Hoje no metrô Butantã aconteceu uma cena que me fez pensar. No meio de todas aquelas caras amarelas que cumpriam rebanhalmente suas vidas, aparece uma garota que chamou a atenção de todos. Estava vestida de um jeito simples, não era nenhum sex symbol, tinha fones nos ouvidos e os olhos baixos.

Eis que ela começa balançar e fazer gestos. Movia as pernas, fazia expressões como se estivesse no balé de Moscou. As pessoas em volta, todas do alto do seu orgulho paulistano classe média, olhavam pra ela com desdém. Alguns até riam alto, faziam troça, repetiam bestialmente ‘que brisa! ela é louca!’. E ela apenas mantinha os olhos baixos e continuava. Do alto de seus julgamentos, entretanto, os transeuntes não puderam notar a diferença entre o louco e o gênio. Os movimentos coordenados que a bailarina fazia eram perfeitos. A leveza das suas passadas de braço ou dos gestos das mãos deixava claro pra qualquer um que não estivesse preocupado em se agarrar ao desespero de ter que diminuir o outro para afirmar a própria existência que ela sabia o que estava fazendo, e sabia muito bem. As paradas dos pés, a rapidez e o modo certeiro com que eles se movimentavam seriam suficientes pra erguer minutos ininterruptos de aplausos caso ela estivesse com as róseas roupas da dança e em um palco de um país frio e estrangeiro. Eles, se pudessem, pagariam para ver o espetáculo nem que seja para postar no Facebook – e nem perceberam que o tiveram de graça.

Essa mania de querer limitar o mundo com as nossas próprias limitações é o que nos faz ainda mais limitados, em uma espécie de bola de neve da pequenez. O simples fato dela romper a expectativa e não usar as roupas que desenham para mentes mais orgulhosamente incapazes de ver o outro sem um olhar pejorativo já rendeu um diagnóstico inquestionável: é louca. Mas qual a diferença dela usar a roupa e não usar? Por que em uma situação ela é aplaudida e em outra é tida por louca? Os rótulos, por um lado, facilitam as nossas vidas porque dizem logo do que se tratam as coisas. Mas por outro, eles são uma maldição porque negam o universo de possibilidades ao reduzir o objeto ao rótulo. Se você lê na embalagem ‘iogurte de morango’, sabe que é de morango. Mas e se experimentasse e não soubesse que é de morango, sem ver cor ou a embalagem, mas apenas o sabor, então, amigo, você não precisa de um iogurte de morango – ele é só uma criação da sua mente. Essa criação faz a gente aceitar valores como postos, introjetar sem reflexão qualquer crença ou religião e permite que sejamos enganados por quem rotula. A simples roupa dela difere o aplauso do escárnio, o pagamento do ingresso do atestado de loucura. Não por acaso, muitas dessas pessoas gastarão suas vidas trabalhando e enriquecendo outras pessoas que usam ternos que lhes conferem rótulos de competência e ares de legitimidade. Não questionarão porque não são promovidos, por que a passagem de ônibus é tão cara, por que as federais se encontram sucateadas. E no meio a tanta frustração, quererão se sentir melhores que os outros, precisarão mostrar superioridade relativa ao mundo, porque eles mesmos, por não carregarem os rótulos da grandiosidade, não acreditam ser lá grande coisa: e assim desdenham bailarinas de metrô.

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