O cientista Richard D. Martin aponta equívocos nos estudos sobre reprodução, além de falar dos impactos de preconceitos sobre a nossa vida reprodutiva

imagem: Zeev Barkan

Richard D. Martin, curador de antropologia biológica do Field Museum, em Chicago, nos Estados Unidos, demonstra, no artigo “The Macho Sperm Myth“, os equívocos de perspectivas muito populares sobre a reprodução humana, em especial a ideia de que a concepção é uma corrida entre espermatozóides, na qual o mais apto alcança o óvulo. Tal entendimento, diz o pesquisador, não só é falseado por dados empíricos como acaba por impactar como vivemos em sociedade e vemos nossa vida reprodutiva.

Por exemplo, nos mamíferos, é mais comum que os espermatozóides não nadem só por si próprios até o óvulo; são, pelo contrário, movimentados por contrações do útero e de outros canais do aparelho genital feminino. Outra afirmação possível, a de que o melhor espermatozóide vence, de que opera nesse âmbito uma certa seleção natural, é negada por pesquisas e, aliás, improvável pelo fechamento dessas células ao exterior. E elas não seguem frenéticas ao óvulo: podem permanecer até dez dias (dizem investigações recentes) no interior do sistema reprodutor da mulher.

A noção de “competição dos espermatozóides” (sperm competition), de viés evolucionista, diria ademais que a quantidade de células reprodutivas no esperma atende à necessidade de competição com outros machos. Embora isso pareça ser o caso no que se refere a diversos animais, os chimpanzés sendo um deles, há evidências contrários quanto aos homens. Os humanos se aparentam mais a grupos de primatas caracterizados pela ausência de concorrência dos machos nesse sentido e por testículos menores. Ademais, comparado ao dos chimpanzés, o esperma humano tem muito mais células anormais, o que indica não ter sofrido uma seleção forçada pela disputa.

Política e Reprodução

A exposição de Martin apresenta também uma genealogia das perspectivas sobre a reprodução humana, no decorrer da qual se torna evidente como posições políticas, hierarquias sociais, questões de poder, estiveram sempre envolvidas nas proposições científicas. Isso se dá em vários casos.

O modelo da preformação, nascido em meados do XVII, após as primeiras observações do óvulo, funcionava para confirmar a legitimidade de uma sociedade aristocrática, baseada em dinastias, na medida em que supunha toda a geração determinada desde o início. Pense naquelas bonecas russas, guardadas uma dentro da outra: na reprodução, a cada vez só retiraríamos um humano, inscrito desde os seus ancestrais, dentro de outro humano.

No fim do mesmo século, agora tendo sido possível visualizar o esperma em detalhe, foi criada a teoria dos homúnculos, segundo a qual nas cabeças dos espermatozóides estava um pequenino homem, inteiro. O óvulo aparecia aí como um elemento passivo no processo. Essa visão de passividade, Martin argumenta, permanece no mito da corrida dos espermatozóides. Trata-se do viés da prioridade masculina, que se inscreve nessas figurações.

Uma outra referência para compreender essa relação política e reprodução é O Segundo Sexo, da filósofa francesa Simone de Beauvoir. Em “Os Dados da Biologia”, segundo capítulo do livro, Beauvoir analisa os conceitos de macho e fêmea, retirando as bases de preconceitos bem estabelecidos. Entre os temas de que ela trata estão também as células reprodutivas, também referindo sua análise ao longo percurso do pensamento sobre o assunto:

Com o advento do patriarcado, o macho reivindica acremente sua posteridade; ainda se é forçado a concordar em atribuir um papel à mulher na procriação, mas admite-se que ela não faz senão carregar e alimentar a semente viva: o pai é o único criador. Aristóteles imagina que o feto é produzido pelo encontro do esperma com o mênstruo; nessa simbiose a mulher fornece apenas uma matéria passiva, sendo o princípio masculino, força, atividade, movimento, vida. E essa também a doutrina de Hipócrates que reconhece duas espécies de semens: um fraco ou feminino e outro forte, masculino. A teoria aristotélica perpetuou-se através de toda a Idade Média e até a época moderna. (p.29-30)

Martin não se refere a Beauvoir, que publica em 1949 este livro denunciando prejuízos do mesmo tipo que ele visa. O pesquisador, aliás, cita como um marco de mudança nesse sentido o ano de 1991. Por isso, pode ser muito interessante aproximar os resultados dele e dela. Assim como discutir o descompasso entre a biologia e a filosofia: por que o debate na segunda não chegou à primeira?

Nossa Vida Reprodutiva

Acima, falamos sobre o espermatozóide permanecer por dez dias no aparelho genital feminino. Esse período supera o entendido pela opinião mais comum, de poucos dias. Um impacto dessa informação é que uma rotina sexual baseada nas “janelas de fertilidade” está comprometida; e assim a nossa vida reprodutiva está se fincando em más razões.

Martin aponta outro mito com efeito semelhante:

Outro perigoso conceito mal formulado é o mito de que os homens retêm fertilidade completa até a terceira idade, o que contrastaria fortemente com a abrupta cessação da fertilidade das mulheres na menopausa. Evidências abundantes mostram que, nos homens, o número e a qualidade dos espermatozóides declinam com a idade. Mais ainda, foi provado recentemente que as mutações se acumulam com uma velocidade quatro vezes maiores nos espermatozóides do que nos óvulos, indicando o risco implicado no sêmem de homens velhos. 

Com isso, tanto homens como mulheres, que passaram a ter os filhos em idades mais avançadas, podem ter a mesma preocupação no que tange a preservar células reprodutivas mais saudáveis para serem utilizadas no futuro. E, quanto a isso, o procedimento para extração do material masculino é bem menos custoso e invasivo do que o do feminino.

Acesse o texto completo do artigo [inglês].

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