As armas da desinformação estratégica no estertor do capitalismo

A internet, fenômeno que revolucionou a produção, troca e circulação de informação, deveria ser exaltada pelo seu aspecto democrático e descentralizado de fazer chegar a qualquer um (obviamente, com acesso à rede) tudo o que precisaríamos, em tese, para nos informar; o que seria o bastante para pensar o mundo, nossas vidas e as mais corriqueiras decisões cotidianas que tomamos. O problema não é tanto de acessibilidade à rede, algo que é problemático e merece, no momento certo, ser analisado melhor. Mas, sobretudo, trata-se da forma como nos dedicamos a certa curadoria desse conteúdo e as estruturas heurísticas (isto é, o método que utilizamos para construir nossos juízos sobre o mundo) que adotamos para selecioná-lo e absorvê-lo.

Confesso que diante disso, em vários momentos ao rascunhar sobre o tema a que me dedico agora, uma sensação de angústia sobreveio. Uma nítida sensação de estar me dedicando a algo inútil, em que somente aqueles que já concordam comigo vão ler e os que discordam sequer se darão ao trabalho de ponderar o que será trazido. Tarefa inglória, decerto. Mas acredito na escrita como ato de resistência: é preciso prejudicar a tolice sob todas as suas formas e quais forem suas origens, já dizia Deleuze.

A atual onda conservadora no mundo se consolida em discursos que funcionam como verdadeiras desinformações estratégicas. Na fenda aberta pela crise de representatividade dos Estados Nacionais a partir do endividamento crescente dos países que se dedicaram a construção de um Estado de Bem Estar Social, o conservadorismo vem ganhando espaço e se apropriando do espólio dos sangrentos embates ideológicos e discursivos entre liberais, sociais-democratas e socialistas. Convocados pelos próprios liberais, a força conservadora auxilia e forma uma frente que tem como principal objetivo a defenestração de todo pensamento de esquerda do planeta, seja através de propostas que julgam necessárias e atacam massivamente direitos civis e socioeconômicos conquistados ao longo da história, seja através da pura e simples difamação compulsória da “ameaça esquerdista” à reprodução capitalista desenfreada que almejam.

As falências dos Estados Nacionais e o retorno da ideia de Estado Mínimo e da submissão de toda vida às leis de mercado têm como pano de fundo um plano de sobrevivência de um capitalismo em pleno estertor e que não consegue enxergar sua existência como auto-sabotagem a cada ciclo produtivo em sua sede desenfreada de acumulação e crescimento. Não é alternativa para nosso sistema global de produção e acumulação privada uma redução de margem de ganho que signifique justiça social ou menos degradação ambiental. Por todo o mundo ficou demonstrado que a eficácia capitalista alcançada no século XXI é incompatível com o mínimo de justiça social, porém o ônus das crises oriundas das próprias contradições do sistema recai não sobre capitalismo, mas sobre os governos localizados à esquerda e pretensos promotores dessa justiça mínima.

Meu foco no presente texto é concentrado em uma dessas estratégias que procura atribuir à esquerda aquilo que sempre se constituiu numa pedra no sapato da direita: o fascismo. Atribuir e revisar a história para colocar os fascismos à esquerda do espectro político-ideológico é de extrema importância para prevalecer como hegemônico o pensamento de direita, mesmo que seja no âmbito do “menos-pior”. Não basta aos ideólogos do capital reduzir toda a ideia à esquerda no demônio do estatismo autoritário, é preciso construir a imagem de que, inescapavelmente, pensar à esquerda significa desejar o totalitarismo e a perda da liberdade tão cara ao mundo liberal; fato que abre franco caminho para sinonimizar nazifascismo com socialismo, auxiliado pela ignorância histórica de seus correligionários e da nova leva de isentões que prolifera hoje.

É importante deixar claro, porém, que para esse autor todo regime autoritário é abominável e ilegítimo, seja ele de qual espectro político-ideológico e/ou as justificativas que podem amealhar para dar sentido a qualquer tipo de autoritarismo. Importante salientar que o liberalismo, não só por sua solidariedade histórica ao fascismo, mas por suas premissas de sustentação de um sistema autoritário por natureza (o capitalismo), enquadra-se nessa abominação. Portanto, aqui, não faço apologia a nenhum sistema e sim procuro esclarecer equívocos recorrentes de uma visão, senão ingênua da história e seus desdobramentos, no mínimo enviesada e tendenciosa, quiçá francamente desonesta.

George Reisman, ex-aluno de Ludwig Von Mises, PHD e autor do livro Capitalismo: um tratado de economia é enfático em afirmar que, excetuando Mises (seus leitores e correligionários da Escola Austríaca), “praticamente ninguém pensa a Alemanha Nazista como um estado socialista” (REISMAN, 2014). Pudera, para a Escola Austríaca, que enxerga a economia não como uma ciência histórica, mas como uma ciência apodítica da qual é possível extrair axiomas pelos quais se deduz a realidade, tudo o que é histórico e contextual é naturalizado em categorias para construir uma compreensão da realidade. Seu método praxeológico enxerga a história não como uma contingência de constructos sociais em determinados contextos, nunca como um jogo de poder a influenciar as decisões e escolhas individuais, mas como resultado de leis abstratas que o raciocínio deve apreender para compreender e atuar sobre a realidade. Raros são os momentos, portanto, em que essa escola revisa suas posições, já que tudo o que é naturalizado da história se transforma em categorias conceituais e leis gerais pelas quais a realidade deverá se comportar, a não ser, preconizam, que um grupo seja autoritário e louco o bastante para contestá-las, promovendo uma catástrofe: eis como se torna necessário abominar todo pensamento à esquerda.

A visão da Escola Austríaca sobre a sinonímia nazi-fascismo e socialismo se pauta sobre dois pilares básicos e repetidos ad nauseum por todo aluno prodígio libertarianista, neoliberal ou mesmo anarcap: 1) o partido nazista abriga no nome o “socialismo” e 2) ambos, nazismo e socialismo, possuíram um estado totalitário onde os rumos da produção (quem, quando, onde e porquê produzir) estiveram na mão do Estado ou de um partido que assolapa o poder que só seria legítimo a partir da lógica de mercado.

Sobre o ponto 1 talvez nem valha a pena discorrer muito, pois seria o mesmo que esperar que a República Democrática da China fosse democrática porque seu nome carrega aquilo que ela acha que é ou como aqueles que detém o poder querem que ela seja vista. Ademais, em diversas passagens do Mein Kampf de Adolf Hitler, o autor narra o quanto foi importante (além do divertimento que causava) usar os discursos da esquerda para conseguir a adesão dos operários, ao mesmo tempo em que odiava, perseguia e, posteriormente, eliminava bolcheviques, marxistas, comunistas, socialistas, anarquistas e minorias étnicas e religiosas[i].

Em todo o livro Hitler expressa ódio às ideias de esquerda, ao socialismo, aos marxistas e aos judeus, reforçando o quanto, para ele, o uso de cores, símbolos e o nome socialismo no partido nacionalista que liderava era importante para causar a ambiguidade necessária para engrossar suas fileiras de descontentes operários alemães. Por fim, para ilustrar o delírio conspiracionista e conveniente de Hitler, nas últimas páginas de seu livro, ele coloca “sua luta” em termos instintivos, onde sua raça como superior, deveria lutar e eliminar o inimigo que quer o mesmo que ele:

A ameaça a que a Rússia sucumbiu, pende perpetuamente sobre a Alemanha. Somente o burguês ingênuo é capaz de imaginar que o perigo bolchevista esteja afastado. Na sua maneira superficial de pensar, ele não tem a menor ideia de que se trata, aqui, de um processo instintivo, isto é, de um esforço pelo domínio da terra da parte do povo judeu, de um processo que é tão natural como o instinto do anglo-saxão de apropriar-se deste mundo. E assim como o anglo-saxão segue esse caminho a seu modo e luta com as suas armas, assim também o judeu. Este procura insinuar-se entre os povos e carcomê-los, lutando com as suas armas, isto é, com a mentira e com a calúnia, o veneno e a corrupção, aumentando a luta até à sangrenta extirpação do inimigo odiado. Devemos enxergar no bolchevismo russo a tentativa do judaísmo, no século vinte, de apoderar-se do domínio do mundo, justamente da mesma maneira por que, em outros períodos da história, ele procurou, por outros meios, embora intimamente parecidos, atingir os mesmos objetivos. A sua aspiração tem raízes na sua maneira de ser. (HITLER, 2001, p. 615)

É impressionante como esse discurso não mudou na boca dos liberais e conservadores localizados à direita do espectro político-ideológico internacional, apesar de terem retirado a questão judaica e étnica de cena. É o mesmo discurso, por exemplo, de Olavo de Carvalho — ideólogo dos conservadores no Brasil — seja em seus textos como em seus vídeos na internet. É o discurso dos chamados liberais e dos “camisas-da-CBF-contra-a-corrupção” desfilando na Av. Paulista pedindo intervenção militar. É, por fim, o discurso da Escola Austríaca e seus seguidores e estudiosos contra a esquerda em geral.

Curioso, no entanto, é constatar que a posição de Mises, Hayek e os seguidores da Escola Austríaca ao longo do século XX tenha escamoteado certa simpatia/compreensão do próprio Mises com o fascismo. Para ele, o fascismo poderia ser um remédio amargo contra a ameaça socialista/comunista, e de fato ele o via dessa forma. Em seu livro Liberalismo na Tradição Clássica, na seção em que se dedica a falar sobre as Razões do Fascismo, Mises faz uma distinção clara entre o nazi-fascismo e socialismo, colocando-os em lados opostos, aproximando muito mais o fascismo do liberalismo do que do socialismo. Esse livro foi escrito em 1927, portanto dois anos após Hitler ter escrito seu Mein Kampf:

O que distingue a tática política liberal da do fascismo não é uma diferença de opinião relativa à necessidade de usar a força armada para resistir a atacantes armados, mas uma diferença na consideração do fundamento do papel da violência na luta pelo poder. (MISES, 2010, p. 75)

Para Mises, o fascismo era somente uma reação de liberais inconscientes que se radicalizavam através da violência contra o inimigo comum: o socialismo. A distinção entre fascismo e liberalismo estava no uso da violência na luta pelo poder, não por outros motivos, mas exatamente por esse. Em outros trechos, Mises fala da tradição liberal dos fascistas, mesmo que em momentos de crise eles optem por um intervencionismo do Estado:

As ações dos fascistas e de outros partidos que lhe correspondiam eram reações emocionais, evocadas pela indignação com as ações perpetradas pelos bolcheviques e comunistas. Ao passar o primeiro acesso de ódio, a política por eles adotada toma um curso mais moderado e, provavelmente, será ainda mais moderado com o passar do tempo.

Tal moderação resulta do fato de que os pontos de vista tradicionais do liberalismo continuam a exercer influência inconsciente sobre os fascistas. Mas, por mais longe que isso possa ir, não se deve deixar de reconhecer que a conversão dos partidos de direita às táticas fascistas mostra que a batalha contra o liberalismo produziu êxitos que, há pouco tempo, seriam considerados totalmente inimagináveis.

Muitas pessoas aprovam os métodos fascistas, muito embora seu programa econômico seja totalmente antiliberal e a política econômica totalmente intervencionista, porque está longe de praticar o vandalismo que tem caracterizado os comunistas como os arqui-inimigos da civilização. (MISES, 2010, p. 75)

Inadvertidamente, Von Mises não só coloca os fascistas como um fenômeno à direita, como reconhece suas origens liberais, considerando-os, indiretamente, como aliados contra uma ameaça socialista/comunista, ou seja, contra a possível superação do capitalismo.

Embora seja hoje algo impensável para os seguidores da Escola Austríaca, seja por ignorância ou má-fé, o fato é que muitos estudos dão conta das afinidades entre o fascismo e o liberalismo. Não só pela quantidade de liberais (astronomicamente maior do que a de comunistas) que aderiram ao fascismo em seus países de origem, mas também pela ajuda, amparo e solidariedade (hoje envergonhada) que muitos países com princípios liberais deram aos oficiais da SS nazista. Não se tem notícia de coisas desse tipo nos países socialistas, obviamente. No entanto, um dos oásis do liberalismo econômico, a Suíça, acolheu com simpatia e promessa de segurança para o dinheiro, obras de arte e ouro pilhados dos judeus pela Alemanha nazista:

Parte do ouro que frutificou durante seis décadas na exemplar democracia liberal proveio diretamente, segundo a Comissão, dos campos de extermínio. Dentes de ouro, além de pertences do mesmo metal arrancados das vítimas das câmaras de gás, reforçaram a tradicional função frutificadora de capitais exercida pela Suíça, celebrado modelo de prosperidade burguesa e do mais respeitado liberalismo. (MORAES, 1999, p. 12)

O que teria acontecido ao longo do tempo para que Mises mudasse seu posicionamento e começasse a forçar em seus escritos posteriores com a sinonímia entre nazismo e socialismo? Obviamente que o resultado da guerra lhe causou escândalo a se ver simpatizante ou tolerante com tais práticas que lhe causavam condescendência no passado. Ainda mais com sua origem judaica era preciso apagar da história tal aproximação. Mas até então, ele via o fascismo, inegavelmente, com ótimas intenções:

Não se pode negar que o fascismo e movimentos semelhantes, visando ao estabelecimento de ditaduras, estejam cheios das melhores intenções e que sua intervenção, até o momento, salvou a civilização europeia. O mérito que, por isso, o fascismo obteve para si estará inscrito na história. Porém, embora sua política tenha propiciado salvação momentânea, não é do tipo que possa prometer sucesso continuado. O fascismo constitui um expediente de emergência. (MISES, 2010, p. 77)

Ademais, é importante salientar que o mesmo ódio contra socialistas, bolcheviques, comunistas e marxistas unem Hitler e Mises, contemporâneos. A diferença é que Hitler perseguiria e mataria Mises, ao passo que este tentaria convencê-lo com palavreado apodítico antes de ser metralhado. Para sorte de Mises, não se encontraram; o que não isenta nem o negacionismo nem o revisionismo da Escola Austríaca, os quais precisam ser colocados onde lhe são de direito: como empulhação e propaganda panfletária, apesar deles insistirem em serem vistos como se autoproclamam, afinal “embora não haja ideologias sem normatividade ética, nenhuma ideologia pode pretender ser avaliada apenas pelos valores que preconiza” (MORAES, 1999, p. 15). Os ideólogos do liberalismo capitalista não possuem escrúpulos para flertar com a possibilidade do fascismo caso as instituições do Estado não lhes garantam seu ganho e sua prevalência de classe na condução da sociedade como lhes convém:

O liberalismo é burguês no sentido de que constitui a forma política mais adequada à dominação de classe dos capitalistas e, nesta medida, serve-lhes de ideologia espontânea. Mas em situações de crise política aguda, quando o controle exercido sobre a opinião pública pelos grandes meios privados de comunicação social não logra garantir a funcionalidade do sufrágio universal (…), a burguesia, para manter seus privilégios econômicos, portanto, suas posições de classe, redescobre sua profunda afinidade com o fascismo. Para manter a liberdade essencial, a propriedade privada dos meios sociais de produção, não costuma ter escrúpulos em revogar o conteúdo ético-político do liberalismo (Estado de Direito, liberdades e garantias individuais, etc.) trocando-o por medidas (e, se necessário, por regimes) de exceção, do estado de sítio às ditaduras militares que aplicam a tortura e as execuções sumárias em escala genocida. (MORAES, 1999, p. 18)

É exatamente o posicionamento de Von Mises que via o fascismo como necessário em situações emergenciais, reconhecendo seu mérito.

O fato é que diante da derrota nazifascista na Segunda Guerra e a franca oposição dos países liberais à beligerância da aliança ROBERTO (Roma, Berlim e Tokyo), Von Mises parece cair em si e muda seu posicionamento em relação ao fascismo. Ele e seus correligionários focam todo seu arsenal para construir a imagem de que o fascismo (além de um aliado mais que possível, desejado em tempos de risco ao capitalismo) trata-se de uma variante de uma definição vaga, enviesada e arbitrária de socialismo. Para instituir a impostura que coloca o nazismo como um fenômeno de esquerda, especialmente socialista, Mises e seus correligionários partem da ideia de que é distintivo que ambos possuam estados totalitários. Para tanto, porém, foi de suma importância a desconstrução daquilo que caracteriza distintivamente o nazismo dentro do capitalismo: a propriedade privada dos meios de produção. Na necessidade de livrar o capitalismo de um regime totalitário e defini-lo como essencialmente liberal, os ideólogos da Escola Austríaca lançam mão de um dogmatismo apologético e hipercrítico operando através de definições vagas, arbitrárias e meramente nominais (MORAES, 1999, p. 16) sem nenhum respaldo na história ou empírico.

Segundo Reisman, Von Mises teria identificado que a propriedade privada dos meios de produção na Alemanha nazista só existia nominalmente, mas que, de fato, era o governo alemão o proprietário de fato dos meios:

Pois era o governo alemão e não o proprietário privado nominal quem decidia o que deveria ser produzido, em qual quantidade, por quais métodos, e a quem seria distribuído, bem como quais preços seriam cobrados e quais salários seriam pagos, e quais dividendos ou outras rendas seria permitido ao proprietário privado nominal receber. (REISMAN, 2014)

A impressão que dá, em assertivas como essa, é que se trata de gente extremamente inocente. Mas não estamos falando de pessoas inocentes, estamos falando de PHDs como Reisman e prêmios Nobel como Hayek, além das extensas credenciais acadêmicas do próprio Ludwig Von Mises. O dogmatismo apologético de Mises despreza o fato de que a ascensão nazista fora financiada por empresas privadas. O intuito claro foi “fabricar” a imagem de que o governo teria expropriado a propriedade e a mantido apenas nominalmente com seus verdadeiros donos. Apesar do forte controle do estado na economia alemã, não foi esse o caso.

Há de se levar em conta que seria impossível pensar, em tempos de guerra, uma economia sem um planejamento central que unisse os esforços para um objetivo comum. O fato é que esse objetivo comum foi apoiado e financiado pela iniciativa privada que havia ajudado o novo governo tomar o poder. A adoção do modelo keynesiano na economia alemã, uma engenharia financeira bem articulada e o apoio da classe empresarial reputa à Alemanha do Terceiro Reich o que ficou conhecido como Milagre Econômico Alemão. No entanto, não é possível caracterizar a economia alemã como planificada em termos da ex-URSS, já que antes da política armamentista, foi prioridade de Hitler a recuperação do emprego (que chegara ao nível de 1/3 de desempregados em toda a Alemanha) através de investimentos públicos e pesados subsídios às indústrias e empresas privadas alemãs. Ademais, durante os primeiros dois anos de governo, o partido nazista pouco modificou o sistema econômico herdado da República de Weimar:

(…) não ocorreram confiscos ou socialização forçada. Cooptando um número de grandes empresários, o regime priorizou uma política de criação de empregos em programas específicos nesse sentido. Investiu-se em infra-estrutura pública, estradas e moradias. As despesas militares permaneceram de importância secundária nos dois primeiros anos de gestão. (…) Algumas medidas de natureza tributária e fiscal foram tomadas. O crédito ao consumo desempenhou um papel importante no período. A convicção de que a saída da depressão econômica, que se prolongava desde 1928, passava por políticas de estilo keynesiano de expansão da demanda agregada via gastos públicos era compartilhada entre os membros do movimento nazista. (…) Em especial, no novo programa percebia-se nitidamente a estratégia de aliança com os grandes grupos empresarias na execução das políticas. A criação de emprego não se daria por meio de políticas fiscais irresponsáveis que onerassem o Tesouro, mas valendo-se da parceria com o Reichsbank que apoiaria os programas de crédito produtivo. (FEIJÓ, 2009, p. 247–248)

Mises, conforme nos relata Reisman, atribui esse sucesso a emissão de papel moeda e ao controle de preços para conter a inflação, o que se constitui apenas uma meia-verdade da história e caracteriza, mais uma vez, o estilo apodítico da praxeologia como uma espécie de heurística da conveniência, típico da Escola Austríaca, onde já se tem a explicação através de Leis gerais abstratas para se encaixar a realidade, independente do que efetivamente ocorra.

Conforme os planos bélicos do Terceiro Reich foram sendo implementados, cada vez mais a economia alemã começa a se centralizar e a ficar planificada, mesmo assim com distinções fundamentais do que ocorria na Rússia:

O sistema econômico adotado pelos nazistas conjugava aspectos aparentemente contraditórios: uma economia com elevado grau de planejamento estatal, com controle dos negócios privados e forte intervenção no sistema de preços e de salários; ao mesmo tempo, uma economia que apresentava um poder central frouxo, que não conseguia submetê-la totalmente aos ditames do centralismo econômico. Então havia certamente um grau maior de descentralização econômica na Alemanha de Hitler do que nos sistemas econômicos socialistas. (FEIJÓ, 2009, p. 255)

Por todos os ângulos que se olhe, a economia alemã jamais deixou de ser capitalista, embora tenha se tornado radicalmente anti-liberal. O que Von Mises e seus correligionários não suportam é assumir que o capitalismo possa conviver com o totalitarismo, mesmo sabendo que o próprio Liberalismo o qual defende permite e enxerga os fascismos como potenciais aliados em caso de ruptura das instituições que garantam o sistema de produção capitalista. Para isso, como é de praxe em uma heurística da conveniência, redefine-se o capitalismo, o socialismo e o próprio liberalismo para que tudo esteja na mais perfeita ordem moral, independente do que aconteça efetivamente.

Há de salientar que a redução do socialismo ou mesmo do pensamento à esquerda em um Estado Totalitário é algo que não tem amparo histórico diante das forças que se confrontaram historicamente até a Revolução Russa de 1917. Muitas outras visões de socialismos estavam em jogo, com destaque para a visão socialista democrática de Rosa Luxemburgo que ocasionou vários confrontos com Lênin nas Internacionais Socialistas.

Que o bolchevismo da ex-URSS e os fascismos possuem coisas em comum, disso não podemos duvidar. No mínimo nasceram ambos da crise na Europa do começo do sec. XX e ambos são totalitários, conforme nos ensina Hanna Arendt. Os Gulags soviéticos, as atrocidades e execuções tanto de Lênin quanto mais de Stalin ficarão nos anais da história como ilustrativos do quanto o ser humano pode ser cruel. Não se trata de demonizar o nazismo para salvar o socialismo histórico que conhecemos. Trata-se de distingui-los para além das confusões propositais que ideólogos promovem.

Por fim, mesmo depois da mudança suspeita de posicionamento de Mises acerca do fascismo como aliado dos liberais, é importante lembrar o que o ex-editor do jornal Berliner Borsenzeitung, que engrossou as fileiras dos nazis como intermediário do grande capital e o partido, Walther Funk, declarou no julgamento de Nuremberg:

Eu procurei desempenhar minha missão convencendo pessoalmente o Fuhrer e o partido que a iniciativa privada, a autonomia dos homens de negócios, os poderes criativos da livre empresa, etc. deviam ser reconhecidos como política econômica básica do partido. O Fuhrer sublinhou pessoalmente inúmeras vezes, em conversas comigo e com chefes de empresas a quem eu o havia apresentado, que ele se opunha à economia de Estado e à chamada ‘economia planificada’ e que considerava a livre iniciativa e a concorrência como absolutamente necessárias para atingir o maior nível de produção possível. (Walther Funk, apud in BERNARDO, 1998, p. 77–78)

Termino esse texto com a mesma sensação da qual o iniciei. Penso que, infelizmente, ele trará pouca relevância no cenário atual em que qualquer coisa pode ser dita porque será compreendida e aceita através da flagrante e desonrosa heurística da conveniência. A eficácia alcançada pelo capitalismo no séc. XXI trabalha em direção ao esgotamento de suas condições de reprodução. Assim como no início do séc. XX, os Estados Nacionais pouco terão o que oferecer para que o capitalismo sobreviva. As dívidas públicas dos Estados formam, como nos informa o ex-ministro das finanças da Grécia, o economista Yanis Varoufakis, uma espécie de “picos gêmeos” com a concentração de riqueza no mundo. A canibalização da esfera política por parte do poder econômico está cada vez mais evidente e a democracia será a mais afetada, pois a sobrevivência do capitalismo passará a requerer a exclusão em massa de pessoas na mesma proporção que seu surgimento requereu sua inclusão e aumentou a renda média depois da miséria generalizada na Inglaterra do sec. XIX. Segundo Yanis, cada vez menos as decisões democráticas estarão dentro das decisões econômicas globais e cada vez mais uma reduzida cúpula de trilhonários decidirão os destinos e as vidas do planeta, inclusive do próprio planeta.

Por todos os lados ouvimos súplicas autoritárias para que o mercado regule os fluxos, produção, necessidades e a vida de todos, constituindo-se no grande mito da civilização ocidental, seja através da ingenuidade daqueles que ouvem o proselitismo liberal, seja através da clara defesa dos interesses de classe que criam e reforçam esses mitos. Em um mundo com a tecnologia que alcançamos é impossível a passividade com que aceitamos um único ser humano morrer de fome ou não ter onde morar com tanta concentração de renda. Essa lógica que concentra mais de 50% da riqueza mundial na mão de 1% da população do mundo irá nos matar a todos.

Por todos os lados não se culpa mais o sistema por esse absurdo, mas sim quem está contra esse absurdo. É o cenário para o renascimento do fascismo em todo seu esplendor contra o inimigo comum: os anticapitalistas.

Não importa que esse texto não chegue onde deveria ou poderia chegar. É a resistência que conta. É o que nos une.

Notas de Fim:

[i] É importante lembrar que os comunistas foram os primeiros a serem perseguidos pelo Terceiro Reich logo quando Hitler toma o poder em 1.933. Em 8 de março desse ano, iniciou-se a cassação dos mandatos de deputados, prisões de dirigentes e, em seguida, a proibição da existência do Partido Comunista alemão. Clique aqui para saber mais: 1933 — Repressão ao Partido Comunista da Alemanha.

Para ilustrar, penso ser importante transcrever algumas falas do próprio Hitler sobre a esquerda marxista da época.

Sobre a animosidade entre nacionais-socialistas e marxistas:

(…) as assembleias nacionais-socialistas nada tinham de “pacíficas”. Aí, as ondas de duas doutrinas quebravam-se de encontro uma à outra. (…) Desde o princípio, a introdução da disciplina cega e a garantia da autoridade da direção impôs-se nas nossas assembleias como uma condição das mais importantes (…) quantas vezes nossos amigos vermelhos compareciam até ali, em colunas cerradas, com a missão bem delineada de dispersar aquilo tudo na mesma noite, à força de pancada, pondo um fim àquela história, e quantas vezes esteve tudo perto disso mesmo! As intenções do adversário foram aniquiladas apenas pela energia férrea de nossos líderes e pelas medidas brutais de nossa polícia defensiva. (HITLER, 2001, p. 446–447)

Sobre o uso do vermelho para confundir, angariar seguidores e irritar os socialistas e desorientar os burgueses:

Só a cor vermelha dos nossos cartazes fazia com que eles afluíssem às nossas salas de reunião. A burguesia mostrava-se horrorizada por nós termos também recorrido à cor vermelha dos bolchevistas, suspeitando, atrás disso, alguma atitude ambígua. Os espíritos nacionalistas da Alemanha cochichavam uns aos outros a mesma suspeita, de que, no fundo, não éramos senão uma espécie de marxistas, talvez simplesmente mascarados marxistas ou, melhor, socialistas. A diferença entre marxismo e socialismo até hoje ainda não entrou nessas cabeças. Especialmente, quando se descobriu, que, nas nossas assembléias, tínhamos por princípio não usar os termos “Senhores e Senhoras” mas “Companheiros e Companheiras”, só considerando entre nós o coleguismo de partido, o fantasma marxista surgiu claramente diante de muitos adversários nossos. Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade!

A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a Esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembléias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente. (HITLER, 2001, p. 447)

Durante aquelas semanas, a Revolução na Alemanha deveria apresentar uma extrema moderação, se não quisesse correr o perigo de ser destruída de um momento para outro, por algumas divisões alemãs. Naquela época, se o comandante de uma única divisão tivesse tomado a resolução, com auxílio de seus dedicados soldados, de arrear os trapos vermelhos, destruir os “Conselhos” e vencer qualquer resistência, mediante lança-minas e granadas de mão, essa divisão, em menos de quatro semanas, se teria transformado em um exército de sessenta divisões. Os judeus que manejavam o movimento temiam isso mais do que tudo. Justamente para impedir que essa hipótese se realizasse, era necessário impor à revolução um certo aspecto de moderação, dando-se a impressão de que ela de nenhum modo degeneraria em bolchevismo, ao contrário devia dissimular que se batia “pela tranqüilidade e pela ordem”. (HITLER, 2001, p. 489)

Hitler associa a esquerda ao capitalismo financeiro judaico e quer extirpá-los da existência com todo ódio que lhe cala o peito nacionalista e paranoico:

A internacionalização da economia alemã, isto é, a exploração do trabalho alemão por parte dos financeiros judeus internacionais, somente será praticável em um Estado politicamente bolchevizado. Mas a tropa de assalto marxista do capitalismo internacional judaico só poderá quebrar definitivamente a espinha dorsal do Estado alemão mediante a assistência amigável de fora. Por isso, os exércitos da França devem ocupar a Alemanha, até que o Reich, corroído no interior, seja dominado pelas forças bolchevistas a serviço do capitalismo judaico internacional. Assim, o judeu é, hoje em dia, o grande instigador do absoluto aniquilamento da Alemanha. Todos os ataques contra a Alemanha, no mundo inteiro, são de autoria dos judeus. Foram eles que, na paz como durante a guerra, pela sua imprensa, atiçaram, premeditadamente o ódio contra a Alemanha, até que Estado por Estado abandonou a neutralidade e assentou praça na coligação mundial, renunciando aos verdadeiros interesses dos seus povos. As idéias do judaísmo nesse assunto são de uma clareza meridiana. A bolchevização da Alemanha, isto é, a exterminação da cultura do nosso povo e a conseqüente pressão sobre o trabalho alemão por parte dos capitalistas judeus é apenas o primeiro passo para a conquista do mundo por essa raça. (HITLER, 2001, p. 579)

Bibliografia

BERNARDO, J. Labirintos do Fascimo. Campinas: (Tese de Doutorado) — UNICAMP — Faculdade de Educação, 1998.

FEIJÓ, R. L. C. Uma interpretação do Primeiro Milagre Econômico Alemão (1933–1944). Revista de Economia Política, São Paulo, v. 29, n. 2, p. 245–266, Abr/Jun 2009. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-31572009000200005Acesso em 20/11/2016.

HITLER, A. Minha Luta (Mein Kampf). Tradução de Klaus von Puschen. São Paulo: Centauro, 2001.

MISES, L. V. Liberalismo Segundo a Tradição Clássica. Tradução de Haydn Coutinho Pimenta. 2ª. ed. São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010.

MORAES, J. Q. D. Liberalismo e Fascimo, convergências. Crítica Marxista, São Paulo, v. I, n. 8, p. 11–42, 1999.

REISMAN, G. Por que o nazismo era socialismo e por que o socialismo é totalitário. Seção Política — Mises Brasil, [online], 24 Fev 2014. http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=98 acesso em 20/11/2016.

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