mas quando se supõe que a ética correspondente necessariamente à forma do argumento utilizado, a pergunta se engessou a tal ponto que não pode mais realmente dar conta de todas os diferentes tipos e situações de discussões reais, nem, por acaso, da ética. Mas para a educação da boa conduta numa discussão, não são suficientes os exemplos do que não fazer da dialética, é preciso ainda ter exemplos de bons usos de argumentação, fornecidos por sua vez pela retórica.

Mas qual a diferença entre um discurso dialético e um retórico? Para o próprio Aristóteles, é a diferença entre fazer uma demonstração perfeita, com todos pressupostos, e a necessidade prática de falar sem encadear tudo perfeitamente. A dialética é um exercício muito importante para a educação do raciocínio, mas as situações concretas das discussões políticas não permitem seu uso real: a maior parte das coisas implícitas pode muito bem continuar implícita sem impedir a continuação da discussão, e o procedimento apenas por silogismos válidos é, se não impossível, difícil, maçante e pouco eficaz.

A universalidade pretendida pela análise formal do argumento, quando passa a ser por seus partidários inquestionável, se torna por isso mesmo expediente de exclusão. Os excluídos seriam, imagina-se, os sofistas, mas a verdade é que se excluem com isso todos os que usam de argumentos que não se encaixam na estreiteza da escolaridade desses manuais.

Dou alguns exemplos imaginários de circunstâncias que obrigam a, legitimamente, lançar mão do que seriam consideradas, pelos manuais comuns, falácias:

  1. falar mal de uma pessoa ou dos antecedentes de sua vida não é considerado pertinente a uma discussão; é a famosa ad hominem. Essa regra exclui completamente a possibilidade de que a vida e os atos da pessoa sejam importantes na discussão. Por trás de um véu de pluralismo e democracia, ocorre a neutralização de todos os participantes, bons ou maus. Se isso já não poderia dar certo nem numa discussão de internet, o que dizer de uma discussão política hipotética em que o defensor da causa é diretamente responsável pelos lucros advindos da decisão? É realmente irracional apontar a conexão entre uma pessoa que defende uma empresa criminosa e os lucros dessa empresa? O fato de a pessoa ganhar pessoalmente com os ganhos da empresa não conta na hora de pesar seus argumentos?
  2. Tomar alguma ocorrência passada como regra esperada para o futuro, sem confirmação da conexão entre uma coisa e outra, é considerado, em geral uma generalização apressada. Mas, se uma política pública muito ruim, de resultados terríveis, está para ser copiada pelo nosso governo, configura generalização apressada buscar impedir que a política seja instaurada? E quando se faz isso por precaução, isto é, sem comprovação definitiva da relação entre a política pública e o péssimo resultado, a decisão agora ficou irracional?
  3. Se uma decisão pública incide diretamente sobre uma população de certo tipo e ela diz, com todas as letras, que não está satisfeita com a situação, por exemplo, de destituição de suas terras. Se o grupo tenta argumentar que não podem destituir suas terras porque é ruim ficar sem suas terras, isso configura um círculo vicioso? O interesse dos indivíduos não pode ser princípio de si mesmo?
  4. Se um projeto de lei aparece sob autoria de um notório péssimo deputado, que toda a sua vida lutou contra os interesses de determinado grupo social, é irracional que esse grupo se oponha ao projeto antes de terminar de verificar sua pertinência? Isso seria, por acaso, algum tipo de falácia genética?

etc…

Quando as formalidades dos manuais de falácias passam para o ambiente político (retórico), portanto, elas deixam de ser funcionais. Frequentemente elas funcionam como fantasmas de regras que só atravancam o discurso e não deixam que as verdadeiras questões se coloquem. Isso porque, na ânsia de legislar o logos, elas voluntariamente deixam de lado o ethos (o caráter de quem fala) e o pathos (as vontades e sentimentos das pessoas interessadas), o que significa, justamente, a exclusão de qualquer questão política. O político, por envolver a vida das pessoas, está necessariamente misturado com o caráter dos disputantes e com o interesse dos ouvintes nessas disputas. O problema é que, se não se trata mais de puro logos em condições normais de temperatura e pressão, a eficácia dos manuais de falácia desaba.

Uma última diferença fornecida pela tradição da teoria retórica que esclarece este problema é que o manual como guia cristalizado de regras coloca todas as questões de saída no chamado gênero judiciário, que é aquele da aplicação das regras aos casos: você usou um espantalho, então está fora! Um juiz não cria regras (ou não devia…), ele apenas aplica as que existem. Quando a questão passa a ser quais devem ser as regras, estamos no gênero deliberativo. Ora, o carola do manual de falácias é incapaz de discutir a pertinência das suas categorias, se limitando exclusivamente a aplicá-las o mais cegamente possível. E o gênero deliberativo é, justamente, o político por excelência, aquele sobre o que devemos fazer. Em outras palavras, quando só se dispõe de manuais, só se pode jogar um jogo específico, sem nunca discuti-lo (ou, aliás, decidir não participar dele, ou ir jogar outra coisa).

O manual de falácias se torna, assim, inconfessada arma retórica dos grupinhos auto-intitulados “racionais”, e que não se tornam magicamente racionais por se intitularem assim. Exatamente por se suporem já racionais, se mostram incapazes de racionalizar o que não se mostra a eles como imediatamente digerido pelos seus parâmetros. A certeza dada pela suposta posse definitiva da Lógica transforma todos eles em chorões que clamam por um juiz imparcial que intervenha dos céus (a própria encarnação do Manual ex machina?) para disciplinar os participantes que não se curvaram a suas regras afinal arbitrárias. E como é curioso, diga-se de passagem, que tantas vezes estes mesmos se proclamem defensores da liberdade! Mas a própria existência de pessoas que não se dobram a essas regras mostra a ineficácia prática dessa lógica, e sobretudo que ela não é, de forma alguma, “universal”.

Exatamente quando eles se supunham soberanos da Lógica, suas doutrinas não passaram de um guia excludente e rastaquera de estilística disfarçado de manual de boas maneiras. Infelizmente, também é desculpa para excluir e agredir quem não pode ou não quer se adequar a seus hologramas.

Epílogo: quanto aos verdadeiros lógicos acadêmicos 1Van Eemeren, F. H., & Grootendorst, R. (1987). Fallacies in pragma-dialectical perspective. Argumentation, 1(3), 283–301. ...continue, estes estão já há algumas décadas alertas quanto ao fato de que as regras formais não são suficientes, e propõem por exemplo abordagens “dialético-pragmáticas” para o problema. Interessante é descobrir que a tripartição linguística contemporânea, sintaxe-semântica-pragmática, seja herdeira direta daquela medieval, gramática-dialética-retórica, como mostra um outro acadêmico2RASTIER, F.: “La triade sémiotique, le trivium et la sémantique linguistique”, Nouveaux Actes sémiotiques, no. 9, p.54, 1990.; o que significa que também os lógicos profissionais perceberam a necessidade de incluir parâmetros retóricos em suas considerações para tratar das falácias, e estão tentando fazê-lo, apontando que uma discussão é sempre questão de interpretação (!), o que exige uma análise condicional dos argumentos, isto é, não-universal.

Referências   [ + ]

1. Van Eemeren, F. H., & Grootendorst, R. (1987). Fallacies in pragma-dialectical perspective. Argumentation, 1(3), 283–301. https://doi.org/10.1007/BF00136779
2. RASTIER, F.: “La triade sémiotique, le trivium et la sémantique linguistique”, Nouveaux Actes sémiotiques, no. 9, p.54, 1990.
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