Perguntei a alguns colegas qual sentimento definiria o Brasil hoje. O cenário foi terrível. Certas respostas desconfiavam do futuro (“descrença”, “desesperança”); algumas estavam aferradas ao passado (“decepção”, “estupefação”, “ressaca”, “engasgo”); outras não conseguiam extraír forças do presente (“impotência apática”, “desencanto”, “resignação”).

Alguém citou “transtorno bipolar” — viveríamos, assim, nos altos e baixos emocionais. Essa fala acabou resumindo o confronto ocasional entre dois outros comentários: um dizia o país alegre (porque os adversários políticos dele haviam sido derrotados), outro diagnosticava em nós o ódio — uma “cordialidade falsa” e um “ressentimento” nas nossas relações.

Como você responderia a essa mesma questão?

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Essa curiosidade me veio porque li uma entrevista do escritor americano David Foster Wallace, na qual ele disse que, ao fazer o seu livro Graça Infinita, queria expressar a tristeza que notava na vivência dos Estados Unidos. Comentou ele:

Tem algo particularmente triste [em como é viver ‘na América’ da virada do milênio], algo que não tem a ver com aspectos geográficos ou a economia ou qualquer coisa de que se fale nos jornais. É mais como uma tristeza na boca do estômago. Eu a vejo em mim e nos meus amigos, de várias formas.

Ainda, Wallace adiciona que essa tristeza “se manifesta como uma sensação de se estar perdido” e que o seu Graça Infinita, entre outras coisas, investigava “o que você faz quando tudo o que devia fazer você ficar ok não consegue fazer isso”.

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Os Estados Unidos parecem ter percorrido um extenso caminho até poderem produzir esse vazio. Dá para perceber isso em uma fala do Jerry Seinfeld na série Comedians in Cars Getting Coffee. Comentando um carro de marca, o comediante diz: “Em 1950, as pessoas simplesmente não viam nada de ruim. Tudo, da perspectiva americana, era como este veículo: colorido, enérgico, alegre. Havíamos tornado a vida perfeita”.

Era a euforia do pós-guerra. Graça Infinita — uma distopia em que até os anos podem ser comprados pela publicidade e em que territórios nacionais imensos são usados só como lixão — retrata, então, os escombros daquele período? O elogio da vitória, as promessas de felicidade via consumo, a sucessão sem fim de desejos satisfeitos — no livro, tudo isso é opaco.

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Nós também demos uma andada boa até onde estamos, nesta circunstância em que nossos futuro, passado, presente giram em falso. Há um sucinto diagnóstico do nosso percurso em um artigo do Fernando de Barros e Silva, na revista piauí.

O jornalista anota que “a partir do Plano Real e da eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, o Brasil ingressou num período virtuoso que durou pelo menos até 2010, quando Lula elegeu sua sucessora”. Podemos ler aí uma euforia análoga à americana, se bem que de outras proporções (não delirávamos ter a vida perfeita, mas críamos ter aperfeiçoado algo dela).

Daí, foi ladeira abaixo: “O descarrilamento desse ciclo dourado – no qual parecia que havíamos começado a pagar uma dívida social de séculos e a construir pelo menos um arremedo de país decente – desfaz um conjunto imenso de ilusões a respeito de nossas possibilidades como nação”.

Parece ser o resíduo desse histórico o que é expressado pelos sentimentos elencados para descrever o Brasil. De desforra a desforra, administrando uma convivência que perdeu as noções de comum, acostumados a optarmos pelo menor dos males. Só teremos a celebrar vitórias mesquinhas e heróis enferrujados?

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O imbróglio é o mesmo que vimos delimitado em Wallace: o que é que fazemos agora quando o que devia ter deixado tudo bem não realizou o prometido. Para o seu problema, a saída que o escritor propõe é um retorno a valores básicos, como

as coisas que meus pais me disseram, tipo: ‘É muito importante não mentir’. Ok, tá. Entra por um ouvido e sai pelo outro. Até que eu chego aos 30 e percebo que se eu minto para você eu também não posso confiar em você. Eu me sinto amargurado, nervoso, solitário e não entendo por quê. Até que concluo: ‘É, talvez o melhor jeito de lidar com isso seja realmente não mentir.

O escritor se espanta disso ser tão “desinteressante” e, mesmo assim, conseguir nos alimentar em níveis que proposições mais complexas não alcançam. Se Wallace, com isso, puder nos sugerir um caminho, talvez possamos resumi-lo assim: precisamos identificar — nos âmbitos mais singelos, mais dia a dia — o que é que estamos fazendo que solapa nossa vida conjunta.

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