Martin Santos oferece um texto complexo em que se escondem influências de outras artes, além de uma grande bagagem literária e filosófica

Comemora-se 50 anos do nascimento de um novo acento na literatura de língua espanhola. Não só o começo da década de 1960 é tido como marco do início da produção das maiores obras literárias latino-americanas como entre os lançamentos da época está também um livro essencial para a literatura moderna da Espanha, Tiempo de Silencio (1964), de Luis Martin Santos.

Diferente do que se pode pensar com a imposição de marcos e datas festivas que tentam demarcar um ponto inaugural e o ponto derradeiro na linha cronológica da literatura, o romance, enquanto gênero literário, vem experimentando, como um torvelinho desprendido do grande furacão da arte, diferentes terras no mundo da literatura. Os terrenos são percorridos por escritores ávidos por apreender em palavras o seu tempo, os seus pensamentos, os seus deuses. Muitos rodopiaram por terras planas, em estradas retas e monótonas, mas, em muitas outras ocasiões, as inovações das depressões das terras literárias surpreenderam o romance. Este é o caso das obras delimitadas pelo termo “boom latino-americano” e, também, da obra do espanhol Martin Santos. O nosso torvelinho, na época em que o mundo se encantava com a literatura americana, não hesitou em espalhar seus ventos por terras de além-mar, de onde soprou pela primeira vez.

As “inaugurações” literárias, novas escolas, forçadas rupturas de uma imaginária linha cronológica, carregam consigo, em forma de destroços ou de cristais idealizados, a tradição literária que as antecede, mesmo que discorram em incitantes manifestos a ruptura com a tradição. O que a ruptura sinaliza é o surgimento de estratégias criativas e experimentalistas na composição do romance, fazendo-o sempre respirar daqueles ventos que são a sua essência. Já diria T.S. Eliot que “o sentido histórico compele um homem a escrever não apenas como sua própria geração, mas com a sensação de que toda a literatura da Europa, desde Homero à literatura de seu próprio país, tem existência simultânea, e compõe uma ordem simultânea”. A literatura acontece de uma só vez. O grande escritor casa sua capacidade de inventividade com estes ventos que o rodeiam para que se produza sua nova obra: uma torcida no cone dos ventos seculares da literatura. É o que Luis Martin Santos faz em nosso livro.

Espiral de palavras em Tiempo de Silencio

A narrativa de Tiempo de Silencio dobra a tradição realista das obras que imediatamente a antecede, conhecidas por denunciarem a decadência da sociedade espanhola durante a guerra civil (1936 – 1939) e no posterior governo de Franco que se estendeu por quatro décadas. O único livro do escritor e psiquiatra, que morreu precocemente em um atropelamento e não pode terminar seu segundo romance, Tiempo de Destrucción, está munido de estratégias que transformam o relato social em uma grande obra inovadora. Seu retrato da sociedade espanhola se faz com pinceladas de uma escrita expressionista que mesclam os sujeitos narrativos, fragmentam os sucessivos episódios, criando a espiral que desafia o leitor. Ler Tiempo de Silencio é tarefa árdua, como a matéria do próprio romance.

Pedro é um jovem médico-investigador que pesquisa a rotina de ratos com câncer vindos de Illinois, Estados Unidos, a fim de comprovar a procedência virótica da doença, desmentindo a disseminada teoria de sua procedência genética. Acompanhado por seu ajudante de laboratório, Amador, Pedro recorre às chabolas, o equivalente à favela na Espanha, para repor, com os ratos de um criador, sua prole de ratos que se esgota. É desta forma que se estabelece a rápida, mas decisiva, relação de Pedro com a família de Muecas. Criador dos ratos, Muecas vive em uma apertada chabola, onde violenta a própria filha, Florita, que acaba engravidando. Após um aborto induzido, a moça definha em uma hemorragia e Muecas recorre a Pedro para tentar salvá-la. A moça acaba falecendo e Pedro passa a ser criminalmente responsabilizado pela realização do aborto ilegal.

Diante do enredo neo-naturalista trabalha uma linguagem refinada, que faz de si espiral em que rodopiam alusões a outras obras literárias e a elementos da arte pictórica. O torvelinho das letras de Martin Santos é braço da arte, não apenas da tradição literária. A contaminação da escrita pelas artes visuais é explicitamente marcada com a presença de quadros com os quais os personagens se deparam. A pintura El aquelarre de Goya é apresentada a Pedro pelo seu amigo Matías, membro da alta sociedade e quem possui o quadro em seu quarto. A impressão que essa pintura causa no protagonista faz transbordar as tintas da moldura do quadro para as palavras do romance. As características de alguns personagens da narrativa dialogam com os personagens da pintura, as cores da pintura se derramam sobre os personagens da narrativa e as semióticas de uma e outra forma de representação se mesclam.

Parodiando Ortega y Gasset, quem atribuía à má descendência do sangue espanhol a decadência dessa sociedade no pós-guerra, Martin Santos demonstra sua preocupação em também identificar as causas que levam o país ao câncer da desolação. Diferente do filósofo, porém, não chega a uma resposta simplista e racista, mas apresenta um caminho emaranhado, virótico, em que a linguagem se contamina e culmina na palavra infértil. Infértil também acaba o próprio médico. Pedro não vê sucesso em sua pesquisa e acaba perdendo sua bolsa devido ao envolvimento no aborto, pelo qual é preso e depois solto com a retirada da queixa pela mãe da vítima. Sua admiradora, Dorita, a mais nova das gerações de mulheres da pensão em que vive, é assassinada pelo namorado de Florita, quem acredita que assim vingaria a morte da moça. Ao médico resta a autopunição com a castração. O bode representado na pintura de Goya é o símbolo de uma ilusão, a grande figura masculina da fertilidade está fatalmente contaminada em Tiempo de Silencio. Não é uma raça em específico, mas toda a sociedade espanhola que padece daquele câncer.

O vírus da linhagem franquista

O passeio pelas várias classes sociais espanholas, desde o chabolismo, passando pela alta classe e pela classe média representada pelas donas da pensão em que vive Pedro, e onde conhece Dorita, sua admiradora, demonstra a doença da decadência que se esparrama, irradiando como o próprio vírus que o médico procurava. As mulheres da pensão representam três gerações de solteiras em situação semelhante a de várias mulheres espanholas na época. A avó de Dorita menciona o ato de celestinear a que se submete ao tentar casar a neta com o médico para sua ascensão social, em uma alusão à obra La Celestina, atribuída a Fernando Rojas do século XVI. Durante e após a guerra civil, muitos homens ou se refugiaram no exterior ou acabaram mortos, deixando suas famílias abandonadas e várias mulheres sem pretendentes (situação representada no filme Calle Mayor, 1956, de Juan Antonio Bardem, falecido tio do ator Javier Bardem).

Sobre essa disposição da sociedade espanhola está a visão binocular do médico que esmiúça, analisa e nomeia cientificamente o que vê. A dificuldade da leitura vem da verborragia do médico que nos oferece uma receita que não pode ser facilmente decifrada. As letras, ainda que impressas no livro, estão retorcidas. O resultado da investigação científica nunca se dará em meio ao soturno cenário que se erige: vê-se assomar o fracasso da ciência, como na tragédia fáustica. Porém, ao invés da descoberta do poder na figura demoníaca de Mefistófeles, o falo desmorona, o silêncio vence. Em Tiempo de Silencio, a castração é o único fim possível que se desenha para a sociedade franquista, uma sociedade sem magma, sem alma para vender a quem quer que fosse.

Martin Santos atualiza a literatura de seu país oferecendo um texto complexo em que se escondem influências de outras artes, além de uma grande bagagem literária e filosófica. Constrói imagens pictóricas imateriais, requerendo do leitor grande apreensão e deleitando-o com inevitável admiração. Trata-se de uma leitura indispensável para os interessados na literatura em língua espanhola (o romance ainda não possui tradução para o português). Uma esquina na terra da literatura em que se deve agarrar fortemente a um poste para não ser derrubado pelo vento de letras devastadoras. Devastadoras e fascinantes.

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