Enormes máquinas de guerra de informação buscam conquistar mais espaço para as suas tribos. Cada humanista corre o risco de se tornar uma pequena aldeia arrasada

A construção das civilizações surge pela necessidade de acumulação de riqueza, para sobrevivência. O sentido de cooperação, por meio da linguagem, faz com que os homo sapiens sigam ordens rudimentares de colaboração para proteger e adquirir insumos necessários à sobrevivência — comida, água, abrigo etc. Com o tempo, o sentido de acumulação de riqueza é naturalizado por preceitos linguísticos e pelo uso da força, que construíram as “mentalidades coletivas”, nas palavras de Fernand Braudel, necessárias à sobrevivência dos seres humanos daquela sociedade.

Com o tempo, essas primeiras sociedades construíram códigos e hierarquias necessários para perpetuar a sua existência mesmo após a morte dos indivíduos. O sentido da “religião” surge nesse momento — o controle místico de forças alheias à capacidade humana é uma poderosa moeda de troca linguística. Em Roma, nas palavras de Fábio Konder Comparato, os sacerdotes detinham o poder sobre as almas e, os militares, sobre os corpos, enquanto agricultores tiravam da terra a sobrevivência da sociedade inteira. De uma forma simplista, pode-se dizer que a construção linguística das ferramentas do poder é consequência da necessidade de acumular riquezas e preservar territórios.

Essas grandes civilizações, posteriormente concretizadas como impérios (como a dinastia Jin, na China, e o Império Romano) não conseguiam lidar com exércitos que se moviam não pelo acúmulo para preservação dos humanos daquela sociedade, mas pela captura, pilhagem e retirada.

Aníbal não buscava “conquistar” aldeias gaulesas quando essas se sublevavam e estabelecer, ali, uma nova civilização: as aldeias amigas promoviam os insumos que o exército precisava para chegar até Roma, e as demais eram arrasadas. Os pastores nômades do exército mongol comandado por Gengis Khan não se prendiam a um território conquistado: permaneciam em movimento constante, com suas cavalarias e seus arcos compostos, subjugando as cidades-estado com pequenas armadas e colocando todos na guerra. Não é diferente o movimento dos hunos de Átila, que destruíam aldeias e não deixaram praticamente nada escrito: não existia um “intuito civilizatório”, também por isso eram chamados de bárbaros.

A lógica de transformar o “conhecimento” em “consumo” muda as referências do ensino: de questionamento e perenidade para recompensa e certeza

Os movimentos de captura, pilhagem e retirada, superando a lógica de acumulação de riqueza para sobrevivência, praticamente destruíram o progresso tecnológico promovido pela antiga Roma. As novas sociedades que se ergueram daí, além de feudos e castelos fortemente murados, construíram novos códigos, que pudessem ser ensinados às crianças para a sobrevivência das civilizações subsequentes. Deste ponto se origina o conceito de “educação formal”, primeiro ligada às religiões. A tradição liberal-humanista, derivada do Iluminismo, observa a necessidade dessa educação para fortalecer a autodeterminação de um povo: quanto mais conhecimento ele acumula, mais fortalecido ele está.

Corta para 2017, era da informação. O sentido de “acúmulo de conhecimento” se perde nos nossos tempos: o conhecimento está “sempre disponível”.

Esse sentimento de “disponibilidade permanente” desconstrói as próprias bases da educação formal, uma vez que ela exige, como no próprio cerne de uma sociedade, códigos e hierarquias. Por um lado, isso é fascinante: seu filho de dez anos de idade que ainda não chegou na idade escolar de aprender sobre as invasões bárbaras da antiga Europa pode acessar um dispositivo que cabe na sua mão, ler tudo e aprender tudo sobre isso.

Porém, uma consequência drástica — e normal, como a história da humanidade mostra — dessa perda do sentido de acúmulo é a naturalização dos movimentos de captura, pilhagem e retirada baseados em informação. O acúmulo de conhecimento é desnecessário, mas as hierarquias da vida social permanecem — e, no século 21, são profundamente baseadas na capacidade de consumo e acumulação de capital. Também permanece a busca pelo prazer pessoal, e muitas vezes o aumento da reputação confere isso: uma quantidade maior de seguidores, mais pessoas visualizando um post, os aplausos dos seus amigos e os aplausos daqueles que mal te conhecem, mas influenciam muita gente.

Não foram poucos os intelectuais do século XX que viram essa onda chegando. Zygmunt Bauman, nas entrevistas para Riccardo Mazzeo em Sobre Educação e Juventude, avisava que as “responsabilidades éticas” — fundamentais para a construção de uma sociedade, de acordo com a tradição liberal-humanista — são um obstáculo terrível para o “consumo investido da tarefa de desafogar e satisfazer os impulsos morais”. Essa lógica de transformar o “conhecimento” em “consumo” muda as referências do ensino: de questionamento e perenidade para recompensa e certeza.

Assim como os mongóis e hunos não observavam a necessidade de manter uma relação com aquelas aldeias a fim de obter a sobrevivência dos seus pares, os bárbaros do conhecimento atual não veem sentido em preservar uma “responsabilidade ética” se podem obter mais seguidores, mais likes, mais alcance. “Quem precisa seguir parâmetros de verdade, com milhares de pessoas lendo meus tweets e ouvindo meu podcast dizendo que o nazismo é de esquerda?”

Enormes máquinas de guerra de informação estão em curso para conquistar mais “espaços vitais” para as suas tribos. Não vivemos mais um tempo de guerrilhas — são Estados inteiros, think tanks repletos de dinheiro, contribuindo diariamente para essa barbárie da informação, com a qual podemos estar despreparados para lidar. A tradição liberal-humanista, tão dependente de autocrítica e comiseração, precisa de bem mais que isso: precisa garantir a sobrevivência dos valores de equidade, humanidade e fraternidade, antes que cada humanista seja uma pequena aldeia arrasada.

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A Barbárie da Informação

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