Pesquise. Conheça. E só então escreva

Tem reações que eu tenho reparado no meio literário que me incomodam demais. E são relacionadas a duas coisas que, pelo menos eu, considero o mínimo necessário para qualquer profissional: domínio do assunto e capacidade para lidar com críticas.

Vamos por partes.

Toda vez que começa alguma confusão do meio literário, vai aparecer alguém falando “escreva sobre o que você conhece”. E sempre vai aparecer gente rindo e dizendo que se é para escrever sobre o que se conhece, os escritores de fantasia estão fodidos. Bom, aí é uma questão simples de interpretação: eu conheço meus mundos de fantasia como a palma da minha mão. Conheço as nuances políticas, sei as vivências de cada tipo de personagem, entendo tudo isso perfeitamente. Dentro do meu mundo. Se estivesse escrevendo uma história que envolvesse médicos de alguma forma, no mundo real, eu provavelmente estaria gritando todo mundo que conheço que é da área para me ajudarem a entender sobre o que eu estou falando, até eu poder dizer que sim, eu conheço o que estou escrevendo. E isso é algo que eu vejo que o pessoal tem preguiça de fazer. Não se pesquisa. Não se estuda. Tudo é coberto na “licença poética” e no “é ficção, tudo é permitido”. Claro, ninguém está te impedindo de fazer um trabalho de qualquer jeito. Só não dê show depois quando começarem as críticas. Mas já falo disso.

Escrever é simples. É só sentar no computador/pegar o caderno e escrever. Só isso. Nada demais. Agora, fazer uma coisa realmente bem feita requer mais trabalho. Exige pesquisa, e não aquela pesquisa de “li nessa fonte aqui e ponto”. É ir a fundo, buscar pontos de vista diferentes, entender bem o assunto que se está abordando. Conhecer o que você está escrevendo — isso não quer dizer que você só pode escrever o que é parte da sua vida, mas sim que precisa correr atrás e dominar os assuntos que não são parte dela.

É um erro básico e que continua acontecendo o tempo todo, em maior ou menor escala. É o mesmo erro que causa furos de enredo gigantescos, porque certas coisas simplesmente não são possíveis dentro do cenário proposto. Se você faz uma história se passando no Brasil, com personagens brasileiros, eles devem agir como tal e as leis devem ser as leis do Brasil. Se por algum motivo não quer fazer isso, ao menos conheça o suficiente sobre o que está falando para dar uma justificativa plausível. Se sua história se passa na Inglaterra, que seja realmente a Inglaterra, e não uma versão “eu acho que a Inglaterra é assim e que as pessoas vão agir assim e comer a mesma coisa que eu como no café da manhã”. Pesquise. Conheça. E só então escreva. Isso, por si só, não é uma garantia de que vai fazer um trabalho excelente. Mas pelo menos garante que não vai deixar sua história completamente inverossímil — coisa que sim, é necessária mesmo na fantasia.

Quatro Crises Literárias que NÃO dão Motivo pra Show

E então chegamos na questão das críticas.

QUAL A DIFICULDADE EM ENTENDER QUE NADA VAI AGRADAR TODO MUNDO???

Pode ser simples assim. Nada vai agradar todo mundo. Isso é fato. Nada. Nada. Ninguém. Ponto. Aceitem. Isso não quer dizer que estão querendo destruir seu trabalho ou qualquer outra coisa da chuva de drama que fazem quando topam com uma crítica, uma resenha negativa ou uma zoeira relacionada ao livro. Te contar uma coisa: isso é tudo opinião do leitor. A partir do momento em que você publica, você está dando abertura para isso. Não quer críticas negativas, zoeiras e etc? Não publique. Deixe seu material só entre seus amigos e parentes, os que vão só passar a mão na cabeça e não apontar problemas. Os que você tem certeza que vão gostar ou vão elogiar mesmo se não gostarem. Porque, dica, o mundo real não funciona assim. E eu não sei o que é pior: as pessoas que não aceitam críticas ou a legião de pessoas que vai defender elas sempre que começa o show.

Vou citar quatro cenários que vejo acontecendo com maior ou menor frequência (e que já aconteceram não sei quantas vezes esse ano, e olha só, ainda estamos no meio de fevereiro).

Cenário um: você publicou um livro. Um leitor leu e não gostou. Ele tem todo direito de ir lá e soltar um “achei uma bosta” na avaliação da Amazon. É a opinião dele. Ele não é um leitor crítico contratado para avaliar seu texto, dar um parecer e propor soluções. Ele é “só” um leitor. Não tem isso de querer que todo mundo que discorde de você justifique ou dê opções de onde você pode melhorar. Isso é o trabalho de quem faz leitura crítica (que aliás, é uma parte do processo de publicação que a maioria dos autores que eu vejo por aí finge que não existe). Claro, se alguém falar um “achei uma bosta”, eu vou ignorar. O que eu posso tirar disso? Que a pessoa não gostou. Okay. Ninguém agrada todo mundo. Bola pra frente. SEM MOTIVO PARA SHOW.

Cenário dois: você publicou um livro. Alguém leu e não gostou. Essa pessoa fez uma resenha explicando por que não gostou e apontando os problemas do livro. É a opinião do leitor, da mesma forma. E, se o leitor se deu ao trabalho de embasar a opinião dele, detalhar e tudo mais, vamos lá de novo: NÃO É MOTIVO PARA SHOW. Você pode ignorar, óbvio. Mas, pessoalmente, se o leitor se deu ao trabalho de escrever uma resenha, detalhando o que não gostou ou não, explicando o que incomodou e tudo mais, é um grande desperdício não parar para ver isso como uma oportunidade de aprendizado. Use o que está ali a seu favor nos próximos trabalhos. Aprenda. Evolua. Cresça.

Cenário três: você publicou um livro. Alguém leu e fez piada. A piada se espalhou. De novo: é a opinião de um leitor. Ele achou que merecia virar piada. De novo: ninguém agrada todo mundo e a partir do momento em que você torna seu trabalho público, você está sujeito a todo tipo de reações. De que vai adiantar armar o barraco e fazer show? Provavelmente dar mais visibilidade para a piada, né? E, se a pessoa (que não é leitor crítico pago, deixa eu repetir isso) não te deu detalhes nem possibilidades para melhorar seu trabalho, fique à vontade para ignorar. MAS NÃO É MOTIVO PARA SHOW.

Cenário quatro: você publicou um livro. Alguém caiu matando – embasando suas críticas. Por que essa pessoa caiu matando? Por que deu essa repercussão? Foi de graça? Se tem uma ocasião onde eu acho que não é hora de ignorar críticas, é essa, porque nada toma grandes proporções à toa. E, se o grupo cuja força o autor diz querer exaltar se sente ofendido, tem alguma coisa errada, não? Qual a dificuldade de aceitar o erro? De novo: NÃO É MOTIVO PARA SHOW. Não é motivo para juntar a legião que também não conhece de verdade o assunto indo defender (e só para deixar claro, não estou defendendo os ataques pessoais, apesar de entender o que levou as coisas a esse ponto). É motivo para parar e pensar. Entender o que aconteceu, por que, e aprender com isso.

Ah, sim, e só para completar: dizer que precisa das vendas por que está em uma gravidez de risco/doente/precisa comprar remédios pra parente ou o que quer que seja NÃO É RESPOSTA para críticas ou para qualquer tipo de repercussão. Você depende desse dinheiro por algum motivo? Mais razão ainda para ter o trabalho de pesquisar e fazer um trabalho o mais próximo do impecável possível, para atrair mais leitores e consequentemente aumentar sua renda. Apelar para o drama, na verdade, mais afasta que atrai leitores.

Artigo adaptado do original, postado no Facebook.

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