“Então, é assim que morre a liberdade. Com um estrondoso aplauso”. Mas usar essa frase nesse contexto é justificável?

imagem: cena de Star Wars – A Vingança dos Sith

Tivemos esses tempos a concretização de uma reviravolta política no nosso cenário nacional. Bolsonaro foi eleito com a maioria dos votos válidos, trazendo consigo um discurso de conservadorismo e autoritarismo, que não é exagero categorizar como tendo inclinações fascistas (por mais que essa palavra seja frequentemente mal usada).

Uma imagem que foi compartilhada por muitas pessoas por conta da situação foi a da clássica frase de Star Wars, em que ao ver o golpe de Palpatine proclamando o Império Galáctico, a senadora Padmé diz: “Então, é assim que morre a liberdade. Com um estrondoso aplauso”.  Mas usar essa frase nesse contexto é justificável? Essa pergunta me fez querer escrever esse texto e esclarecer melhor o que está em questão no discurso político que Star Wars carrega.

Para muitos a trilogia prelúdio são os piores filmes de Star Wars. De fato, foram cometidas muitas más escolhas pelo criador da saga, George Lucas, que não era um pai tão bondoso com sua obra, ao menos aos olhos dos fãs (sem falar nas edições que ele fez nos filmes antigos, como o famigerado caso do Han Solo atirando depois). Nesses filmes ele deveria contar a história de origem do mais icônico vilão dos cinemas: Darth Vader. Assistimos à sua história desde a infância, quando era chamado de Anakin Skywalker. Porém uma péssima opção de ator, um romance fraco e forçado, personagens secundários pouco competentes (na tentativa de mostrar como Anakin era um gênio, Obi-Wan acaba sendo retratado como um total amador perto dele, mesmo sendo um metre jedi), e nem vamos falar nada sobre Jar Jar Binks. Porém, algo que poucos percebem em meio a tantos erros é a genialidade de sua trama política. O pano de fundo da trilogia, com o desenvolvimento de Palpatine (o futuro imperador) através dos três filmes, aos poucos conquistando mais poder, e apesar de inicialmente um aliado, se mostrando o vilão que seria a grande sombra a ser derrotada no futuro por Luke.

O importante desse enredo é que ele não coloca de forma simplista um vilão que represente todo o mal e mesmo assim ganhe poder. Palpatine usa a estratégia política mais antiga e comum. Ele aponta um inimigo a ser combatido e mobiliza poder em torno do combate a esse adversário. No primeiro filme, surge a ameaça da Federação Comercial, que gera uma resistência política, desejosa de não pagar os impostos que são exigidos pela república. O mais interessante é notar que Palpatine ao mesmo tempo em que lidera e incentiva a federação, sob o manto de Darth Sidious, do outro lado ele mesmo se apresenta enquanto senador como o herói que vai combatê-la. Cria um inimigo para ele mesmo combater. Cria um embate entre dois extremos, com o objetivo de conseguir o domínio. Não coincidência, no final do primeiro filme, ele consegue com sua luta o cargo de chanceler, líder do senado, após acusar o antigo ocupante do cargo de corrupção e de estar sujeito à federação. A trama da trilogia prelúdio não é sobre heróis combatendo um inimigo político: trata de polarização.

É tentador associar Palpatine a quem temos como inimigos políticos. Um líder populista, que implanta uma ditadura em nome do combate a opositores. Muitos associaram isso a Bolsonaro ganhando o poder em nome do conflito com o petismo e a esquerda. Mas a coisa não é tão simples, e muito provavelmente o outro lado do espectro político vê igualmente a esquerda como o seu Palpatine. Basta lembrar, por exemplo, que ele ganha o poder prometendo combater uma Federação Comercial, ou seja, um discurso de combate a capitalismo e empresários. Antes de pensarmos em tentar associar o líder à esquerda ou a direita (coisa que o filme não dá muitos elementos diretos para avaliar), é mais importante tentar entender a profundidade da mensagem, e notar que o que se está criticando é justamente essa polarização que tenta taxar o outro lado como inimigos.

E quanto à frase da Padmé? A liberdade morreu com aplausos no Brasil? A resposta é não. Não podemos ignorar que no contexto do filme o chanceler estava dando um golpe, reorganizando a república em um império. A liberdade morrendo se refere a direitos civis institucionalizados. Independente do que fizer no futuro (ou do que determinada narrativa supõe que tenha sido feito nos últimos anos), Bolsonaro ganhou as eleições democraticamente, com mais da metade dos votos válidos. Isso significa o contrário de um golpe, significa uma liderança democrática (por pior que ela seja), e significa, ao menos nos termos da democracia representativa, a liberdade que a Padmé viu morrer e que aqui está viva. Cabe a nós não declarar ainda a morte do que nós não queremos ver morto, e protegê-la, mantê-la viva. Mesmo quem tenha críticas a esse sistema de democracia representativa, deve defendê-lo ao menos pragmaticamente, entendendo que o que pode vir no lugar é muito pior.

Mas ainda que a associação com o filme não seja direta, tem muita coisa que podemos aprender com ele. A polarização que o Palpatine criou está ocorrendo no Brasil, sim, e se não soubermos lidar com ela, o pior também pode ocorrer com a nossa república. Fortalecer um inimigo que se quer derrotar ocorre também por esses lados do universo. E não só com a extrema direita inventando uma ameaça comunista fantasiosa, mas também em atitudes como as do PT, que quis levar até as últimas consequências o jogo de ganhar força pela oposição ao Bolsonaro, e acabou entregando o Brasil quando outros candidatos (segundo as pesquisas) conseguiriam ganhar dele. Jogou sujo para conseguir ir com ele para o segundo turno, não o atacou no primeiro turno, quis o cenário de polarização para tentar ganhar poder apontando um inimigo pior. É a exata estratégia de Palpatine. O imperador do “lado negro da força” não é um lado ou outro no Brasil, mas a estratégia, a recusa à união, ao diálogo.

Padmé sempre desconfia dos movimentos do Palpatine, não compra o extremismo, tenta o caminho do diálogo, se opõe às inclinações de Anakin de querer tratar todos como inimigos. E nós? Será que é o momento de continuar tratando todos como vilões? Será que mais da metade da população brasileira são inimigos (ou cerca de 39%, se pensarmos em termos de votos totais)? Será que não está na hora de tentar dialogar com essa gente e mostrar que as mentiras que contaram sobre o outro lado não representam a realidade? O que Bolsonaro e seus seguidores mais radicais esperam é justamente um alvo que possam apontar. O maior ataque que pode ser feito contra ele é mostrar que esse grande adversário não existe, que quem está do outro lado é gente da mesma forma, que consegue conversar de igual pra igual, que discorda respeitosamente.

Na sequência final do terceiro filme da trilogia, A Vingança dos Sith, em que Anakin, já convertido para o lado negro, luta com seu antigo mestre, ele diz para o Obi-Wan: “Se você não está comigo, então você é meu inimigo”, ao que o jedi responde: “Apenas um sith é tão radical assim”. Que tal levar essa como a lição que podemos aprender? Entender que seu discurso de democracia e de liberdade está aliado a um discurso de diálogo com o diferente. Porque, acreditem, você pode tentar vencer pela força e se opor ferozmente a pequenos grupos, mas não é possível fazer isso com porcentagens tão expressivas da população, que são capazes de ganhar a maioria numa eleição. Ainda é possível salvar a liberdade seguindo pelo caminho que os jedi ensinaram.

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