Existe uma rivalidade tácita e secular entre poesia e filosofia. O Indiae busillis sempre foi saber qual delas efetivamente tem mais poder de conceber e transmitir sabedoria. Filósofos (ou poetas com alma de filósofo) de tempos em tempos elaboram ensaios a esse respeito, por isso a filosofia geralmente se sai vitoriosa; mas a verborragia nesse caso apenas torna o assunto mais ambíguo, já que a incerteza é ato litúrgico do ofício especulativo. Um poeta de fato que aceite adentrar esse debate, por sua vez, é tão raro quanto precipitação de neve em São Paulo.

Poesia e filosofia então são braços de um mesmo corpo, complementares e indissociáveis, embora o exercício da vanglória tenha sido concedido a apenas uma das mãos; se o poeta decidir altercar, terá de lutar na seara onde o adversário é mestre, usar as armas nas quais ele é exímio, dado que um poema-manifesto não seria boa solução. Muito se discute, tanto se inventa. Faz-se mister, portanto, a ponderação do terceiro campo de conhecimento da tríade assinalada por Francis Bacon, a memória. Se iluminarmos os quadrantes do espectro imexível da História em que poesia e filosofia transbordaram do reservatório e atingiram a vida prática, poderemos analisar então os seus efeitos, e assim distribuir com mais justeza os louvores e as honras que cabem a cada qual.

Bacon dividiu os campos de conhecimento em três níveis: imaginação (poesia), memória (história) e razão (filosofia). Como que para não deixar dúvidas de que o terreno é movediço, mal Bacon rascunhou essa distinção e lá estavam os franceses a tentar envenená-la, apontando o equívoco de se dar à razão menos louros do que ela supostamente mereceria. Mas se apelarmos para o testemunho da História, ver-se-á que essa razão laicizada e obsessiva promovida por Diderot e D’Alembert foi um dos nascedouros da histeria que culminou com o Terror de 1793. (A nota irônica é que a dificuldade com a redação do verbete sobre a moral pode ser tomada como um sintoma eloquente nesse sentido.)

Mas a menção a Bacon pode escandalizar: justo ele que tratou com tanto desdém a arte dramática etc. O escândalo nesse caso é fruto de certo exagero, certa mistificação que decorre de uma má interpretação da Teoria dos Ídolos. Os chamados “ídolos do teatro” a quem Bacon quer desancar não são senão os gregos antigos; seus sistemas seriam “puras invenções”, feito peças de teatro. Não são as peças em si, portanto, as vítimas de seu rancor. Em Da Proficiência, Bacon sintetiza com argúcia sua insensível sensibilidade: “Quando se tratar da expressão de afeições, paixões, vícios e costumes, contemplemos antes as obras dos poetas que as dos filósofos. E quando se tratar de espírito e eloquência, devemos contemplá-las em pé de igualdade com as arengas dos oradores. Mas não é bom permanecer tempo demais nesse teatro”.

É sabido que a filosofia consiste numa escavação contínua em busca do magma do sentido. As direções da escavação vão mudando conforme os insucessos, a pá vai sendo repassada de mão em mão; cada filósofo deve necessariamente refutar aqueles que o precederam, seja no mérito, seja nos pormenores (uma vez que o ouro não foi encontrado; houvesse concordância total, não se trataria de um filósofo, mas sim de um divulgador); cotejos são feitos entre antigos e novos conceitos, depois corta-se a história em períodos, como ela fosse um rabanete; apontam-se enfim os chamados “cortes epistemológicos”. Ao fim e ao cabo e para todos os efeitos, o produto nunca é entregue. Mas não se pense que estou aqui a subscrever uma imprecação contra a filosofia, evidentemente; poesia e filosofia servem ao saber, e toda oposição aqui será feita à moda dos ingleses: oposição de Sua Majestade. De resto, convém atentar para o fato notório de que a História não terminou; sabe-se lá o que as novas escavações vão encontrar.

Que a História atesta que a práxis filosófica quando tenta explicar o mundo e interferir diretamente em seu funcionamento torna-se perigosa e contraproducente, todavia, é fato incontestável. Tantas vezes tentou-se consertar o mundo, mas o que conseguiram foi apenas embaraçá-lo ainda mais, com nós que ainda levarão séculos para serem desatados. A dimensão do estrago depende sobretudo do talento do libertador da humanidade – e em geral, quanto maior o equívoco, maior o talento para promovê-lo. Em comum, todos esses seres bondosos enxergam na práxis uma forma de “mudar a História”, de sobrepor a razão a tudo, exatamente como queriam os enciclopedistas. Avança-se, porém, para uma concepção mais radical: de que a História não tem protagonistas, não tem rosto; é apenas uma velha luta de estamentos. Sendo o ponto de partida a premissa de que a História não tem rosto, e se considerarmos que tantos fizeram questão de trombetear essa tese, infere-se que todos tencionavam mesmo imprimir à História seus próprios rostos. Fazer dela uma espécie de Monte Rushmore.

Para além dessas mixórdias, do bojo das hostes filosóficas também causa espécie o excêntrico conceito de filosofema. Faz supor a filosofia inteira em termos kantianos: a filosofia fenomênica, capturada e imortalizada no formato de textos; e a filosofia em si, acessível apenas ao filósofo, condenada a perecer com ele. Houve na literatura um J.D. Salinger, sujeito que enxergava a própria obra como revelação íntima, acessível e digna em toda sua inteireza somente a si; ofereceu aos outros uma bazófia, um punhado de migalhas miseráveis em comparação ao suposto tesouro guardado em seu interior (havia avareza mesmo em relação a esses restos). Na filosofia, pois, todos são J.D. Salinger. Os livros filosóficos seriam meros fragmentos da grande verdade contemplada exclusivamente pelo filósofo. No geral, tudo gira em redor de uma palavrinha-chave: metafísica. E quem foi que conseguiu domá-la, afinal de contas? Mas faz-se necessário aqui outro recuo: bazófia genuína é querer relativizar o valor inexaurível das gemas de um Aristóteles, de um Platão… Conquanto, é verdade, haja espaço para humilíssimas objeções. Especialmente em relação às reprimendas que a filosofia tem aplicado à poesia ao longo dos séculos. Platão, nesse quadrante, vem muito bem a calhar.

Tal como Santo Agostinho nas Confissões, Platão lidava muito mal com a função estética. Misturava alhos com bugalhos e achava que aquilo que serve para educar e encaminhar à formação do sentimento moral se confunde com ou substitui o objeto artístico, o qual jamais é perfeito se não é fidedigno a toda e cada nuance da alma, em seus cimos e seus baixios. Aristóteles é quem ilumina o debate com sobriedade, como de costume, inferindo os conceitos de mimese e de catarse. Com picardia impagável, anotou que seu antigo mestre seria o primeiro enxotado de sua própria República. É bela e pertinente a teoria de que a democracia ateniense degringolou a partir das mudanças nas regras da música e do teatro; de que tais artes teriam deixado de ter função educativa para virar instrumento de bajulação do povo, redundando na perda do medo e do respeito por parte dos cidadãos; de que, com esse processo, a vontade arbitrária da multidão teria passado a ditar a regra. Mas se por um lado é preciso evitar o populismo, quão rebaixada seria a arte composta exclusivamente de Moralidades! Recorrendo outra vez à História, é de se perguntar o que Santo Agostinho, que desanca tanto Homero, teria a dizer, por exemplo, de uma Divina Comédia.

Círculos filosóficos puritanos costumam hostilizar Nietzsche apontando incoerências e contradições ao longo de sua obra. Acusam-no principalmente de “ser poeta”. Filósofo genuíno seria aquele que desenvolve pensamentos em linha reta para jamais precisar retificar-se. Não é próprio do sábio mudar de opinião? Já Kant vai dizer na Logik que há uma capacidade de aprendizado no produto oriundo do gênio cartesiano, isto é, existe a possibilidade de se refazer o percurso, algo que não se observa na arte. Há quem diga ainda mais: que o essencial de um artista está em duas ou três de suas obras; do filósofo, a obra inteira seria fundamental. Vanglória… Ora, se o diálogo do filósofo é com o ser e ele precisa se isolar para sondar seus próprios assombros, se seu calvário o torna solitário, distanciando-o amplamente da popularidade de que goza o poeta, por outro lado seus escritos – devidamente publicados – dão prova de que ele quer sim algo mais: tal como o poeta, ele também está interessado na glória. Do contrário, seguiria o exemplo de Sócrates e nada deixaria de escrito, arriscando-se assim a ter seu legado completamente extirpado da história da humanidade. Mas o que vemos ao longo dos séculos são filósofos prolixos e buliçosos a ostentar seus filosofemas. E se existe a possibilidade de um iniciado refazer o trajeto em meio ao labirinto, é certo que ele pode cometer equívocos nesse processo, desvirtuando parcial ou inteiramente o que se tinha antes, ensejando do subjetivismo os piores desdobramentos – veja-se o que Marx fez da filosofia de Hegel. A História atesta: nos últimos quatro séculos, de equívoco em equívoco, a filosofia tem sistematicamente envenenado o progresso humano.

E, de mais a mais, nunca entrega aquilo que tanto promete – seja para o distinto público, seja para os de sua confraria: a metafísica passada na manteiga. Entre poesia e filosofia, a vida moderna tem optado pelas emoções ligeiras das novelas de TV, ou pelas redes sociais, mas o discurso poético é sem dúvida mais eficaz, e Bacon concorda, quando o assunto é espírito e eloquência. Através da construção de um personagem cínico, o free rider entre nós, a poesia é capaz de demonstrar a impossibilidade de um mundo igualitário com muito mais eficiência do que a filosofia inteira de um Edmund Burke – ainda que ela seja gloriosa! Ao evidenciar o aspecto ridículo e perigoso de um personagem amoral, um romance tem a capacidade de expor as trevas do niilismo com muito mais habilidade do que toda a ética kantiana. São raros os que consomem literatura com vistas a identificar e entender essas teses, mas é fato que o ser está lá, a natureza humana crua, pronta para ser digerida pelo mais simplório dos leitores. Se não é para elevar a humanidade, para quê investigar o ser? Se não é por glória, por que fazer questão de registrar as próprias hipóteses escrevendo-as? Mas talvez seja melhor, neste encerramento, recorrer outra vez aos panos quentes, com o cedimento de um possível corolário: se a poesia tem mais poder de despertar sabedoria, não é que seja ruim permanecer tempo demais nesse teatro: sucede que é preciso mais. É a filosofia, quando nobre, que tem o condão de expandir e burilar essa busca, como um mar que se descortina após o regresso à Ítaca.

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