Uma busca poética que se confia ao delírio como espaço onde a língua se desajusta, em que os sentidos chegam ao indefinido

Emma Villazón (Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, 1983 — El Alto, 2015) publicou dois livros de poesia em vida: Fábulas de una caída (Santa Cruz de la Sierra, 2007) e Lumbre de ciervos (Santa Cruz de la Sierra, 2013); sobre este último, o escritor e crítico boliviano Cé Mendizabal escreveu: “O tempo […] há de confirmar Lumbre de ciervoscomo um dos livros de poemas mais brilhantes desta parte do mundo nos últimos tempos”. Mesmo com sua partida prematura, no momento em que iniciava os seus estudos de doutorado em Filosofia da Arte na Universidade do Chile, nos deixou um punhado de textos inéditos, incluindo Temporarias y otros poemas, que foram publicados recentemente em co-edição da Perra Gráfica (La Paz) e Das Kapital (Santiago), do qual três passagens oferecemos aqui.

Emma considerou os poemas deste livro como “uma busca poética que se confia ao delírio como espaço onde a língua se desajusta, em que os sentidos podem chegar a um grau indefinido, ou um nível intermediário entre legível e ilegível, sempre “por vir”, e que considera a liberdade do corpo, do espírito e da palavra como algo que se reinventa, nunca como um estado confortável ou estável” (Setembro de 2014)

Andrés Ajens

 

Quadrícula e estrelas

1.

novembro já abre a dança, o calor furtivo
para a janela escarnecida no inverno.
seu perfume estremece as asas maltratadas
Pelo frio da acumulação e da constância.
ou por esse falso sonho de se entregar
à digna, dizem, venda da força
que no final resulta na oferenda da seiva.
Novembro já canta, já corre, já sobe
no peito e não mostra a cara.

2.

caras de anchovas cenouras e abóboras
são os personagens trabalhados por jornada,
nutridos pela polpa de vitrais em fila;
entre eles, um murmúrio inquieto sem nome
esmagado: bom, serei a caçadora de latidos,
uma mosca que ronda por suores como estrelas opacas

3.

tinha uma célula de excel ou uma raposa na cabeça
agia como magnólia fina mas não podia ser
era a supervisora magra e de cachos escuros
era ela quem paria uma equipe e a amamentava
executivamente a cada novo sopro do projeto
era ela muito eficiente em sua fala de seda vermelha
quem devorava empregados sem deixar nem migalhas

4.

eram dias em que a garganta se enchia de sedimentos,
os amplos canais citadinos, o corpo, com sapos e teias de aranha,
bombeava planilha trás planilha, marcava OK em um quadro
enquanto a lua descontava respiros (esperneio de boca em recesso)
uma caixa de ressonância preta arrasta todos
e o mais fácil é não interpretar bem esses ecos
e fazer tragédia, quando as ruínas são polifônicas
uma senhora agora emerge como uma onda e revisa a mercadoria
é a senhora X. enfurecida pelos tecidos que deixamos para ela,
ouvimos — ainda ouvimos: “toda mercadoria é exportável,
lavável, flui pelos territórios sem problema;
mas isto são gaivotas machucadas, estragos
“toda mercadoria –diz– tem pele de mil sabores;
é transportável, privilégio, sedução e desejo”;
então achamos que, em vez de conjugações,
unidades, questionários, fazemos tapetes de Aladim
agora a sra. X. monta em uma máquina
que a corrompe mas ela se diverte imensamente,
de lá pega cada produto como se fosse
uma capa vermelha, e com eles toureia a concorrência

 

[questionário rejeitado]

quais ruas não levam
às direções esperadas?
por que uma face nunca é
a face de algo, mas algo
similar a uma folha cubista?
por que um nome próprio
não é comparável a um chapéu?
e se alguém perde o nome ao cumprimentar — ao escrever?
o que se pode inferir deste dia/mês/ano? (não olhe para o céu)
o que se pode inferir de que não é necessário
cavar no silêncio para cheirar crimes diários?
quais são as visões de três jovens bêbados
se a conversa deles entrasse por uma janela da sua casa?
é possível viver incendiada e não cometer delitos?
o que é a cultura?* / quem ama um rádio ainda vive?
o que se pode inferir de que milhares de fervorosas
querem ser presidentas
de seu espaço e guerra? / e se suas armas são sua vida?**
o que as pessoas devem fazer com os antepassados e o céu?
(conecte ambos os períodos de maneira argumentativa)
saber é o mesmo que se movimentar
“pertinentemente” entre seres e coisas?
segundo o texto acima, que
palavra é a mais adequada para trocar
o substantivo destacado desta frase:
“como se a vida o abandonasse lentamente
com o último sopro do ar”?
por que o silêncio sempre arrasa tudo
como a última palavra régia e incerta?
a quem pertence o silêncio?
é possível viver incendiada e cometer delitos em silêncio?
é possível viver incendiada e não comer delitos em silêncio?
é possível viver incendiada e não honrar alguns delitos? (…)

* Macabea.
** E. Hernández.

é que se (todo o ouro em ouvir)

é que a manhã não entrega um caminho
é que o vento não orienta em declives
é que os pais só tecem o abandono
é que ninguém se preparou
para receber as ondas do solo e o incerto
é que o silêncio o fogo e o rio
aí dentro nas suas costelas empurrando
é a única força para fazer árvores
com que se defender das armadilhas próprias e dos outros
é atravessar paisagens incríveis e sinuosas
levando o desejo como um favo sobre a saia
augurando rachaduras e cartas indecifráveis feitas de sopros
é fazer arder o que se arrasta e queima
é enviar lembranças a cada coisa
é lamber cascas como um cão
é ouvir o fogo o rio e as ondas
que sabem da altura do solo e o incerto

sonatina do outro de costas

Da mão do vento
rodeada por luzes e flores presunçosas
vai com uma sonatina boliviana
na metade da costela e na outra
se deixa nutrir por fuzilados e avalanches
Vai com a boca da recém-nascida
que corre para chupar um céu de edifícios
vai a flor de pele com os ressecados pais
pregados à sua grossa saia que varre o chão
Vai analfabeta do nome das ruas
às ruas negras com verniz de sempre-vivas
vai bordar a Constelação do Desamparo
a partir de umas verduras e seus temporários
Não há retorno, Deus, nem costela mágica:
já era uma trabalhadora rural maquiada
que se fez astronauta ao passar a fronteira
já era uma pastorazinha de fala entremeada
uns sonhos como panos jogados em um Mar
já era um já era um já era um já era
…………. e um horário sem Sol
já era um já era um já era um já era
…………. e uma infecção de Rosas
sinistras e em Cobre (coleções de estrelas, inverno e uivos)

AHORA VOY ABIERTA Y FUGAZ

 

Publicação original

La lengua en desajuste de emma villazon

Clinamen é um projeto de divulgação da produção poética contemporânea, criado por Manuel Ramos Van Dick e Victor Vimos. Capitu é parceira dessa iniciativa.

Tradução

Adriana Silva é mestre em literatura hispano-americana pela Universidade de São Paulo (USP), com estância na Universidad Nacional Autónoma de México. Escreve.

Monica Marques é poeta e formada em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Em 2016 publicou Transversais pela Editora Patuá. Tem poemas publicados em diversas revistas literárias. Escreve em blog Instante Inacabado e no facebook. É parte da comissão editorial da revista Maquiavel e participa do Coletivo Não Lugar.

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