Essa crise dos caminhoneiros expõe a diferença entre as duas ideologias econômicas dominantes no Brasil nas últimas décadas: o nacional-desenvolvimentismo e o liberalismo (ou neoliberalismo, como queiram).

O nacional-desenvolvimentismo foi hegemônico na política econômica entre os anos 1930 (Getúlio Vargas) e 1970 (Ditadura Militar). Defende o papel do Estado como indutor do desenvolvimento econômico e a participação de estatais nos setores considerados estratégicos da economia. Precisamos de petróleo? Petrobras. Precisamos de energia? Itaipu. Indústria de base? Usiminas, CSN, Vale. O Estado construiu boa parte da nossa infraestrutura energética, de transporte e de telecomunicações durante este período. Mas também construiu uma dívida externa enorme e deixou como legados a hiperinflação, estatais defasadas e cheias de cabides de emprego.

Dos anos 1990 em diante, o (neo)liberalismo assumiu a hegemonia no Brasil. Esta ideologia, em tese, abomina a intervenção do Estado, pois acredita que só o livre mercado deve regular a economia. As estatais portanto deviam ser privatizadas, pois só a iniciativa privada seria eficiente na sua gestão. Os investimentos em logística e energia deveriam ser feitos pela iniciativa privada. Na prática, porém, o Estado jamais deixou de dar uma “mãozinha”, por meio das Parcerias Público-Privadas (PPP) ou dos empréstimos subsidiados do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Essa intervenção do Estado “pró-mercado” é sempre aplaudida pelo neoliberalismo. Legados do neoliberalismo: dívida pública crescente, desigualdade social, corrupção (alimentada sobretudo pelas relações pouco transparentes entre agentes públicos e grandes empresas) e crises sociais (já que o “social” nunca é considerado pelo “mercado”).

E os governos do PT? Bem, eles foram majoritariamente neoliberais, haja vista que o presidente do Banco Central era um tucano de raiz, depois nomeado ministro da Fazenda do governo Temer. Mas em alguns aspectos fugiram dessa cartilha, em especial na adoção de medidas anti-cíclicas depois da crise de 2008-2009, e na política de preços da Petrobras. A empresa absorvia as variações do mercado internacional e do câmbio, para reduzir o impacto sobre o consumidor de combustíveis — ou seja, toda a economia. O “Mercado” (isto é, os investidores da bolsa de valores) não gostou nada, e as ações despencaram.

No governo Temer, tudo mudou. Mesmo tendo ampla capacidade de praticar preços menores que a concorrência (produtores estrangeiros), aquela que os liberais chamam de “Petrossauro” reduziu sua produção e aumentou seus preços para dar uma chance a eles. Em vez de atropelar a competição, construiu com ela um lucrativo oligopólio. As ações da empresa subiram de 5 para 25 reais, enchendo os bolsos de quem apostou. O cartel internacional de petróleo e derivados teve acesso a um novo mercado. O novo presidente, Pedro Parente, foi aclamado como “excelente gestor”. Enquanto isso, o preço do combustível nas bombas subia diariamente. Impacto social? O Deus Mercado nunca ouviu falar. Acharam que o consumidor ia apenas pagar o preço calado, ou então procurar uma alternativa (andar de charrete, por exemplo, ou queimar lenha para cozinhar).

Agora, no meio da crise, para onde o “livre mercado” corre? Atrás do Estado, é claro! Querem isenções fiscais, que o Estado absorva o prejuízo dos acionistas da Petrobras, ou que o Exército vá desobstruir as rodovias.

O “Deus Mercado” tem a solução para tudo, menos para as crises que ele mesmo produz. Aí precisa do Estado malvadão.

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