Cheguei em Brasília em julho de 1976. A cidade acabara de completar 16 anos. Sabe aquela garota linda e cruel? Era Brasília. Sempre que se fala nela, Oscar Niemeyer é logo lembrado. Nada mais justo e histórico. Nelson Rodrigues talvez dissesse: ‘Oscar Niemeyer tem mais história que Pedro Álvares Cabral’. No entanto, a Brasília que conheci tem pouco a ver com ele. As curvas, as sinuosidades, as ondas do mar e as linhas graciosas naturalmente desenhadas pelas montanhas, as curvas femininas, ah, os seios, os seios…

Para começar, morei três anos e meio numa quadra de milicos, a SQN 103. Isso quer dizer: Super Quadra Norte, sendo 103 o número da quadra. Falava-se: ‘Moro na 103 Norte.’. Se alguém dissesse: ‘Moro na Super Quadra Norte 103’ é porque acabara de chegar, e, obviamente, estava completamente por fora. Quando cheguei, a Asa Norte estava sendo construída ainda, pois Brasília, o plano original e artístico, a criação do mundo, começou pelo chamado Eixo Monumental — por tudo o que é bonito e criativo e histórico e moderno e ousado e sinuoso, com a assinatura do Niemeyer. Depois, veio a Asa Sul.

Deslocar-se da Norte para a Sul era como mudar de cidade nas asas de uma borboleta. A Sul tinha a assinatura do urbanista Lúcio Costa — o responsável pela elaboração do Plano Piloto, que toscamente o desenhou, de última hora, no formato das asas de uma borboleta, e não de um avião. Outra assinatura era a do paisagista Burle Max. Era tão linda a Asa Sul, tão comovente, que me deixava mudo. Estar ali era como morar dentro de uma obra de arte. A outra parte da chamada obra de arte, a Asa Norte, era só tédio.

Em 1976, Brasília não pertencia mais a Niemeyer, Lúcio Costa ou Burle Max. A sua continuidade estava agora em outras mãos, em outro regime político, o dos militares. Eu soube depois: havia, sempre houve, uma disputa para que Brasília não fugisse ao plano original. Mas posso garantir: a Asa Norte, de 1976 a 1980, não tinha nada a ver com a Asa Sul. O esqueleto do Plano Piloto era ainda o de uma borboleta, mas a constituição das asas era de concepção diversa. A Norte que conheci era reta, quadrada, cinza. Era tão cinza, quadrada e reta que nem ao menos eu podia imaginar, segundo uma foto que recebi de um amigo vinte e cinco anos depois, que as árvores recém-plantadas nas beiradas das quadras imprimiriam um visual mais humano ao concreto. Não dava para prever isso, a não ser, talvez, que se tivesse alguma experiência de vida, o que não era o caso, tão tenra a nossa idade.

A Brasília com os poemas sinuosos do Niemeyer lá para as bandas do Eixo Monumental e da Asa Sul estava então muito distante de nós, jovens e doidos da Asa Norte, que sem mais nem menos, filhos de funcionários públicos federais, fomos parar numa cidade disciplinada, irritantemente ordenada, com cada coisa em seu lugar. Uma cidade em que se o morador não tivesse carro — pois Brasília fora planejada não para ser percorrida a pé, mas para ser absorvida de carro — estaria fadado à paralisia e ao tédio. Era o nosso caso. Do Niemeyer que morreu agora faltando poucos dias para completar 105 anos tínhamos apenas raiva e um impulso neurótico de sumir da obra de arte que projetou.

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