A visão que temos do outro é parcial e determinada pelo que somos

imagem: Wittgenstein por Gary Michael

O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, no livro Movimentos de Pensamento – Diários de 1930-36/1936-37, descreve os indivíduos de uma maneira particular:

Às vezes imagino as pessoas como esferas: uma feita totalmente de ouro puro, a outra de uma camada de material sem valor e ouro por baixo; a terceira de um douramento aparente mas falso e ouro por baixo. Novamente uma em que há lixo sob o douramento & uma em que há um grãozinho de ouro puro nesse lixo. Etc. etc.

Creio que eu deva ser do último tipo de esfera.

Mas como é difícil julgar uma pessoa desse tipo. Descobrimos que a primeira camada é falsa & dizemos: ‘essa pessoa não vale nada’, pois ninguém acredita que possa haver ouro puro com falso douramento. Ou então encontramos o lixo sob o falso douramento & dizemos: ‘Naturalmente! Isso era de se esperar’. Mas é difícil presumir que então deva haver ainda ouro de verdade nesse lixo.

Em suma, essa ‘teoria’ implica dizer que o modo como nos aproximamos dos outros é parcial, que nossas conclusões imediatas a respeito deles são limitadas. Acessamos o conjunto de características que se nos apresenta primeiro; e não avançamos o suficiente para saber o que há além dele. O filósofo também diz:

Ao viajar posso observar um fenômeno que me é extraordinariamente característico: a não ser que as pessoas me causem uma impressão especial, em função de sua aparência ou de seu comportamento, eu as julgo inferiores a mim: isso significa que eu estaria inclinado a utilizar as palavras ‘comum’, ‘alguém da massa’ & coisas do gênero ao falar delas. Talvez eu não dissesse isso, mas o olhar que eu lhes dirigiria inicialmente o diria. Já há um julgamento nesse olhar. Um julgamento totalmente infundado & injusto. E que também seria injusto se a pessoa, após um contato mais próximo, se mostrasse realmente muito comum, isto é, muito superficial. Certamente sou singular em muitas coisas & por isso, muitas pessoas se comportam de maneira comum quando comparadas comigo; mas em que consiste minha singularidade?

Aqui, não só as impressões são parciais como a sua significação é dada relativamente ao sujeito que as vê; é do ponto de vista da sua personalidade que o indivíduo descreve tal aspecto como ouro puro, ou como ouro falso, ou como lixo. A análise de Wittgenstein segue no sentido de que essa personalidade, mesmo que capaz de atos notáveis (‘singularidade’), não é jamais um fundamento sólido: as importâncias em que cremos são produtos de necessidades particulares.

Isso se torna especialmente claro nessa passagem:

Quem tem de lutar contra (nuvens de) mosquitos acha uma coisa importante ter afugentado alguns deles. Mas isso é totalmente insignificante para aquele que nada tem a ver com mosquitos. Quando resolvo questões filósoficas tenho a sensação de haver feito algo extremamente importante para toda a humanidade & não penso que as coisas me parecem tremendamente importantes (ou devo dizer: me são importantes) porque sou atormentado por elas.

A relação interpessoal, portanto, deve se basear em uma espécie de humildade: a visão que temos do outro não é só difusa e enganosa como determinada pelo que somos. (Talvez seja por isso que, em vários momentos do livro, Wittgenstein faça referência ao problema da vaidade: ‘Sujo tudo com minha vaidade’, ele diz.) Tudo se passa como se se invertesse o verso de Rimbaud: aqui, o outro é um eu.

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