As questões mais importantes da história são “como” e “por que”

imagem: Jean-Baptiste Debret

Quando alguém diz que “foram os próprios africanos que se escravizaram” ou “o europeu nem precisou entrar na África, comprava escravos no porto”, não se tratam apenas de erros factuais. Existe algo muito mais grave nestas afirmações: desonestidade intelectual.

Há uma visão muito peculiar — e muitas vezes falsa — da história que vem se difundindo de uns anos pra cá, não só nas redes sociais como em livros e até documentários de TV, se afirmando como versões “politicamente incorretas” ou “sem doutrinação” dos fatos históricos.

A narrativa pode ser resumida assim: a história que aprendemos na escola é falsificada e contaminada pela “agenda esquerdista” dos professores “comunistas”. Cabe portanto aos insuspeitos “politicamente incorretos” nos ensinar a história “verdadeira”, sem viés.

Onde a história esquerdista apresentaria “heróis” ou “vítimas”, os “politicamente corretos” buscam falhas de caráter. Ghandi, Che, Martin Luther King, Mandela, Zumbi dos Palmares, todos eles viram alvos. O objetivo parece ser mostrar que todo mundo é filho da puta.

Tudo no formato de memes e pegadinhas. Assim:

“Você acha o Mandela legal? Olha só a barbaridade que ele disse em 1965! Essa você não ia ouvir do seu professor barbudo eleitor do PT, hein?”

“Você sabia que Zumbi tinha escravos?”

“Leia o que Ghandi dizia dos negros em 1932!”

Essas coisas podem ter lugar em um almanaque de curiosidades, mas não é disso que é feita a história. A história é feita de contextos, não de casos selecionados de personagens isolados. Não é um campeonato de popularidade, não é uma novela com vilões e heróis óbvios.

Ensinar história como um culto a heróis e heroísmos — e como uma demonização dos inimigos — é pedagogicamente superado, além de desinteressante. As questões de história no Enem não possuem essa abordagem, os professores não seguem essa linha mais.

Voltando à questão da escravidão: os “politicamente incorretos” fazem questão de realçar a participação do próprio africano no tráfico de escravos. E isso realmente aconteceu: os europeus exploraram rivalidades entre nações africanas para dominá-los. “Dividir para conquistar.”

O mesmo aconteceu com os indígenas nas Américas. Ou na Ásia, Austrália, Roma antiga, qualquer lugar onde dominador explorou diferenças entre os dominados em seu proveito. Não há dúvidas sobre quem se beneficiou mais com a escravidão. Então, por que focar na participação do negro?

Simples: realçar a participação do africano no flagelo do próprio povo serve ao propósito de neutralizar a responsabilidade do europeu na escravidão. Passar uma régua na questão moral. Se são todos filhos da puta, então ninguém tem culpa. A dívida histórica vai pro saco.

O problema é que a dívida histórica da escravidão e do racismo institucional não está relacionada a julgamentos de valores. Não é porque o branco foi “vilão” e o negro “bonzinho”. Ninguém disse isso. A dívida existe porque um escravizou e o outro foi escravizado!

O Que é Aprender História

O que é mais pernicioso e desonesto nesse discurso todo é a frase “seu professor de história mentiu”. Como se a “culpa” das pessoas desenvolverem uma visão minimamente solidária e empática com o mais fraco fosse desta figura. Quem dera se os professores tivessem essa capacidade!

A maior parte dos estudantes sai do ensino médio com dificuldades para interpretar um texto simples e com pouquíssimo conhecimento de história. Aprende o suficiente para passar de ano e depois esquecem, exceto a minoria que desenvolve interesse no tema.

E ainda permanece no senso comum — e na cabeça de muitos professores e pais de alunos – a ideia de que “aprender história” consiste em decorar datas e personagens. Quem fez o que e quando. “Dom Pedro declarou a independência em 7/9/1822.” É só decorar e você passa de ano!

Mas as perguntas mais importantes da História não são “quem” e “quando”, e sim “como” e “por que”. Poucos alunos saem da escola com esta percepção. A tragédia da educação brasileira é não conseguir preparar o aluno para formar sua própria visão de mundo. Não aprender a pensar!

Quando o professor consegue desenvolver no aluno um mínimo interesse pela história, é natural que o aluno desenvolva uma visão mais favorável a quem foi explorado, escravizado e estuprado do que aos que exploraram, escravizaram e estupraram. Alguns chamam isso de “doutrinação”.

Para a turma da “Escola sem Partido” e os “politicamente incorretos” (estão sempre juntos!), ensinar sobre como os espanhóis destruíram os incas e os astecas não pode resultar numa visão desfavorável do europeu. O professor “sem partido” deveria contar “os dois lados da história”.

Deveria, por exemplo, citar uma anedota sobre um imperador asteca que mandou queimar vilarejos, ou contar que os incas sacrificavam bebezinhos. O aluno precisa aprender que todo mundo é filho da puta igual, então o espanhol não fez nada de mais. Esta é a história “sem doutrinação”.

O mesmo se aplica à escravidão: o professor deveria passar pano pro europeu, dizer que a escravidão sempre existiu, os próprios africanos se escravizavam e — a cereja do bolo! — os negros deviam agradecer, pois é melhor viver aqui do que na África. O resto é mimimi da esquerda!

O que se espera é ensinar história como uma coleção de anedotas desconexas, sem contexto, retratando um mundo caótico onde todo mundo é filho da puta e ninguém tem mais culpa que o outro. Se os alemães invadiram a Polônia, azar dos poloneses, que não se protegeram!

Na real, o que a extrema direita gostaria de verdade era que ninguém se interessasse pelo passado ou pelo mundo à sua volta. Como diria o ídolo deles, “deixar isso pra trás”. O aluno devia aprender a olhar só pra frente. Como um burro.

Categorias:Atena

2 Comentários

A "História sem Partido"

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *