O mundo reduzido à empresa, a subjetividade reduzida à função

O Livro dos Mandarins (2009), é, suponho eu, o livro de Ricardo Lísias que melhor reproduz as relações interpessoais em nosso turbulento século XXI. O enredo acompanha a busca do executivo bancário Paulo — um empresário semelhante aos que neste 2016 vão sendo elencados em escândalos políticos de esferas federais, estaduais e municipais — por ascensão profissional. Não se trata, contudo, de mera crônica empresarial: sua narrativa remete ao humor crítico das tiras de Dilbert e exibe uma visão de mundo kafkaniana: a sujeição do indivíduo sob poderes burocráticos, corporativos, institucionais.

Estamos em 2003, Paulo é gerente de um banco multinacional. Para obter sucesso na carreira, aposta na expansão econômica chinesa. Portanto, forma-se o profissional ideal para atuar naquele país: estuda a língua e a cultura chinesa, lê as obras do líder comunista Mao Tsé-Tung e redige milhares de relatórios e artigos sobre as finanças do Tigre Asiático. Além disso, aplica no seu setor os mais diversos preceitos da gestão de pessoas.

Sua atuação consegue despertar a atenção de seus superiores e ele é mandado ao Reino Unido para um treinamento relativo aos planos de expansão do banco na China. Lá, todavia, recebe um trabalho especial do CEO do banco: o de realizar análises econômicas e parcerias políticas semelhantes às que ele fazia sobre a China, agora, porém, no Sudão. No país, além de atuar brilhantemente, Paulo faz amizades, tem affaires e enfim, volta ao Brasil, onde abre um sítio-empresa com cursos de coaching e com uma exclusiva massagem chinesa feitas por suas amigas sudanesas — massagem essa que faz muito mais sucesso que os cursos.

Colocada a trama, podemos seguir em frente.

Corrupção Linguística e Semântica, Moral e Ética

O romance de Lísias poderia ser mais uma dessas muitas obras da literatura de coaching motivacional pelos precisos elementos que fazem dele tão verossímil: Paulo é um ideólogo que pontua sua narrativa com comentários políticos, econômicos e logísticos sobre o que fez sua história ser um “case de sucesso” (como diriam alguns empresários). Ele nos explica como devemos lidar com funcionárias emocionalmente instáveis e com colegas de trabalho imorais; apresenta visões econômicas sobre o Brasil e o mundo; comenta sobre o futuro econômico global; cita bibliografias adicionais (“o grande sociólogo” FHC e o Grande Timoneiro, Mao Tsé-Tung).

Entretanto, O Livro dos Mandarins é uma afinada sátira que aponta o mundo atual como uma grande corporação. A começar pela personagem Paulo, cuja vida tem como mote o crescimento na empresa e cujas relações interpessoais são submetidas aos critérios do sucesso profissional. Sua mãe, em alguma cidade do interior paulista, morre sozinha em casa e o que Paulo, no Sudão, faz? Pede que sua namorada, no Brasil, cuide do enterro e venda a casa. Sua namorada, por sua vez, é psicóloga do banco em que ele trabalha e corre risco de demissão; o que ele faz? Nada.

Aqueles com quem ele convive só podem ocupar uma de três posições de poder: “amigos”, antagonistas ou… sudaneses. Ainda mais, sua existência é generalizada — como n’O Processo, de Kafka — ao extremo: não têm nomes. Para Paulo, as outras pessoas não têm qualquer importância enquanto seres individuais, e, sim, enquanto peças no seu jogo de poder, logo, não precisam de um nome, senão um que relacione elas com ele:

1. Seus “amigos” e familiares são meros acessórios, projeções de sua pessoa — Paulos e Paulas e alguns devidamente adaptados para Paul ou Pablo.

2. Seu antagonista é apenas um, e, por isso, aquele que não pode ser um Paulo — é o Godói (quase sempre anteposto à alcunha de “filho da puta”).

3. Os sudaneses, por sua vez, são emblemáticos e, por vezes, ambíguos — recebem um único nome, aquele que os mais versados em ciências políticas logo associarão ao Sudão: Omar Hassan Ahmad al-Bashir (o nome do ditador dessa nação africana desde 1989). Para Paulo, todos os homens são Omar Hassan e todas as mulheres são Salma (talvez, por conta da cantora Salma el Assal, a mais famosa daquele país). Essa categoria se transforma após a fundação do sítio de coaching de Paulo: os homens se tornam Lin San San e Lin San Sin, e as mulheres Liu Xan, Liu Xun, Liu Xin.

O trabalho linguístico de Lísias começa pelo nome das personagens, da mesma forma que a alteridade das pessoas começa pelo nome; ao ignorar esse momento da alteridade, o que Paulo faz é reduzir a individualidade das demais personagens. Se no romance de Kafka a personagem recebe, ao menos, um sobrenome, no de Lísias, nem mesmo isso: é Paulo Paulo, o nome de nosso protagonista; Paulo Paulo, filho de dona Paula, noivo de Paula… Ainda mais, o nome de um ou de outro não lhe importa tanto, na medida em que basta um predicado para que ele os defina: o poeta Paulo, a secretária Paula, o gerente Paulo, o presidente Paul… Para ele, assim, nem a sua história, nem as suas redes de contatos, nem os seus amigos — nada têm importância senão a sua posição no mundo e seu poder de alterar o mundo.

O único que recebe alguma qualidade é ele próprio, Paulo Paulo, que, por vezes, recebe outras denominações, como “Paul*” (quando seu nome recebe uma estrela de destaque na agenda de um dos gerentes), “Belé” (quando ele vai jogar futebol com os sudaneses — referência, claro, ao nosso futebolista) ou “o grande escritor” (quando ele começa a redigir seu livro)… O romance de Lísias, nesse sentido, nos lembra que a retórica é, acima de tudo, um recurso da linguagem que modifica a percepção do mundo. Para um exemplo simples disto, basta que pensemos nos trechos do romance em chinês ou árabe (sem tradução) — eu não sei o que está sendo dito lá; perdi uma informação, um âmbito daquela realidade fictícia a qual eu lia.

Na sua vida profissional, Paulo altera a realidade a seu bel prazer. Em seu sítio de coaching, como dissemos, os sudaneses ganham outro nome — um nome “chinês”; o ato sexual com sudanesas genitalmente mutiladas é nomeado como “massagem tradicional chinesa” — o oferecimento desse serviço a quem compra o pacote completo dá destaque ao seu MBA.

Muitas formas de corrupção são notadas na vida de Paulo, e aqui penso a palavra para além da política ou da economia. Há uma verdadeira corrupção linguística e semântica, moral e ética, por Paulo, na forma como ele trata seus negócios e sua ascensão enquanto empresário e indivíduo. Paulo corrompe as relações interpessoais com sua mãe e sua noiva, corrompe a noção precisa de sua localização geográfica (estando no Sudão, mas por vezes referindo-se ao país como se estivesse na China), corrompe a individualidade das demais personagens (renomear os sudaneses com um nome chinês ou a forçar a mutilação genital de uma funcionária).

Sua narrativa até mesmo corrompe o foco narrativo tradicional. Lembremos que Paulo afirma, em suas reflexões pessoais, que pretende escrever um livro sobre sua ascensão empresarial. Um livro chamado justamente O Livro dos Mandarins. O romance é narrado em terceira pessoa; entretanto, o narrador nos permite o acesso à mente de outras personagens (como do executivo escocês Paul, que por vezes ataca o executivo brasileiro, ou dos sudaneses). Contudo, cabe nos perguntarmos se essa narração não é apenas outra autorreferencialização de Paulo do mundo a sua volta. Pois ele escreve um livro sobre sua jornada, mas não o faz sozinho — escreve com a autoria virtual de seu cunhado, o poeta Paulo — de maneira que o problema da narrativa decaí (dentro das bordas ficcionais do romance) sobre os limites entre a realidade e a ficção na vida de Paulo, o executivo. Não sabemos, absolutamente, o que ele escreveu, o que o poeta escreveu e, dentro dessas escritas, o que de fato aconteceu.

Esse mosaico de vozes confere vivacidade e personalidade às personagens. Também é possível identificar por esse caminho um profundo tom psicanalítico do romance de Lísias: trata-se de um traço perene em sua produção; o próprio autor afirmou em uma entrevista que Freud e Lacan foram autores importantes em sua formação. Essa constatação dá, dessa maneira, mais força para o romance no que concerne às frágeis fronteiras entre a realidade e a ficção (e entre a realidade interna e a ficção interna do romance). E, exatamente por ser tão vivaz o espectro do egocentrismo e da generalização, O Livro dos Mandarins, sete anos após sua publicação é, nesse momento, uma obra basilar para discutirmos sobre nossos dias.

Os Perigos da Linguagem Hoje

Segregar os indivíduos em grupos de afinidades próximas, contudo, desconsiderando suas opções individuais. Idolatrar cegamente a figura de um ou dois líderes políticos, alçando-os a teóricos absolutos de uma verve político-econômica. Reduzir as relações interpessoais a estritamente pragmáticas e trabalhistas. Usar eufemismos para se referir a pessoas e a operações comerciais.

Esses são alguns dos processos estilísticos que Lísias utiliza para construir essa figura patética e odiosa que é Paulo Paulo. São esses aspectos que Paulo utiliza para reger a sua vida pessoal e profissional, o que, nesse caso, é uma única. Paulo é um empresário que encara a existência como uma grande empresa na qual ele quer assumir o posto de CEO. É uma personagem egoísta no mais puro sentido da palavra — faz com que a existência toda gire em torno de sua vontade. Nesse sentido, é quase como o psicótico Jordan Belfort, do filme O Lobo de Wall Street, ou, ainda, como as personagens da peça/filme Sucesso a Qualquer Preço, de David Mamet: pessoas que precisam atingir metas, e precisam fazê-lo sobressaindo-se em relação aos seus pares. Não basta, para Paulo, Jordan ou os vendedores de Mamet, cumprir seus objetivos — e sim, cumprir melhor que os demais, mesmo que isso signifique agir de forma amoral e antiética.

Nada muito diferente do que vem acontecendo com o mundo nos últimos anos, seja no centro, na direita ou na esquerda. Os diversos vieses vêm sendo divididos em categorias fixas e os participantes delas são taxados imutavelmente como de uma ou de outra. Muitos transtornos sociais e teses ideológicas como a xenofobia, o nacionalismo e o belicismo têm ganhado espaço em plataformas políticas de países de todos os continentes. Acontece, contudo, que tais discursos não são colocados de forma tão explícita.

A mentalidade corporativista neoliberal tem justificado todos esses retrocessos e, da mesma maneira que Paulo Paulo, usa de muitos eufemismos para justificar atos bárbaros. Em nome de uma necessidade (real) de reestabelecer sua economia interna, muitos países vêm optando por estratégias econômicas que ressaltam o indivíduo na relação produtor-consumidor, desconsiderando-o enquanto um sujeito com muitas peculiaridades sociais e psicológicas, assim, abrindo espaço para políticos socialmente conservadores e economicamente liberais ganharem força. Em nome, enfim, do deus-mamon, tem se aceitado a ascensão de certas correntes inadmissíveis se queremos pensar o futuro da humanidade de forma justa. E isso não é exclusividade brasileira, visto a popularidade de Trump nos Estados Unidos, ou de Le Pen na França.

Notar o mundo como uma grande empresa talvez seja uma concepção existencial que já exista desde Kafka ou Dostoievsky, porém n’O Livro dos Mandarins essa visão está mais explícita e, para nosso assombro, mais presente. O humor negro do livro, em uma primeira leitura, pode causar alguma graça, como causa quando lembramos, por exemplo, do líder soviético Nikita Kruschev batendo o sapato na mesa em assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU), ou o ex-presidente Jânio Quadros posando como alcoólatra espirituoso; porém, aponta, como toda grande obra com humor sardônico, para um problema real de nossos dias: o fato de que por todo mundo existem muitos Paulos, extremamente egoístas, cada qual buscando ser o CEO de sua vida, e, para tanto, não medindo esforços.

Nesse momento, quando ganha força a retórica para justificar atos psicopáticos, talvez seja melhor que comecemos a nos perguntar dos perigos da linguagem. A vida não é uma empresa — todavia, estamos encarando-a como tal; essa, talvez, seja o grande lição de O Livro dos Mandarins.

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