Esquerda Hoje é uma série de entrevistas sobre os rumos e a identidade da esquerda brasileira.

Marcia Tiburi é bacharela, mestra e doutora em filosofia, autora de, entre outros livros, Como Conversar com um fascista — Reflexões sobre o Cotidiano Autoritário Brasileiro (2015). É também colunista da revista Cult.

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O que significa ser de esquerda?

O significante “esquerda” esteve durante muito tempo fora de questão, era como se seu significado tivesse sido esgotado. Voltou há pouco tempo para o nosso imaginário e quando isso acontece precisamos entender o que ele pode significar para as pessoas, que usos as pessoas fazem dessa expressão. O que se chamava de esquerda na época da revolução francesa — os que sentavam à esquerda do imperador e se opunham ao velho regime — , o que se chamou de esquerda no século 19 ou o que veio a ser a esquerda nos anos 1960 pelo mundo afora, é diferente do que chamamos hoje em dia, em pleno 2016. De qualquer modo, o que existe de comum é a luta contra a desigualdade e a exploração das pessoas. Essa luta se dá de diversas formas, de modo que podemos dizer que a esquerda é, genericamente, muito mais ampla do que imaginamos, pois há muitas pessoas e grupos em luta. Creio que os significantes fazem sentido dentro de jogos de linguagem. No caso atual, podemos falar de esquerda para definir essa luta, mas é preciso lembrar aspectos específicos das lutas contemporâneas que mudam o sentido do que chamamos de esquerda hoje. Em função do uso atual do significante podemos associá-lo à luta anti-racista, anti-homofóbica, anti-manicomial, ao ativismo dos sem terra, dos sem teto, ao ativismo anticorporativo, ecologista, feminista, ao pensamento crítico. Nesse sentido genérico esquerda é uma postura ampla de crítica do sistema social, econômico e político com vistas à defesa de direitos fundamentais tendo em vista raça, gênero, classe social e outros marcadores de diferenças.

No que a esquerda precisa mudar hoje?

Se pensamos que a esquerda é uma postura, é preciso intensificar suas propostas. Se pensamos que se trata de um contingente populacional, é preciso sair do armário. Digamos que as pessoas podem assumir-se de esquerda. Nesse momento, não assumir é uma covardia, compreensível, aliás, em tempos autoritários. Há pessoas que têm medo de lutar.

Em que momento está o partidA [projeto de partido lançado por Marcia], como está se desenvolvendo?

A partidA cresce pelo Brasil afora. Trata-se de um movimento que funciona como partido. Anárquico, sem líder, sem hierarquia, pensamos que, hoje em dia, somos uma espécie de partido clandestino. Somos de algum modo suprapartidárias. Ocupamos partidos atualmente, fazemos campanhas de filiação entre nós e estimulamos as candidaturas. Nossa intenção não é apenas ser um partido para mulheres ou de mulheres. Antes, queremos ser um partido feminista, com uma proposta de democracia radical, ou seja, uma democracia feminista interseccional, que respeite e lute no âmbito da questão racial e de classes também, além do gênero. Talvez venhamos a ser partido algum dia, mas a resposta a essa pergunta não está na linha das nossas urgências. Urgente para nós é lutar contra a desigualdade de maneira direta estimulando também a formação de mulheres para a política. É nisso que trabalhamos hoje, além de estimular campanhas. Atualmente há várias candidatas em partidos tradicionais que são candidatas da partidA. A própria Luiza Erundina, em São Paulo, e Luciana Boiteux, no Rio, são partidA. Há várias candidatas a vereadoras que fazem parte e defendem as propostas básicas da partidA: direitos fundamentais, reformas de base, educação como projeto de país e toda a pauta dos direitos das mulheres voltados ao fim das desigualdades sociais.

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