“Pela primeira vez em muito tempo”, de Vinícius Bopprê: um livro no qual o banal mostra-se como a quintessência de toda uma vida

São palavras da moda, porém, são o que melhor define um livro que me deixou perplexo: “poéticas do cotidiano”. Pensei em chamar esse artigo, aliás, com esse nome, mas preferi “instantes microscópicos”, por pensar que essa forma mais original também define, mais ou menos, o livro Pela primeira vez em muito tempo, de Vinícius Bopprê (Patuá, 2018). Não que seu livro seja de fácil definição, mas querendo explicar para vocês o livro, de uma forma mais rápida, acho que o título que escolhi serve bem.

“Instantes”, começo eu, porque o livro que nós temos em mãos é feito disso. De sete cenas com seus instantes divididos ao longo de todo o livro. “Instantes”, porque é uma descrição de um presente contínuo ao mesmo tempo em que é uma narração à James Joyce, de segundo em segundo, perpassando cada um por mais um tanto de cenas retomadas pelas personagens ou pelo narrador que (repetindo um chavão crítico eficiente) sabe, às vezes, mais sobre elas que elas próprias.

Eu, não sendo um conhecedor profundo de cinema, arrisco mesmo assim dizer que a narrativa de Vinicius traz algo da estética polifônica dos últimos filmes do Alain Resnais e de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, que efetivamente marcou uma parte da nossa geração (Vinícius nasceu em 1993). Polifônica, porque cada um dos instantes que compõem as cenas do romance (e que vão se alternando entre si), é um conjunto de idealizações e concretudes, frustrações e conquistas, medos e opiniões das personagens.

A narrativa é bastante visual, apesar de ter um apelo discursivo forte, sutilmente posicionando o leitor em uma posição de alteridade e compaixão com as personagens. O que quero dizer com essa papagaiada semiótica é que o narrador de Vinícius constrói um cenário e falas das personagens tão bem-acabados que, sem percebermos, nós estamos interessados em saber os desenlaces, estamos querendo opinar ou conhecer mais daquele microcosmo, ou ainda (esse termo, adequado numa das cenas), começamos a “torcer” pelas personagens. Suas intimidades nos são divididas sem pudor, com afeto e espaço para nossa própria personalidade e crítica.

(Não por acaso, o escritor é também roteirista, e realizador de uma série de vídeos sobre as histórias de seus vizinhos do Tucuruvi, chamada Rua Comprida.)

“Microscópicos”, talvez tenha sido explicado acima. Mesmo assim, vou dizer porque escolhi essa palavra: porque os problemas que Vinicius traz são mínimos do ponto de vista do romance como epopeia da classe média. Ele pega uma parte mínima de todas as possibilidades que existem quando decidimos narrar uma vida e destrincha essa parte, ao longo das cenas. Ação microscópica mesmo.

E as cenas, quais são elas? Vejamos (porque as cenas demandam também a posição do leitor, então, talvez eu tenha confundido algo sobre elas):

  1. Um homem na casa dos cinquenta, que vai jantar com sua esposa, mas está fragilizado por um acontecimento;
  2. Uma mulher que vai visitar a mãe, com quem teve sérios problemas de relacionamento;
  3. Um jovem que vai cometer um assalto, mas comente uma série de erros;
  4. Uma irmã que precisa contar algo a seu irmão, de quem é muito próxima, mas tem receio de sua reação;
  5. Um jovem e sua primeira vagem de intercâmbio;
  6. Um jovem que brigou com alguém e está repensando sua vida;
  7. Um pai e seu filho, que está a jogar videogame.

Não há nenhum spoiler nas informações acima, porque esses acontecimentos não são o foco da vida de suas personagens; ou não são os únicos. Servem para que elas repensem sobre suas vidas, sobre suas decisões, sobre acontecimentos que levam elas até aquele exato instante. E são os que fazem com que nós comecemos a nos ligar às personagens, e comecemos a querer opinar e acompanhar os desenlaces.

A escala de subjetividade do leitor, eu disse antes, é importante, já que as palavras que o narrador e as personagens usam (embora o livro seja todo com discurso indireto livre) permitem e exigem alguma desconfiança de nossa parte. São certezas provisórias no que se refere aos sete enredos, já que diferente do cinema, só temos aquelas palavras para interpretar cada momento. Mas junto com elas, ambiguidades e lacunas, os espaços que servem para o leitor entrar com sua opinião e crítica – e emoção e sentimento. Esse espaço que Vinicius nos fornece, dentro desse recorte mínimo de um instante breve: é onde nós ficamos presos.

Assim, penso que o título, Pela primeira vez em muito tempo foi uma escolha certeira para falar sobre essa escritura de tom performativo: o passado das personagens chega num ponto de culminância de suas vidas, num “agora” totalmente inédito e que eles ainda não podem definir completamente (nem eles nem nós, daí as lacunas).

Um livro, enfim, primoroso, no qual um acontecimento banal mostra-se como a verdadeira quintessência de toda uma vida, do início dos tempos até a última instância do agora.

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