Do “Livro dos Cincos Anéis”, do samurai lendário Miyamoto Musashi, é possível extrair que nosso primeiro inimigo somos nós mesmos

imagem: Koji Fujimura

“Hoje, você terá a vitória sobre o que foi ontem; amanhã, triunfará sobre os menos preparados; depois, sobre os mais competentes.” Isto é parte da doutrina de Miyamoto Musashi, nascido em 1584, morto em 1645, samurai lendário do Japão. É, como se vê, a descrição de um caminho de evolução, ao longo de duas batalhas: contra você mesmo e contra os outros.

É significativo: o primeiro inimigo é você mesmo. Aquilo que nós primeiro teríamos de ultrapassar: o que temos sido até então. Aí passaríamos a deixar para trás quem tenha sido negligente; daí seguiríamos para superar os que também tiveram dedicação.

Talvez eu tenha exagerado esse ponto quanto ao que Musashi de fato pensasse. Exageremos mais: não é um pouco como os versos “você faz isso consigo mesmo — e é isso o que dói“, do Radiohead? Considere-se como o seu próprio adversário. Como você é seu obstáculo? Como você próprio se barra?

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Essa citação de Musashi poderia ser mais facilmente resumida à superficialidade da auto-ajuda (com as suas fórmulas de bem-estar mais ou menos instantâneo) se o contexto onde foi escrita — o Livro dos Cinco Anéis — não recusasse tal simplificação. Ao longo da obra, o samurai nega tanto a capacidade do texto de representar o seu saber quanto de formar um discípulo tão só pela sua leitura. É como se dissesse: isto é muito pouco.

Musashi é repetitivo nesse sentido. Quase a cada fim de seção, inclui expressões assim: “é preciso refletir com muita clareza”, “examinar bem o assunto”, “convém meditar sobre tudo o que foi exposto aqui”, “refletir bem”, “exercitar bem”, “cogitar sobre o assunto”, “treinar e aperfeiçoar”. Questões físicas ou mentais, não importa: o Livro dos Cinco Anéis permanece um esboço ou roteiro, algo inconcluso, sem que o aluno o recrie em si.

É como se dissesse: fará sentido, contanto que você trabalhe.

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Podemos dizer a partir dos pensamentos desenvolvidos aqui que Musashi propõe o aperfeiçoamento pessoal como caminho de instabilidades: de um lado, tornar o que somos instável, abandonar nosso presente, “lançar-se em projeto”, como diria Sartre; do outro, perceber que mesmo a letra do ensinamento é instável, que ela deverá ser vitalizada em raciocínio e prática.

“O que aprenderei disto”? Algo além.

“O que serei agora”? Algo além.

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